O feitiço voltado contra o feiticeiro

Carlos Chagas

Foi surpreendente a resposta do ministro Joaquim Barbosa à recomendação do presidente do Supremo Tribunal Federal para abrir aos demais ministros os autos do processo contra os mensaleiros. Primeiro, por considerar descabida a iniciativa de Cezar Peluso, “um lamentável equívoco”, tendo em vista que o processo inteiro encontra-se digitalizado e, na Internet, à disposição não apenas de seus pares, mas da torcida do Flamengo. Depois, em especial, por haver concluído e divulgado segunda-feira o seu relatório, já encaminhado ao ministro-revisor, Ricardo Lewandowski.

De Joaquim Barbosa falta apenas o voto sobre cada um dos 38 réus, mas ele informou estar quase concluído.
Ficou claro, assim, que o ministro-relator do mensalão livrou-se das críticas de que arrastava o processo, bem como das insinuações de Lewandowski sobre a possível prescrição da maioria das acusações. A partir de agora, parece haver o feitiço se voltado contra o feiticeiro, quer dizer, se atraso houver, correrá por conta do ministro revisor.

Joaquim Barbosa fez funcionar sua tradicional metralhadora giratória, atingindo Cézar Peluso também pela crítica de haver votado duas vezes na questão que devolveu o mandato de senador a Jader Barbalho. Disse não encontrar na Constituição base para tanto.

Admite-se que se Lawandowski não demorar em sua nova tarefa, lá para maio o plenário do Supremo Tribunal Federal poderá julgar os denunciados como tendo formado a quadrilha responsável por um dos maiores escândalos verificados durante o governo Lula.

A mais alta corte nacional de Justiça encontra-se completa, a partir da posse da décima-primeira ministra, Rosa Weber, também na segunda-feira. A pergunta que se faz é se o julgamento de gente tão importante, “de alta qualificação sob o prisma social, econômico e político”, transcorrerá limitado à argumentação puramente jurídica ou se acontecerá também com viés político. Porque a maioria dos ministros foi indicada durante o governo Lula e, agora, o governo Dilma. São independentes os julgadores, de alto saber jurídico e reputação ilibada, mas por certo não esqueceram o diagnóstico de quem os nomeou, sobre inexistir mensalão, mas apenas operações de caixa dois, freqüentes em todo processo eleitoral.

Enfim, se a resposta a tantas dúvidas sair mesmo em maio do ano que vem, menos mal. O Supremo terá ficado livre da sombra das prescrições.

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GUERRA NOS PRÓXIMOS VINTE ANOS?

É bom prestar atenção na pesquisa divulgada pelo IPEA, a respeito do nosso futuro militar. Conforme as respostas, 50% dos consultados acreditam que nos próximos vinte anos o Brasil será alvo de agressão militar estrangeira, tendo em vista interesses sobre a Amazônia. Em paralelo, 45% entendem que a agressão se dará por conta do pré-sal.

Esta semana, reunida com os principais oficiais-generais, a presidente Dilma reconheceu a necessidade do aparelhamento das forças armadas, capaz de diminuir nossas vulnerabilidades e modernizar os meios operativos. Foi a primeira vez que quebrou o gelo entre o palácio do Planalto e os quartéis, insatisfeitos com o sucateamento de nosso material bélico.

Quando se fala em perspectiva de agressão estrangeira, vale à pena ser direto. Não serão o Uruguai, a Argentina, muito menos a Venezuela, a Bolívia e o Paraguai a ameaçar a soberania brasileira. Nem a Rússia, já que a antiga União Soviética saiu pelo ralo levando com ela a ideologia marxista. Quando se visualizam perigos, eles só podem provir da potência única e dominante no planeta, os Estados Unidos.

Sobre a Amazônia, de lá já ouvimos frases inquietantes, como a de Bill Clinton, para quem a soberania brasileira na região deveria ser relativa. Ou a de George W. Bush, que sugeriu a troca de dívidas por florestas. Diante de uma hipotética invasão, até hoje muito mais econômica do que militar, nossa reação deveria seguir as lições do saudoso general Andrada Serpa, para quem nossos guerreiros deveriam transformar-se em guerrilheiros, ou seja, entrar eles entram, mas sair, nem tanto.

A respeito do pré-sal, torna-se necessário atentar para a coincidência de que meses antes de o governo Lula anunciar a descoberta daquela imensa riqueza, os Estados Unidos já sabiam e recriaram a Quinta Frota de sua Marinha de Guerra, para policiar o Atlântico Sul com porta-aviões, submarinos nucleares, montes de navios e de fuzileiros navais. Não será para vigiar a Costa do Marfim, a Nigéria ou Angola, do lado de lá.

A proporção de forças surge trágica: enquanto nos arrastamos sem poder comprar 36 caças para substituir os poucos que se tornarão obsoletos em três anos, cada um dos vinte porta-aviões americanos dispõe de 90 deles, de última geração. O nosso navio-aeródromo não sai do porto há cinco anos. Dos nossos seis submarinos, só dois funcionam, todos movidos a óleo diesel, porque o nuclear, se ficar pronto, será em 2022.

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SANÇÕES CONTRA RUPTURAS

De importante, mesmo, na viagem feita ontem pela presidente Dilma Rousseff a Montevidéu, só o compromisso reafirmado pelos países do Mercosul sobre o estabelecimento de sanções contra aquele que romper a ordem democrática. Como nenhum dos sócios parece em vias de enveredar por esse caminho, tratou-se de uma cautela.

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ÀS VÉSPERAS DO CAOS

Se não tiver sido adiada nas últimas horas de ontem ou na madrugada de hoje a data para a deflagração da greve nos aeroportos, seria oportuno que nos preparássemos todos para o caos. A intransigência das empresas aéreas, de um lado, e o açodamento de aeronautas e aeroviários, de outro, a partir da noite de amanhã poderão implodir as festas de Natal e Ano Novo no país inteiro. A responsabilidade também deverá ser levada à conta do governo, pois quando o serviço de meteorologia prevê tempestades, o cidadão comum faz previamente uma inspeção nas telhas de sua casa e, se não tiver, compra guarda-chuvas.

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