O fim de uma era

José Roberto Mendonça de Barros  (Estadão)

Estamos vivendo o final de uma era. Vários fatores, externos e internos, se conjugam para isso. Vejamos os mais relevantes:

CHINA –  Fim do crescimento acelerado da China: como todos nós sabemos, a China passa por um delicado rebalanceamento de sua economia, onde a nova liderança política pretende reduzir o peso do investimento como fator líder do crescimento, em benefício da elevação do consumo. Este é relativamente baixo, pois é estimado como sendo da ordem de 35% do PIB. Existem outros aspectos importantes desta política, como um esforço para elevar o conteúdo tecnológico das exportações, mas o fato é que o melhor resultado que se pode esperar para este ano é um crescimento de 7,5%. Olhando mais adiante, o PIB irá se expandir a uma taxa ainda inferior a essa. Mesmo ressalvando que a demanda de alimentos e de petróleo continuará a crescer de forma rápida, os ganhos de renda via preços de exportação de commodities serão menores, afetando negativamente o Brasil.

JUROS BAIXOS – Fim do período de juros internacionais muito baixos: como todos sabem, o Banco Central americano vem sinalizando uma suave reversão da política monetária expansionista. Com isso, o juro de mercado dos papéis longos já subiu algo como 600 pontos. Este movimento e a volta do crescimento mais robusto em 2014 estão levando a uma valorização da moeda americana e a uma alteração nos fluxos de capitais na direção daquele país. Assim, o custo de capital para o Brasil tende a se elevar. Também nossa política comercial externa mostrará mais uma de suas fragilidades, qual seja, o fato de ter abandonado há dez anos qualquer esforço para elevar a penetração de produtos brasileiros no maior mercado do mundo, algo que é parte da explicação de porque nossas exportações estão enfraquecendo rapidamente.

DEMANDA INTERNA – Fim do crescimento rápido da nossa demanda interna: como se sabe, a partir de 2010 a demanda das famílias começou a enfraquecer, o que hoje é visível a olho nu. Não se repetirão mais a velocidade da inclusão de novas famílias no mercado de consumo (não existem outros 13 milhões de domicílios que possam receber o Bolsa Família), a bancarização acelerada de novos clientes e a existência de baixos níveis de endividamento. Ao contrário, o elevado comprometimento de renda com prestações é hoje uma limitação à expansão rápida do consumo. É por isso que todos os esforços governamentais para bombar a demanda têm tido resultados pífios.

FOLGA FISCAL -Fim da folga fiscal: a arrecadação vai se elevar muito mais lentamente, tornando mais difícil financiar novos gastos, elevações reais do salário mínimo e novas concessões de benefícios fiscais.

CRESCIMENTO DO PIB – Fim do período de crescimento rápido do PIB: no período 2011 / 2013, o crescimento do PIB será inferior a 2%. Isso não acontece por acaso. Já se discutiu à exaustão que ou as condições de oferta melhoram e, junto com elas, nossa competitividade, ou uma boa parte do modesto crescimento da demanda vai vazar para o exterior, na forma de maior importação. Pelo menos dois fatores estão se transformando num obstáculo intransponível para se atingir crescimento mais robusto. Falo aqui do custo total da mão de obra e da carga tributária. O custo do trabalho não para de aumentar (salários, encargos e outros dispêndios) e não tem qualquer ligação mais sistemática com a elevação da produtividade. E este é um processo ainda em curso, pois, como já mostrou José Pastore, a legislação trabalhista não para de criar novos gastos por todos os tipos de razão, e isto sem considerar a nova pauta sindical, onde se inclui a demanda da semana de 40 horas de trabalho, que será discutida neste semestre.

IMPOSTOS – Simultaneamente, a complexidade de nossos tributos está atingindo limites insuportáveis para as companhias. Não se trata apenas do tamanho da carga, mas da insanidade da mudança cotidiana de regras dos mais diversos tipos de impostos (PIS/Cofins e ICMS, especialmente). Se estes dois fatores não forem adequadamente encaminhados, nossos custos de produção jamais se tornarão de novo minimamente competitivos. Ao mesmo tempo, é sonho imaginar que uma megadesvalorização cambial magicamente resolve esses problemas, sem ser dissipada por uma forte inflação.

CAMPEÕES NACIONAIS – Fim do novo experimento de campeões nacionais: este fenômeno já vinha se delineando desde o colapso dos grupos Independência e Bertin, do caso LBR e outras dificuldades. Entretanto, a derrocada do Grupo X ilustra o ponto de forma definitiva. Embora o ajuste ainda não tenha terminado, é certo que o conglomerado das seis empresas não existirá mais como tal. A empresa de energia (MPX) terá outro controlador, os dois portos, que são bons ativos, deverão ter continuidade com outra organização empresarial. É nebuloso o futuro dos ativos ligados ao petróleo.

AÇÕES EM QUEDA

Mesmo no melhor cenário, as perdas resultantes deste processo serão muito expressivas. Por exemplo, se tomarmos o preço das ações das seis empresas abertas, nas datas das respectivas operações, e colocarmos os valores em dólar e compararmos com os preços do último dia onze, chegaremos a uma perda do mercado da ordem de US$ 12 bilhões. A OGX e a OSX tinham colocado no mercado externo bônus da ordem de US$ 4,1 bilhões, sendo que o mais líquido deles está hoje sendo negociado a 16 centavos por dólar. Muitas dívidas bancárias estão sendo renegociadas, processo que está longe de seu final. Entretanto, é certo que o volume de provisão que o sistema terá de fazer será considerável. É fácil antever que o mercado de crédito ficará ainda mais seletivo. Outros credores e fornecedores também estão sendo afetados.

A forte deterioração das expectativas e o desarranjo político atual tem, em parte, a ver com a percepção dessas tendências.

Estamos realmente no final de uma era, especialmente de uma era onde o marketing é mais importante que os fatos, onde o discurso é que estamos a um passo do paraíso, enfim, do nunca antes neste País. Vai ser preciso trabalhar muito para voltar a crescer. (artigo enviado por Mário Assis)

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2 thoughts on “O fim de uma era

  1. Sintético, compreensivo e excelente artigo do bom Economista Sr. José Roberto Mendonça de Barros. Mas o fim de uma Era Econômica não é o fim do mundo. É verdade que a janela de +- 8 anos de boa conjuntura internacional para o Brasil, deveria ter sido melhor utilizada, e reduzido bem mais nosso duplo Deficit, ( Fiscal, fruto de nosso Deficit do Orçamento Federal +- 3% do PIB; e o Deficit do Balanço de Pagamentos Internacional +- US$ 80 Bi/ano). A Economia Nacional é composta por Empresas Estatais, Empresas Privadas Nacionais e Empresas Internacionais. Para o País ter bom Padrão de Vida, a Hegemonia deve ser da Empresa Privada Nacional e da Empresa Estatal Nacional. No Brasil temos o contrário, hegemonia da Empresa Internacional. Um Governo que queira melhorar o Padrão de Vida do Povo, tem que atuar para que tenham hegemonia a Empresa Privada e a Estatal Nacionais. Os Governos Presid. Lula/José Alencar e Presid. Dilma/Temer fizeram mais que os recentes anteriores nesse sentido. Poderiam ter feito mais. Nas Estatais o Governo reforçou a Petrobras e todo o complexo Petróleo que hoje atinge +- 11% do PIB, mas a Petrobras está numa fase de gigantescos Investimentos (+- US$ 250 Bi nos próximos 5 anos) que só darão frutos daqui +- 8/10 anos, na Eletrobras, Embratel, etc. Na Empresa Privada Nacional este Governo perseguiu corretamente a Política de Campeões Nacionais via BNDES e embora com insucessos em vários casos, Grupos Bertin, LBR, Grupo X, deve corrigir os erros e seguir no mesmo sentido, pois reforça a Empresa Privada Nacional. Temos ainda que fazer no estratégico setor da Indústria de Automóveis o que fizemos no setor da Aviação com a EMBRAER, criação do imortal Engº OZIRES SILVA e seus companheiros, e também em outros setores. O Brasil, com seus 200 Milhões de Brasileiros tem gente capacitada para tudo isso, e saberá fazer as Reformas necessárias para começarmos nova Era de prosperidade e Desenvolvimento. Abrs.

  2. “Ao contrário, o elevado comprometimento de renda com prestações é hoje uma limitação à expansão rápida do consumo. É por isso que todos os esforços governamentais para bombar a demanda têm tido resultados pífios.”

    Não basta o povo já estar endividado com os bancos e crediários das Casas Bahia pelos próximos 70 meses. Agora vem a Caixa (PT) e enche a TV de propagandas da “Minha Casa Melhor”, programa para incentivar a compra de móveis e eletrodomésticos, mediante financiamento do banco público. O governo fala “povo, consuma e endivide-se”.

    Além de o brasileiro não ter a tradição de poupar, agora é estimulado a se endividar ainda mais. Daqui a pouco o BNDES passa a oferecer crédito de consumo para pessoas físicas.

    E a produção continua estagnada. O povo consome mais, a produção não aumenta, logo, aumenta a inflação.

    Só os cegos não vêem.

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