O homem da Sibéria

Sebastião Nery

Boris Kolesnikov, menino asiático, vivia com o pai, a mãe e três irmãs no sul da Sibéria, abaixo do lago Baikal, fronteira com Mongólia e China. Em 1946, morre o pai e ele decide fazer a grande aventura.

Pôs um saco nas costas, ganhou mundo, pegou o Rio Angara, depois o Enissei e foi parar no Pólo Norte (o Grande Norte, como eles chamam, que se estende da fronteira da Finlândia até o Estreito de Behring, no Alasca), onde mora, todo vestido de branco, o gelo eterno.

Foi lá que o encontrei, em janeiro de 1981, como diretor-geral do complexo industrial da Norilsk, o mais importante de todo o Pólo Norte mundial, na peninsula de Taymir, na Sibéria. Ele era testemunha e personagem de uma das mais fantásticas historias da aventura humana.

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SIBERIA

Norilsk, a Veneza do gelo, acima do Paralelo 69, já tinha então mais de 200 mil habitantes. Antes, acreditava-se que era impossível, a quem chegasse de fora, como eu, suportar a insuficiência de vitaminas e de raios ultravioleta, oprimido pelas longas noites polares e os dias curtos, muito curtos, pois durante 47 dias, a cada ano, não há dia. É a noite eterna.

É impossível sair caminhando, porque o vento furioso das tempestades de neve, capaz de derrubar gente grande, sopra sem parar, cortando fino como navalha. Nos nove meses do inverno (e eu estava lá em pleno inverno), mais de 100 milhões de metros cubicos de neve caem sobre a cidade. Os ventos árticos sopram a 30 metros por segundo e o frio era de 55 graus abaixo de zero, chegando às vezes a 70 graus negativos.

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NORILSK

Construída no gelo e na neve, sobre a merzlota, em cima de pilotis de cimento armado, com edifícios altos, Norilsk derrotou a neve e o gelo. Tem tudo de uma cidade normal, excelente hotel, escolas, biblioteca de milhões de volumes e uma vida e uma atividade de trabalho como qualquer outra.

Com o sul, está ligada através do Rio Enissei, navegável. Com o extremo Norte, por uma ferrovia eletrificada de 120 quilômetros, que vai até o Porto de Doudinka, o maior do Pólo Norte, portão de saída para o mundo.

Toda essa enorme infra-estrutura foi montada por causa das riquezas da península de Taimyr: petróleo, gás, os diamantes de Yakoutie, as apatitas de Khibiny, ouro, minérios, metais, caça pesca e criação de hienas.

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TRUDEAU

O complexo industrial nasce da central hidrelétrica de Oust-Khantai e um gasoduto de 263 quilômetros e imensas usinas metalúrgicas, com suas torres metálicas espetando o branco infinito, como brinquedos de Deus.

Na primeira noite, no hotel, lembrei que estava sobre um colchão eterno de gelo. Se aquele mundo fluido se abrisse, eu afundaria na eternidade. Desci à portaria, pedi um conhaque duplo (por sinal da Geórgia, aquele que Stalin mandava para Churchill), para conseguir dormir.

Passando por lá antes de mim, Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, deixou escrito: – “Isto é uma lição,um exemplo. Mas sobretudo um milagre”.

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UM LIVRO

Era o final de uma longa viagem de dois meses (dezembro e janeiro), escrevendo meu livro sobre a Sibéria (“Sibéria e Outros Mundos”, Ed. Codecri, 1982). Já passara por Novosirbiski, capital da Sibéria Ocidental, Irkutski, capital da Sibéria Oriental, lago Baikal, península de Amur, Vladivostok (ultima fronteira leste, com a China, Coréia do Norte e Japão).

Os russos já estavam com pena de mim. E voltei, já agora vadiando, por Stalingrado (hoje Volgogrado), Baku no Azerbajão, à beira do Mar Cáspio, Tblisi capital da Geórgia, terra de Stalin, e Batum também na Geórgia, no Mar Negro. De lá, Atenas e Roma, que ninguém é de ferro.

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GEÓRGIA

Um povo que construiu tudo aquilo a ferro, fogo e gelo, não vai entregar de barato a nenhum idiota como Bush, que em agosto de 2008 resolveu fazer um teste. Mandou o playboy Mikhail Saakashvili, presidente da mixuruca Geórgia, testar a Rússia, invadindo a Ossétia do Sul, província aliada da Rússia.

Merval Pereira, então correspondente do Globo nos Estados Unidos e correspondente dos Estados Unidos no Globo, contou a verdade verdadeira:

1. – “O presidente da Geórgia, Saakashvili, atacou a cidade de Tskhinvali, capital da separatista Ossétia do Sul, com uma barragem de foguetes que causou total devastação, com 80% dos edifícios civis destruídos. O objetivo seria reforçar a idéia de a Geórgia entrar para a Otan, o que é apoiado pelos Estados Unidos. A Rússia aproveitou a agressão aos separatistas russos para invadir a Geórgia” (que pôs o rabo entre as pernas).

 

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