O Iate Clube d bom exemplo

Carlos Chagas

Um pequeno pargrafo publicado numa revista da capital federal, Braslia Em Dia, mostra que nem tudo est perdido. Como requisito para ingresso no Iate Clube local, destaca-se a exigncia de que o pretendente no tenha sido condenado em primeira instncia da Justia por crime capitulado no Cdigo Penal.

No Congresso pode. No Iate Clube, no. Os scios da agremiao dispem de mais segurana, mais cuidados e at mais honradez do que o Congresso, tendo em vista a deciso do presidente da Cmara, Michel Temer, de modificar a proposta popular encaminhada no sentido de negar registro de candidato a criminosos. Para o parlamentar paulista, a situao s deve caracterizar-se diante de condenaes na segunda instncia, transitadas em julgado, quer dizer, com sentenas condenatrias confirmadas e exaradas pelos tribunais de Justia dos Estados. Sero desconsideradas as penas, cumpridas ou no, que o candidato tiver recebido nos juzos singulares, mesmo por assassinato, roubo, seqestro, pedofilia, trfico de drogas, contrabando e outros crimes.

Agora, se quiser freqentar a piscina, o restaurante e os eventos promovidos pelo Iate Clube de Braslia, o condenado em primeira instncia ser barrado. Trata-se, pelo menos, de um bom comeo. De um exemplo dado por um clube de recreao, sem vinculaes polticas ou pretenses de poder.

Esto escondendo o qu?

No adianta a gente ter boa vontade para com o governo e o Congresso. Como regra, eles fazem o dia seguinte sempre ficar um pouquinho pior do que a vspera. Na Cmara, por presso do palcio do Planalto, 42 deputados da base governista retiraram suas assinaturas do requerimento de constituio de uma CPI para investigar o MST. Era necessrio o apoio de 171 deputados, os autores do pedido haviam conseguido 213 mas, em menos de 48 horas, esta semana, o nmero baixou para 168. No Senado, as assinaturas ultrapassaram o quorum mnimo: 27 bastariam, 36 senadores comprometeram-se coma CPI. S que no adiantou nada, pois os deputados dos partidos governistas cederam presso de seus lderes.

O triste nessa histria que at integrantes da bancada ruralista, que liderou a tentativa, retiraram suas assinaturas. Um valor maior se levantou. No caso, a promessa de liberao de verbas para emendas ao Oramento e, quem sabe, outros favores e benesses.

Por que esse pavor do governo em ver investigadas as aes do Movimento dos Sem Terra? Ningum duvida de que o grupo exprime o que de mais moderno e oportuno se criou no pas em muitas dcadas. Quem pode ser contra a reforma agrria? Nem os ruralistas, com algumas excees. O diabo que o MST, puro e necessrio quando de sua criao, conspurcou-se at se tornar, em parte, num fator de violncia. No resistiu tentao de viver dos cofres da Unio, recebendo centenas de milhes de reais todos os anos atravs de contratos escusos e ONGs fajutas. Invadir prdios pblicos urbanos tornou-se sua prtica maior, sem falar das propriedades produtivas e das exigncias descabidas a respeito da produtividade rural. Ou da ocupao de rodovias e ferrovias sem a menor relao com a reforma agrria.

Por que o governo quer obstruir investigaes a respeito dos excessos do MST? Viraram regra, em vez de exceo?

Troca-troca sem limites

Encerrou-se sbado o prazo para o troca-troca de partidos. No se cometer a injustia de supor que todo parlamentar ou todo poltico carece de razes para mudar de legenda. Divergncias com o programa partidrio, ou melhor, restries ao fato de o programa no estar sendo cumprido constituem motivos ticos. At incompatibilidade com dirigentes eventuais, ou casos de perseguio caracterizada, tambm.

S que no o caso para a maioria dos 60 deputados e senadores contabilizados ontem como tendo deixado o partido pelo qual se elegeram, pretendendo eleger-se por outra agremiao mais complacente. Ou por motivos ainda mais discutveis, seja para aderir, seja para romper com governos variados.

Muitas vezes j se tentou, no Congresso, interromper essa ciranda indecente, mas jamais os projetos foram adiante. Afinal, so os prprios parlamentares a defender suas prerrogativas, mesmo as imorais. Bem que o Poder Judicirio pretendeu moralizar a lambana, estabelecendo que os mandatos pertencem aos partidos, mais do que aos mandatrios. No adiantou nada, pois as excees superaram as regras.

Junte-se a isso a existncia de dezenas de partidos de aluguel, daqueles sem estrutura nem doutrina, postos disposio dos trnsfugas apenas para aumentar o caixa dois, e se ter a receita da necessidade de reformas polticas profundas, no de meias-solas, para que a democracia possa progredir entre ns. A lamentar, ento, mais um lamentvel troca-troca.

Vale para qu?

Impressiona profundamente telespectadores, ouvintes e leitores a macia propaganda desencadeada pela Vale. Nas telinhas, pelos microfones e na imprensa escrita multiplicam-se quase ao infinito as muito bem preparadas mensagens de exaltao empresa e suas qualidades, publicidade que deve estar custando os olhos da cara. Coisa igual, mesmo, s l pelos lados da Petrobrs, do Banco do Brasil e da Caixa Econmica, empresas pblicas onde os gastos se fazem com muito maior benevolncia.

Estariam os controladores da Vale necessitados de vender minrio no mercado nacional? Ou, ao que parece, pretendem mostrar-se atravs dos meios de comunicao para reafirmar sua fora e evitar investidas pouco ortodoxas por parte do governo? Porque h muito se ouve entre os companheiros, palacianos ou no, restries aos fabulosos lucros da empresa, auferidos em funo de discutveis privatizaes verificadas no governo passado. Haver quem pense em estatizar a Vale, ou, ao menos, criar empecilhos ao seu desenvolvimento como companhia privada? Seria motivada por isso a blitz publicitria de agora, uma espcie de defesa antecipada contra incurses enevoadas? Quem quiser que responda, mas no deixa de ser singular assistirmos gastos estratosfricos em promoo quando, meses atrs, ao primeiro sinal de crise, a Vale andou demitindo aos montes, incorrendo seu controlador nas iras do prprio presidente Lula.

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