O grito dos surdos

Sebastião Nery

Mariano da Rocha, o velho reitor da Universidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, foi um dos três candidatos a senador na legenda da Arena em 1978. A comitiva do partido, fazendo a campanha no interior, chegou a uma cidadezinha ao lado de Palmeira das Missões.

No palanque, os três candidatos: Mariano da Rocha, Mario Ramos e Gay da Fonseca. E Amaral de Sousa, futuro governador já nomeado, o vice Otavio Germano e todo o comando da campanha. O prefeito era da Arena, mas o presidente da Câmara de Vereadores era o líder do MDB na cidade.

Primeiro a falar, o reitor começou elogiando as autoridades: o prefeito, o vigário, o presidente da Câmara, o delegado. Ia tudo bem, até ele chegar ao presidente da Câmara. Foi enfiando adjetivos e homenagens.

***
MARIANO DA ROCHA

No palanque, a comitiva começou a ficar preocupada. A praça, cheia de arenistas, não estava gostando de tantos elogios ao líder do MDB na cidade. Amaral de Sousa aproximou-se do reitor e lhe disse ao ouvido:

– Doutor Mariano, o presidente da Câmara é nosso adversário.

Mariano da Rocha, já surdo como uma porta, não entendeu:

– Como é? Então é aniversário dele? Eu não sabia. Ótimo!

O reitor elevou ainda mais a voz, gritou:

– E veja o povo desta cidade que feliz coincidencia. Só agora fico sabendo que chegamos aqui exatamente no dia em que o ilustre presidente da Câmara de Vereadores está fazendo aniversario. Uma salva de palmas para ele e vamos todos cantar o parabéns pra você.

Não houve palmas nem parabéns. O comício acabou.

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