O lado ‘bom’ do pastor Feliciano

Murilo Rocha

O deputado federal e pastor Marco Feliciano (PSC-SP) protagoniza, há um mês, manchetes de noticiários em todo o Brasil. Desde o acordo para a sua eleição na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Feliciano desfere um festival de idiotices, desrespeito e estupidez, principalmente, quando tenta se defender de acusações de racismo e homofobia.

Todos os dias surgem novos vídeos com declarações absurdas do parlamentar, como, por exemplo, a da existência de uma maldição sobre os negros ou a da interferência divina no assassinato de John Lennon por este ter cometido heresia quando comparou a popularidade dos Beatles à de Jesus Cristo.

Há quem veja como ruim esse excesso de publicidade – mesmo sendo negativa – dada ao político de opiniões tão esdrú-xulas. E isso é realmente perigoso. Ao criticar Feliciano, a imprensa acaba dando uma visibilidade nunca imaginada pelo pastor. Parece impossível, mas a cada nova polêmica, se ganha críticas, ele também ganha novos adeptos. Brincadeira ou não, seu nome já foi até cogitado por seus colegas de partido para uma disputa à Presidência da República.

MUITOS PENSAM IGUAL A ELE

No entanto, nem tudo está perdido. O preconceito exalado por Feliciano e sua trupe no último mês também evidenciou como há um segmento de pessoas no Brasil pensando dessa maneira e, alguns deles, ocupando importantes cargos públicos. Mesmo se não fosse eleito para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Feliciano continuaria a existir dentro do Congresso com as mesmas ideias.

Dar voz ao parlamentar e espaço para seus preconceitos, amparados pelo uso falacioso de textos religiosos, também é uma forma de desqualificá-lo e desencadear reações reprovando o comportamento do pastor até de representantes de outras igrejas evangélicas.

É sempre um risco, nestes tempos de reação e falta de utopias, dar espaço ao conservadorismo e ao desrespeito, mas, no caso de Feliciano, parece estar surtindo um efeito contrário e positivo. A impropriedade e o anacronismo de seu pensamento fazem despertar, em igual proporção, o quanto é criminoso o preconceito racial e a homofobia. Como é grave, também, a exploração de pessoas mais pobres por meio de um charlatanismo religioso descarado, no qual, para se chegar a uma bênção divina, aceita-se pagamento em vale-transporte, em tíquete refeição ou em cartão de crédito dividido em dez parcelas.

Tão importante quanto brigar pela saída do deputado e pastor Marco Feliciano da presidência da Comissão de Direitos Humanos é combater a disseminação de suas ideias na vida cotidiana, nas instituições públicas e, também, nas privadas. Nesse ponto, as redes sociais têm desempenhado um importante papel.

(transcrito do jornal O Tempo)

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