O jovem delegado da PF e os contracheques do pessoal

Sandra Starling (Jornal OTempo, de BH)

Há pequenos indícios de que o Brasil pode mudar! Vi na televisão, outro dia, o rosto jovem de um delegado da Polícia Federal chamado Raul. Não guardei o sobrenome dele, mas parece que tudo o que anda acontecendo em torno do escândalo a envolver Carlos Cachoeira, Demóstenes Torres, empreiteiros, governadores e detentores de diversos tipos de mandato teria começado pelo seu trabalho.

O Ministério Público Federal andava investigando um caso de contrabando de máquinas caça-níqueis e pediu o auxílio da Polícia Federal para a apreensão de um lote desses artefatos em Anápolis. Deflagrada a operação, nada se encontrou. Suspeitou-se de vazamento dentro da própria PF. Foi, então, pedida autorização judicial para a escuta telefônica envolvendo Cachoeira, primeiro averiguado no caso do contrabando.

O jovem delegado, especializado na utilização de alta tecnologia em escutas telefônicas, teria ouvido de outro delegado, seu colega de sala, a seguinte pergunta: “O guardião (aparelho de escutas telefônicas da PF) pode captar as ligações feitas pelos aparelhos Nextel?”. Ao que ele, montando ali uma iniciativa de contrainformação, teria declarado de bate-pronto: “Se os aparelhos forem habilitados no exterior, não há como fazer escutas telefônicas”.

Logo em seguida, foi captada uma ligação entre seu colega policial e Carlinhos Cachoeira, informando quanto à “invulnerabilidade” dos aparelhos Nextel. O jogo começou a ser aí jogado. E o mesmíssimo jovem delegado acaba de descobrir quem ameaçava a procuradora da República a qual denunciou toda a quadrilha de Cachoeira: o ex-cunhado do contraventor, que já dorme protegido por grades…

Entrementes, o Supremo Tribunal Federal, que acabou com todas as pretensões de relaxamento da prisão de Carlos Cachoeira, cumpre a ordem de um juiz de primeira instância em Brasília e tira do ar os contracheques dos respectivos funcionários. Afinal, a Suprema Corte não examinou ainda a constitucionalidade da Lei de Acesso à Informação, modulada em seus efeitos pelo juiz de primeiro grau, em face do princípio da proteção à privacidade, inserido na Constituição como garantia individual. Isso é o mais legítimo Estado de direito!

Esses dois fatos isolados, quando unidos em uma colagem, revelam sinais de esperança na rejeição ao compadrio corporativista e ao argumento de autoridade, em vez da autoridade do argumento. São pequenos indícios de que as coisas podem mudar. Para eu ter maior esperança, só faltam os sindicatos, o Ministério Público e as ONGs de transparência pública ingressarem em juízo para obrigar o BNDES a explicar por que a preferência – e quanto custa esta – em repassar recursos para tal ou qual grupo econômico em detrimento de outros. Ou por que pagar obras superfaturadas de diversas empreiteiras, a título de cumprir prazos agendados para a Copa do Mundo.

Afinal, tudo isso – investigações, aparato jurisdicional e empréstimos estatais – também é pago pelo tributo cobrado de todos nós.

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