O impasse dos espertos (no qual todos perdem…)

http://chicoandrade.com.br/blog/wp-content/uploads/2015/03/1080.jpgJosé Roberto de Toledo
Estadão

Acusa-se Eduardo Cunha (PMDB) de muita coisa, menos de ingenuidade ou estupidez. O presidente da Câmara costuma estar vários lances à frente de adversários e de aliados no xadrez político. Mesmo que por xadrez entenda-se o jogo de tabuleiro.

Não foi o anfitrião que ficou com cara de tacho na reunião do clube do impeachment, terça-feira pela manhã, na casa de Cunha. O encontro ocorreu imediatamente depois de o Supremo Tribunal Federal interditar os atalhos planejados pelos presentes para abreviar a temporada de Dilma Rousseff no Palácio do Planalto.

“Se eu derrubo Dilma agora, no dia seguinte vocês me derrubam”, foi a frase atribuída a Cunha durante o encontro, segundo apuração do repórter Daniel Carvalho. A oposição, como também o governo, se acha mais esperta do que o resto. Queria que Cunha aceitasse logo o pedido de impeachment da presidente – já que a manobra de recusá-lo para que uma maioria simples de deputados reformasse sua decisão e deslanchasse o processo havia sido inviabilizada por três liminares contrárias do STF.

Querer queria, só que esperto coca-cola não é páreo para o produto original. Como todos acham que o presidente da Câmara não sobreviverá politicamente às denúncias, tentam extrair o máximo de vantagem do que imaginam ser seus estertores. Mas o peemedebista anteviu o que rivais e amigos da onça fariam antes de eles vislumbrarem o próximo movimento de suas próprias peças.

BALA DE PRATA

Resta uma bala de prata para Cunha: o poder de iniciar o processo de impeachment de Dilma na Câmara. Porém, assim que ele deflagrá-lo, se tornará um incômodo inútil para a oposição e um inimigo declarado para o governo. Fragilizado pelas acusações que se multiplicam da Suíça ao Brasil, o deputado feriria Dilma e, ao mesmo tempo, cometeria suicídio político. Não caiu na conversa dos sócios do clube e preservou seu cartucho.

Do mesmo modo, o governo quer fazer crer que dará sustentação a Cunha caso ele desista de fazer par com a oposição. O faz de conta ficou menos verossímil na terça depois de a maioria dos deputados petistas assinar pedido de cassação do colega. Cunha só se segura no cargo e no mandato enquanto ambos os lados acharem que precisam dele para ganhar a guerra do impeachment. Daí ele não precipitar seus movimentos se tiver alternativas.

A prioridade do presidente da Câmara – como ele mesmo declarou – é recarregar sua bala de prata, temporariamente neutralizada pelos ministros Teori Zavascki e Rosa Weber. Vai brigar no Supremo para ter de volta o poder sobre o futuro de Dilma. Mostrar que sua arma está engatilhada é mais importante do que dispará-la. Enquanto o STF não arma nem desarma, o impeachment emperra e o governo espera o recesso parlamentar.

VOLTAR A GOVERNAR

O problema é que o suspense não se limita ao destino do mandato presidencial. Provar que tem força política para se manter no cargo não basta. Dilma também tem que mostrar que é capaz de voltar a governar. Sustentar seus vetos à pauta-bomba do Congresso e aprovar as medidas do ajuste fiscal seriam as melhores maneiras de sair do estado de suspensão. Está difícil.

Tudo o que Cunha e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), têm dito ultimamente é que as votações desses temas foram adiadas. Para a semana que vem, para o mês que vem, para o ano que vem – só faltam dizer “para o governo que vem”. Não tiram os tubos da presidente, mas injetam apenas o oxigênio necessário para não asfixiar a paciente de vez. Criar perspectiva, traçar um horizonte, superar o impasse é a única maneira de o governo voltar a respirar sem ajuda de aparelhos alugados pelo PMDB – e de a economia sair do limbo.

Aos caciques peemedebistas, porém, não convém tirar do coma um aliado do qual planejam se separar assim que a ocasião permitir. Nesse empate de espertos, ninguém ganha, mas todos perdem.

7 thoughts on “O impasse dos espertos (no qual todos perdem…)

  1. A conclusão do articulista está perfeito. Só acrescento o fato de que foi o PT que jogou toda a economia no buraco em função da política. Se hoje o país se encontra travado economicamente por conta da política não há outro culpado disso que não seja a Dilma e o PT que usou toda a estrutura econômica do país para dar sustentação política à sua agremiação.

    Vê-se assim que o país inteiro se tornou um mero instrumento de dominação política do partido dos trabalhadores.

    A única coisa que separa a frágil democracia do país de uma ditadura petista é a guerra política estrelada agora entre o PT e o PMDB.

    E só!

    • Caro Wagner Pires … saudações!

      Não é de hoje que o PMDB impede medidas inconstitucionais … inclusive Eduardo Cunha foi eleito exatamente para barrar a falta de cumprir acordos por parte da cabeça de chapa … e tentam anular o Cunha por isto … é realmente uma batalha decisiva que se trava no Brasil e no Vaticano!!! que levará à VOLTA DE CRISTO pois o Diabo NÃO VENCERÁ … a REVOLUÇÃO será vencida pela RESTAURAÇÃO DE TODAS AS COISAS!!! !!! !!!

      • Prezado sr. Lionço. Para o bem de todos o Cunha tem de ritualizar o impeachment da Dilma. É a única condição de livrar o nosso país do desastre do totalitarismo esquerdista em curso.

        Grande abraço!

  2. Pobre do país cujo governo é refém de um homem só. Enquanto eles fazem o jogo das facilidades o povo sofre a infelicidade de um governo que lhe prejudica, diuturnamente e noturnamente.

  3. Quando a realidade dos fatos muda, o político brasileiro também muda (talvez prá pior, mas muda!). E a realidade dos fatos é a seguinte: o gênio ativo do PT era o Zé Dirceu, que está em seríssimas dificuldades. Lula está sem cargo e não tem mais as facilidades de antes, com a existência dos cargos e de todas as facilidades, inclusive as amizades de algumas figuras chaves que também não estão em boa situação. E nem é tão rico como estão dizendo. Os deputados do PT, para preservarem o PT, e o que é individualmente mais importante, os seus mandatos, querem evitar qualquer tipo de envolvimento com propostas antipopulares. Qualquer deputado do PT que votar pela preservação da permanência de Cunha na presidência precisará de rios de dinheiro para se reeleger. Ora, no Brasil começa a faltar até água. Aquele papo de que Lula está fazendo reuniões, pê-pê-pê, pa-pa-pá, pode colar para o povão, mas não para os deputados do PT que estejam dispostos a se reeleger. Façam uma enquete lá na Câmara. Tentem recolher assinaturas de deputados do PT, ou de qualquer outro partido, que se declarem favoráveis à permanência de Cunha. A verdade é que só a Justiça poderá salvar o mandato de Cunha! A questão fundamental é saber de que jeito.

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