‘O governador não ouviu os conselhos que lhe dei’, diz ex-sócio de Witzel em escritório

Advogado Fábio Medina Osório: ex-sócio de Witzel em escritório Foto: Michel Filho / Agência O Globo

Medina Osório aconselhou Witzel a seguir apoiando Bolsonaro

Chico Otavio
O Globo

O advogado Fábio Medina Osório lamentou que o governador afastado Wilson Witzel, ex-sócio de seu escritório, não tenha ouvido seus dois conselhos: livrar-se de colaboradores “de conduta imprópria” e não romper com o presidente Jair Bolsonaro. Ele frisa que teve com Witzel apenas uma relação republicana.

O nome do senhor figura no relatório produzido pelo Ministério Público Federal para fundamentar a operação que afastou o governador Wilson Witzel, seu ex-sócio. O que pode dizer sobre isso?
A atuação do escritório no governo do Rio e em poderes públicos em geral sempre foi pautada pela legalidade e pela ética. Na relação com o governo do Rio, o escritório atuou em processos com procuração, petições, despachos e com interlocução institucional qualificada. As relações sempre foram republicanas.

O senhor admite que intermediou o pagamento de uma dívida milionária do governo a Masgovi, fornecedora de quentinhas para o sistema penitenciário?
No caso Masgovi, houve atuação, com procuração nos autos, petições, obtendo descontos para o estado. O valor da dívida era de R$ 48.456.931,27. Houve desconto real de R$ 8.526.000,00 em benefício do governo; além disso, a Masgovi se comprometeu a investir R$ 10 milhões na conclusão de duas indústrias lácteas no Rio, que vão gerar mais de 200 empregos diretos e o retorno do valor quitado pelo estado em até cinco anos pelo ICMS. Esta petição passou pelos dois secretários, da Fazenda e da Seap. Em razão do desconto, você obtém o valor antecipado. Negociação normal.

Após ser eleito, Witzel recebeu cerca de R$ 500 mil, como honorários, ao deixar a sociedade de seu escritório, com pouco mais de dois meses de trabalho. Como justifica o pagamento?
Ele deixou a magistratura para ingressar no meu escritório. As chances de virar governador eram mínimas. Tinha um contrato de três anos conosco. Era meu amigo e tinha potencial de gerar projetos pela experiência na magistratura. Mas não deu tempo de trabalhar porque foi para a campanha política. Ficou combinado que eu não daria luvas ou honorários no período de campanha eleitoral. Só depois. Não queria correr o risco de que ele drenasse esses recursos para a campanha. Ninguém acreditava na vitória dele. Foi grande surpresa para todos nós. Quando retornou, já vitorioso, decidimos desligá-lo do escritório fazendo rescisão contratual. Na rescisão, fizemos um cálculo do que ele ganharia e entramos num acordo. Deu prejuízo, mas foi justo. Nós convidamos, e ele saiu da magistratura por nossa causa.

Como ficou amigo de Witzel?
Eu o conheci quando era presidente da Ajufe-RJ (Associação dos Juízes Federais do Rio de Janeiro) e nós éramos advogados da Ajufe no Brasil. Tínhamos uma boa relação. A partir daí, foi se aprofundando em encontros e seminários. Eu era convidado como palestrante e falava de direito administrativo. A ideia de se candidatar a cargo eletivo foi dele. E ele procurou o meu escritório para advogar. Foi um plano B. Eu não sabia que ele tinha parceria com outros escritórios. Não tinha me falado. Não sabia da parceria no Espírito Santo.

Que fatores pesaram para seu afastamento?
O governador errou politicamente. Não ouviu os conselhos que lhe dei. Um deles foi ter se afastado do presidente Bolsonaro. Outro, não ter feito a candidatura dele precipitadamente a presidente da República. O melhor seria se recandidatar e ter Bolsonaro como aliado. Daí, passou a derreter na opinião pública. Foi o grande erro. Witzel também errou ao manter colaboradores que certamente mancharam a imagem. Alguns desses hoje estão presos. Não preciso dizer mais nada. Alguns têm antecedentes. Outros, com certeza, a proximidade do convívio dava sinais eloquentes quanto à conduta imprópria. As pessoas de boa fé, perto do governador, o alertavam que alguns personagens não se conduziam com o padrão moral dele.

7 thoughts on “‘O governador não ouviu os conselhos que lhe dei’, diz ex-sócio de Witzel em escritório

  1. Lembrou me do Brizola que após eleito em 82 foi limpando o PDT. Sebastião Nery, Alcides da Fonseca, Agnaldo Timóteo, Cezar Mala, Garotinho e outros. Um a um foram mostrando suas reais intenções e foram “convidados” a se retirar. Mas a Globo Lixo que a poucos anos só perseguia a esquerda titulação Brizola como “Caudilho”.

  2. O meu velho e saudoso pai, um tira comunista perseguido pelo sistema podre, dizia o seguinte: ” os lobos perdem o pelo, trocam a pelagem, mas não perdem os vícios”. O sistema bandido e seus operadores, ao que parece, agora trocaram as “agências de publicidade” por ” escritórios de advocacia”, infeliz e desgraçadamente. Já queimaram o filme da publicidade agora estão queimando o filme da advocacia. Coitados dos advogados idealistas que tb acabaram marginalizados por causa dos picaretas que fizeram do sistema político podre fonte de enriquecimento rápido e ilícito. A OAB tem que agir rápido contra esses bandidos, para não ser arrastada para o mar de lema da república 171, colocá-los pra correr pra fora da advocacia.

  3. Jamais alie-se a alguém apenas pelo seu discurso. Nunca apoie um político por causa de suas palavras. Usar a linguagem, na forma e no conteúdo, para cooptar apoiadores é a arte da política e o instrumento preferido dos psicopatas.
    Um psicopata consegue defender, tranquilamente, uma ideia hoje e outra contrária amanhã, com a mesma veemência e coerência. Quem o escuta, se não toma as devidas precauções, acaba persuadido. Afinal, exteriormente, suas falas possuem todos os elementos estéticos que confirmariam sua veracidade, sinceridade e honestidade. Exemplos Witzel, Doria, os Governadores do Nordeste… que traíram Bolsonaro.
    Em geral, as pessoas não são treinadas para separar linguagem e realidade e, por isso, não vislumbram o caráter simbólico das palavras, confundindo-as com a coisa-em-si. Quando ouvem alguém falando qualquer coisa, têm dificuldade de abstrair o discurso, de enxergá-lo como meras expressões vocais, meros sopros que saem da boca do falante. Se ouvem alguém defendendo a pátria, já tomam-no por patriota; se o escutam xingando comunistas, têm-no por direitista; se a pessoa fala de Deus, recebem-no como crente. Por causa disso, são facilmente enganáveis.
    Gente comum fica estupefata quando testemunha alguém fazendo um discurso completamente inverso do anterior, com a mesma convicção e energia. Em sua lógica simples, duas coisas contrárias não podem coexistir. Nisso, confunde a linguagem com a realidade, que são entidades de categorias diferentes.
    A coerência no discurso só existe por escrúpulo, não por qualquer dificuldade real. Manter a coerência é uma atitude psicológica, de quem sofre com a culpa por não conseguir ser incoerente. No entanto, psicopatas não sentem culpa e, boa parte deles, está na política. Por isso, parar de ouvi-los e, principalmente, de acreditar neles, é a coisa mais inteligente – e profilática – a se fazer. Cadeia para esses maus brasileiros.

    • Cidadão Brasileiro, tens razão, muita razão!
      Fazer o discurso numa direção e depois de eleito mudar a direção do discurso, demonstra falta de caráter.
      Aproveito teu exemplo, por verdadeiro ser, para o caso do presidente atual.
      Sem justificação lógica, assumiu compromissos com milhões de brasileiros e, sem quaisquer justificativas, passou a desrespeitar a palavra empenhada.
      O exemplo que dou se enquadra em tuas definições.

  4. “Psicopatas, de todos os segmentos sociais, loucos por dinheiro, poder, vantagens e privilégios, sem limites, afluíram para o sistema político podre para fazerem dele meio de enriquecimento fácil e rápido, não obstante ilícito.”

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