O filho do vaqueiro

Sebastião Nery

Teotônio Vilela, nordestino de aço, largou a doença maligna entre os lençóis dos hospitais de São Paulo, pegou o avião, desceu em Maceió e entrou, como o peregrino da resistência democrática naqueles anos, na convenção do PMDB de Alagoas, para escolher o deputado José Costa candidato da oposição ao governo do Estado.

Fez um discurso magnífico, emocionado pela força do que dizia e, sobretudo, pela força da lição de luta que dava. No dia seguinte, Ulisses Guimarães, José Costa, candidato ao governo, José Moura, candidato ao Senado, Gerardo Melo Mourão, ex-deputado, eu, fomos todos a Arapiraca para um grande comício no segundo maior colégio eleitoral de Alagoas.

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TEOTONIO

Na volta, no aeroporto de Maceió, encontramos o senador Luís Cavalcanti, do PDS, “o major” como carinhosamente o chamavam os alagoanos desde que foi governador. Luís Cavalcanti, conversando com a comitiva do PMDB, deu um depoimento para a História:

– Não sei se vocês sabem. O fim dos atos institucionais começou na entrevista de Teotônio Vilela com o então presidente Geisel, quando Teotônio comunicou a Geisel que, embora senador da Arena, ia sair pelo País a fora pregando o fim dos atos institucionais, o fim da ditadura, o começo da distensão, para a abertura democrática. Geisel ficou muito impressionado com a decisão e os argumentos de Teotônio. Por isso é que, sempre que eu encontro o Teotônio, eu digo a ele:

– Teotônio, você é um “Aicida”.

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A VACA

Teotônio não era apenas o apóstolo da redemocratização. Era um aplicado discípulo do Cristo. Como Ele, gostava de falar por parábolas. No Clube dos Repórteres Políticos do Rio, eu lhe perguntei por que o governo e a Arena tinham tanto medo das eleições diretas. Ele sorriu e contou:

– A vaca do compadre pobre apareceu no pasto do compadre rico. O compadre pobre pediu ao compadre rico uma corda para tirar a vaca de lá. O compadre rico desconversou:

– Agora, eu vou à missa.

– Mas, compadre, o que é que tem minha vaca com a sua missa?

– Compadre, quando a gente não quer, qualquer desculpa serve.

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ALDO

Teotonio era usineiro e fazendeiro em Viçosa, Alagoas. Entendia de pasto e de vaca. Mas na fazenda dele vivia alguém que entendia mais de vaca e de pasto do que ele. Era o vaqueiro José Figueiredo, que tinha um punhado de filhos e cuidava da fazenda de Teotônio.

Um dos filhos do vaqueiro José Figueiredo, José Aldo Rebelo Figueiredo, nascido em 1956, gostava de montar nos cavalos e sair pelas roças e pastos. Mas aprendeu a ler e gostava mais ainda de ler. Foi estudar no Colégio Agrícola Floriano Peixoto, de Alagoas, tornou-se jornalista. No meio do curso de Direito, transferiu-se para São Paulo, onde em 1980 se elegeu presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Correu mundos. Um dia, em 89, nos encontramos na Líbia de Kadafi. Em 88 tinha sido eleito vereador por São Paulo, na legenda do PCdoB, de cuja direção nacional era membro. Em 90, elegeu-se deputado federal e até hoje se reelege, tendo sido presidente da Câmara de 2005 a 2007.

Candidato a vice-prefeito de São Paulo na chapa de Marta Suplicy em 2008, foi derrotado com ela, perdendo para o múltiplo Gilberto Kassab.

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MANDIOCA

Aldo é autor na Câmara de alguns projetos polêmicos, tanto mais polêmicos quanto mais necessários, como o que restringe o uso de palavras estrangeiras em documentos ou obras públicas nacionais, para conter um pouco essa cretina, suburbana e colonizada mania de dar nomes estrangeiros a edifícios, lojas, salões de cabeleireiros, termas e puteiros.

Outro projeto que mobilizou contra ele poderosos grupos externos e internos foi a adição de 10% de raspa de mandioca na farinha de trigo destinada à fabricação do “pão francês” (o pãozinho de sal), consagrado estudo da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisas Agrícolas) de Cruz das Almas, na Bahia. O Brasil é o maior produtor mundial de mandioca.

O projeto continua enfiado em alguma gaveta da Câmara, escondido pelos conhecidos faturadores de interesses inconfessáveis contra o pais.

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MINISTRO

Quando vi o filho do vaqueiro, Aldo, relator do Código Florestal, sabia que mais uma vez ele iria enfrentar dificuldades. Mas também sabia que pouca gente, no Congresso, entende de roça e campo quanto ele.

Agora, Aldo foi convocado pela presidente Dilma para pôr um fim na intolerável rapinagem das ONGs partidárias no ministério dos Esportes.

Se o governo fizer como Teotônio e lhe der cavalo e pasto, Aldo vai longe.

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