O gordo (crônica do comentarista da Tribuna que trabalhava como taxista, com 184 kg)

Francisco Bendl

Sou um homem gordo, dizem. Colegas do ponto de táxi– alguns magros e antipáticos metidos a elegantes – me elegem como alvo para brincadeiras constantes (nem sempre estou disposto a ouvi-las). Passageiros me perguntam se não me sinto mal com este peso excessivo. Respeitosamente eu lhes respondo que é o carro que está nos conduzindo… Não nego, no entanto, que entrar e sair do Siena não é tão simples, pois preciso me utilizar de uma certa “técnica”.

Um dos tantos constrangimentos que o obeso vive está no transporte coletivo (andar de ônibus, nem pensar!). A catraca do cobrador é a grande inimiga e o flagelo do gordinho, para gáudio e alegria dos demais passageiros. Dá pena a aflição do bem nutrido quando tem de descer com rapidez e se encontra pagando a passagem. Uma verdadeira catástrofe!

De modo a que eu não mais desempenhasse o papel do homem-entalado, ando agora somente de lotação, confortavelmente sentado, pois mesmo que alguém se atreva a dividir o assento comigo sua única opção é ir em pé, para minha satisfação e acomodação.

Nós, gordos, enfrentamos – além do peso – desprezos explícitos, olhares de rejeição, maledicências, sendo que seria extremamente benéfico se aceitássemos que não reside somente na estética o nosso maior problema, mas na perda da saúde gradativamente. Vai dizer isso para o gordo, tenta…

Um episódio divertido e que retrata fidedignamente o quanto somos discriminados e o verdadeiro asco que sentem de nós, foi quando busquei um passageiro numa academia, por sinal, muito conhecida da cidade. Botei o pé na porta e a primeira moça que me viu abandonou rapidamente sua atividade física, estampando na face um terror que eu jamais vira igual!

Outra jovem, esbelta, não acreditava no que via, no seu espanto era como se eu fosse um extraterreno; a terceira, que deveria ser a atendente, correu ao meu encontro berrando: “Não temos vagas, não temos vagas”!

Propositadamente, depois da calorosa recepção resolvi me demorar um pouco mais nas dependências daquele templo das formas (câmara de tortura física, para mim) ou fábrica de ilusão à perfeição corporal para muitos. Nesse tempo que permaneci lá dentro causei tamanho mal-estar que dois jovens vieram me pedir educadamente que eu me retirasse porque estava comprometendo a imagem do estabelecimento!

Alguns passageiros que transporto me falam em cirurgia bariátrica como solução; outros, em reeducação alimentar; os mais radicais dizem severamente que devo fechar a boca, passar fome, se quero de fato emagrecer; pessoas místicas, religiosas, espiritualistas, me ordenam fazer promessas, rezar, usar de simpatias e andar com amuletos. Dizem até que meu peso é castigo divino; vegetarianos acusam a carne como a maior responsável à obesidade.

Conhecidos meus, homens e mulheres, donos de corpos bem delineados, magros, me sugerem sexo em profusão (claro que observo um sorriso matreiro no canto de suas bocas); clientes do táxi que são verdadeiros atletas dizem que devo caminhar, percorrer dezenas de quilômetros(!), me exercitar sem parar…

Alguns intelectuais que eventualmente andam comigo me indicam livros que abordam essa temática, que divulgam regimes espetaculares, que determinam a eliminação dos carboidratos nas refeições e não ingerir líquidos ou medir alimento por alimento o índice glicêmico ou separá-lo por cor ou que tenha mais fibras.

Pobre de nós, os gordos, se ousássemos nos orientar por essa variedade de conselhos, opiniões e indicações. Indiscutivelmente nosso destino seria o hospício! Magros, porém, absolutamente loucos!

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