O grande poeta Paulo Mendes Campos, que lancei em 1951, quando dirigia a revista Manchete, eu e ele com 30 anos, redescoberto e republicado

Helio Fernandes

30 anos depois, redescobrem o grande poeta. Eu descobri o Paulinho quando ele tinha exatamente 30 anos. Em janeiro de 1951, assumi a direção da revista Manchete, que tinha 3 meses de existência e o dobro ou o triplo em matéria de fracasso.

A revista primorosamente impressa, mas esqueceram (ou não sabiam) que jornalismo era indispensável. A capa do primeiro número era um bico de papagaio, a segunda, a liteira da Marquesa dos Santos. Não podia resistir. Tentaram vender a revista para Samuel Wainer (estava no auge, lançara a Ultima Hora), respondeu: “Dou 500 cruzeiros porque gosto do título”.

Fui convidado para dirigir a revista, resisti o quanto pude. Quase um mês depois, por insistência de amigos, aceitei. Isso com exigências, que viraram folquelore. A primeira, pagar os colaboradores em dia, diziam que não gostavam de pagar, o que não se confirmou.

A segunda e mais importante e indispensável, eu disse para os Blochs: “Vocês não podem entrar na redação, só verão a revista quando estiver pronta”. Aceitaram sem restrição.

Mais ou menos um ano depois, a Manchete era sensação, já vendia 150 mil exemplares. Mas vejam só a razão desse sucesso. Muito jornalismo, e levei para a redação da Frei Caneca, gente que estava começando, sem nome ou sobrenome.

Constatem e reconheçam os nomes de acordo com a minha relembrança: Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Fernando Lobo (que acabara de chegar de Pernambuco como comentarista de futebol, grande cronista e mais tarde pai do Edu), Carlinhos de Oliveira (que viera do Espírito Santo com 17 anos, me mostrou uma crônica magistral, que publiquei e só depois fui saber que fora escrita no dia da morte do pai), Antonio Maria (que logo se realizou e se consagrou, mesmo sem ter tempo, pois morreria logo depois do golpe de 1964, mocíssimo), e mais uma porção de desconhecidos, que se realizaram de forma fulgurante.

Uma referência especial para Rubem Braga. Já era ele mesmo, 10 anos antes, com uma crônica, derrubara a censura antecipada ou preventiva. Escreveu um artigo, com o título “O fícus da Praça Paris”. Abafado no trabalho, o censor rabiscou um “aprovo”, a crônica “desceu”, o que “subiu” foi a revolta do ditador.

Rubem Braga comparou o fícus da Praça Paris com a bunda do ditador. Getulio, revoltado, falou para o seu chefe da Casa Civil (Lourival Fontes, um dos homens mais geniais e mais sem caráter que conheci), ordenou: “Chame todos os donos de jornais, diga que acabou a censura prévia. Agora, cada um será responsável pelo que sair. Não quero falar com eles, dê as ordens”.

Dei um espaço para Rubem Braga, que passou a se chamar “Duas páginas de Rubem Braga”. Criou muitas coisas, inclusive uma sub-seção, intitulada “A poesia é necessária”. Dois meses depois, completava 40 anos (era o mais vivido de todos), demos um almoço para ele, no excelente restaurante da própria Manchete.

Depois da revista O Cruzeiro (onde comecei ainda menino), a Manchete foi o mais polêmico e agradável local de trabalho. Já éramos todos profissionais, tínhamos horário para entrar e para sair, a revista pagava muito bem. Isso durou até dezembro de 1952, quase exatamente 2 anos.

Adolfo me chamou, a revista ficara politicamente muito poderosa, me falou: “Helio, não quero que você saia de jeito algum, mas nosso negócio é a gráfica. E 80 por cento dos clientes são multinacionais, não reclamam mas ficam preocupados”. Compreendi perfeitamente.

Uma revista ou jornal dirigido por mim, tinha que ser “jornalistizado, nacionalizado, editorializado. Na revista O Cruzeiro, as capas tinham que ser obrigatoriamente de mulheres. Na Manchete, botei Stalin na capa quando ele morreu, a mesma coisa com Eisenhower quando foi eleito presidente dos EUA.

A AMIZADE COM PAULO MENDES CAMPOS

A redação era muito unida, amigos no trabalho e fora dele. O mesmo comigo, eu era ainda mais moço do que eles. Mas minha ligação com Paulinho era maior do que tudo. Ele casou com a inglesa Johnny (Joninha), extraordinária personagem que ficou também minha amiga.

Paulinho estava na fase de experiência com o ácido lisérgico (Aldous Huxley), me tentava, me seduzia, insistia para que eu fizesse a experiência. Dizia: “Helio, é maravilhoso, não há o menor perigo. Na ida pode haver talvez uma dose de aventura. Mas a volta é indescritível, não há nada que se compare”.

60 anos depois, posso lembrar Paulo Mendes Campos, mas não posso defini-lo nem esquecê-lo. Com conversador, aos 30 anos já acumulara uma cultura excepcional. E não apenas poética.

Durante nos, mesmo depois da Manchete, nos encontrávamos praticamente todas as noites nas boates Vogue e Sacha, acabávamos lá para comer ou para beber. Infelizmente, Paulinho preferia a segunda opção, quase sempre na minha mesa.

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PS – Paulo Mendes Campos era o melhor de todos, na poesia ou fora dela. Na Manchete escreveu crônicas admiráveis.

PS2 – Portanto, a ideia de “relançar” ou “reeditar” Paulinho, merece todos os louvores. Paulinho não morreu, foi esquecido. Relembrá-lo é obrigação de quem o conheceu.

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