O lado bom do vandalismo (no mau sentido, claro)

Agindo assim, pensam que estão chegando ao poder

Fábio Pannunzio
Blog do Pannunzio

Pense bem. Na dialética da crise, tudo tem o seu lado bom. O vandalismo, por exemplo. Quer coisa melhor para quem deseja o colapso das instituições, a desagregação do tecido social e o fim dos tempos? Tem outras vantagens. Ao incendiar prédios públicos, erguer barricadas, jogar rojões na polícia e açular os ânimos nos protesto, os vândalos constroem símbolos poderosos que, os olhos do cidadão comum, denunciam a falta de horizonte e a falência generalizada da nossa democracia. O que sempre abre espaço para inovações autoritárias e até para ditaduras clássicas. É ótimo para quem gosta.

O niilismo também tem um enorme poder transformador. O otimista indignado se transforma no pessimista existencialmente acuado. Passa a pensar que a única saída para o País é a emigração.

LEIS DA FÍSICA – Ao tomar para si o locus das manifestações, o vândalo põe em movimento três leis da física, que passam a atuar inexoravelmente sobre as multidões: o Princípio da Impenetrabilidade, a Lei da Inércia e a Segunda Lei da Termodinâmica.

A Impenetrabilidade explica que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo. Assim, onde há niilistas arruaceiros quebrando tudo, a classe média não vai expressar sua indignação. E sem a classe média, impera a Inércia política, que faz com que tudo permaneça como sempre foi.

Por fim, a Segunda Lei da Termodinâmica, ou a Lei da Entropia, é aquela que prevê que os sistemas tendem a se desorganizar com o tempo. Quanto maior o estado de desordem, maior é a energia necessária para revertê-la e tornar os sistemas íntegros. Chamar o Exército, por exemplo, corresponde a um enorme dispêndio de energia. E aí estamos nós de novo diante de símbolos de tempo bicudos, botas pretas e fardas verdes a nos apavorar com a perspectiva dos efeitos entrópicos do aprofundamento da crise.

PROVOCANDO MEDO – Incendiar Brasília, sem dúvida, é algo que coloca medo. A população fica apavorada. As pessoas comuns não gostam do barulho das bombas, da fumaça do gás lacrimogêneo nem da destruição provocada pela depredação. Mas essas pessoas também não gostam da corrupção, da permanência do Temer na Presidência e da roubalheira de todos os partidos. E, em meio a tanta confusão, se recolhem e vão tuitar e protestar apenas pela internet, que é muito mais seguro.

Mas os donos das armas, os comandantes-em-chefe, não temem os baderneiros. Justamente porque eles têm as armas, as bombas e gás de pimenta. E centenas e centenas de homens fardados prontinhos para disparar, acuar e dissuadir a epifania de vândalos. Alguns, mais destreinados e menos humanos, até com munição letal.

O vandalismo também reforça posições dos setores mais conservadores. Mais, digamos, reacionários.

CONTRA A DEMOCRACIA – Que mensagem está contida na estética construída na Esplanada dos Ministérios? Pois ela está a catalisar a imaginação de gente afinada com as carpideiras da ditadura, os saudosos dos militares e os apóstolos da mais empedernida direita. Todos os inimigos da democracia se reúnem em torno dessa estética para se refestelar de motivos para repetir a velha cantilena de que esse regime não serve mais ao País.

Sim, os vândalos, especialmente os de inspiração anarquista, os black blocs, os arruaceiros sem causa e todos os demais analfabetos políticos formam um grupo a serviço do retrocesso. Com eles na dianteira, estamos rumando aceleradamente para o passado. Se é esta a direção a seguir, eles estão no caminho certo.

                        (Artigo enviado por Mário Assis Causanilhas)

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