O general e o hino

Sebastião Nery

O general Camacho Leiva, ministro da Defesa da Colômbia, em outubro de 1979 foi visitar o que eles chamam de “Trapézio Amazônico”, a fronteira da Colômbia com o Brasil e o Peru, cuja cidade colombiana mais importante é Letícia, às margens do Solimões, diante da brasileira Benjamin Constant. O general chegou profissionalmente posudo, mandou as crianças ficarem em posição de sentido e deu voz de comando:

– Cantem o hino nacional!

A meninada cantou. Só que cantou o hino nacional do Brasil. O general-ministro voltou uma fera para Bogotá.

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CARTAGENA

No dia seguinte, já lá em cima, na histórica Cartagena de Bolívar, García Márquez, Eduardo Galeano, esperando o telex ficar livre para também escrever sua matéria, o jornalista colombiano brincou comigo:

– Ontem eu contei a fúria do meu ministro da Defesa porque as crianças da nossa fronteira amazônica cantaram o hino de vocês. Quero ver agora se você vai escrever sobre o imperialismo brasileiro.

– Não vou, não. A menos que você me dê dados, provas. Na América Latina, desde que nascemos vivemos cantando hinos e ouvindo generais.

– Há setores da ditadura militar brasileira sonhando em ver o Brasil transformado nos Estados Unidos da América do Sul, penetrando na vida, na cultura e na economia dos países menores. Aqui, as universidades, os políticos mais sérios e os dirigentes mais responsáveis começam a preocupar-se. Todos sabemos que as nações são sobretudo interesses.

Acendeu um cigarro e foi para a janela fumar, enquanto eu escrevia.

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NARCOFARC

Trinta e três anos se passaram. A Colômbia continuou virtualmente entregue aos mesmos dois grandes partidos, o Conservador e o Liberal. Em 79, já fazia outros 30 anos que os conservadores mandavam quatro anos e quatro anos os liberais governavam. Pouco importava se, por acaso, o povo elegia mais deputados de um ou de outro. Governava quem estivesse na vez.

Com isso, os conservadores eram cada vez mais conservadores e os liberais cada vez menos liberais. E mais. O grupo que ia para o poder entregava quase a metade dos cargos ao que saia. O povo foi ficando furioso com a farsa, mas sem instrumentos políticos legais para reagir.
Primeiro resultado: na eleição de 78, a abstenção foi a mais de 60%. Segundo resultado: a juventude, os intelectuais, os sindicatos desesperaram-se e foram para a guerrilha. Essa mesma guerrilha, que se degenerou em NarcoFarc, em 2008 fez 40 anos estarrecendo o mundo, seqüestrando e mantendo vivos na floresta, durante anos e anos, esqueletos humanos, como a esquálida mártir Ingrid Bettancourt, feitos moeda de seus narconegócios.

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COLÔMBIA

Naquele 1979, previ e escrevi aqui (e está em meu livro “Sibéria, El Salvador, Nicarágua e outros mundos”):

1 – A Colômbia tem um dos mais antigos movimentos guerrilheiros do mundo e certamente o mais constante da América Latina. É o vômito nacional contra uma impostura política. E como a guerrilha não é solução, tanto que até agora (já em 79) não foi, o país vive um impasse cruel.

2 – A situação econômica se agrava, a inflação dispara, o povo mergulha numa pobreza de fazer dó e as empresas e interesses multinacionais ocupam o país completamente. Ou a Colômbia encaminha seus dramas políticos e econômicos, ou continuará refém da guerrilha.

Vinte e nove anos depois, vejo que infelizmente estava certo.

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MAPAS

Quando o avião descia em Cartagena, tive a impressão de que descia ao lado dos Alagados de Salvador, na Bahia, à beira da Brasília Teimosa, do Recife, ou sobre a Favela da Maré, no Rio. Milhares de casas plantadas dentro do mangue, invadindo o mar de maré baixa e o povo miseravelmente vestido, os pés descalços, os rostos sofridos, transidos e desenganados.

Ali, no avião, tive raiva da geografia. Quando menino, tinha fascínio pelos lugares longe, principalmente de nome bonito, como aquela Cartagena misteriosa, fundada em 1533 pelo espanhol Pedro Heredia, hoje patrimônio cultural da Humanidade, com seu monumental conjunto colonial.
Se tivessem portos ou golfos, mais ainda. A escola primária foi um sonhar constante sobre os mistérios do mundo desenhados nos mapas. Quando os encontrei, descobri que a geografia era a miséria do povo pintada a cores nos mapas da infância. Ou será nos mapas da infâmia?

Os anos passam e nada muda.

 

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