O livro de Dilma

Sebastião Nery

“A ministra sentou-se numa cadeira para conversar com o médico. Falaram sobre o tratamento inadiável, doloroso e incômodo. O exame definitivo tinha chegado de um laboratório de Houston, nos Estados Unidos, naquela sexta, 17 de abril (2009). Quanto mais rápido iniciassem o procedimento terapêutico, melhor. Combinaram data e hora, ela agradeceu, despediram-se. Um breve silêncio foi quebrado por um suspiro longo e Dilma voltou os olhos na direção do secretário particular, que tinha permanecido vigilante junto à porta da sala:

– “A vida não é fácil. Nunca foi”.

A ministra devolveu o telefone ao secretário e seguiu para a entrevista coletiva. Parecia segura. Vestia um casaco de linho vermelho sobre a blusa de seda preta, o decote redondo acompanhava a curva do colar de pérolas. Era a Dilma de sempre, respondendo com firmeza”…

Essa historia está em um retrato forte e verdadeiro da presidente Dilma : “A Vida Quer é Coragem”, do experiente e serio jornalista Ricardo (Batista) Amaral (Editora Primeira Pessoa – Sextante – RJ), que vim lendo ontem no avião, voltando de um mês de férias de sol e mar no Nordeste.

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TORTURADA

Há a vida difícil, brutal, às vezes militarmente bárbara :

– “Entrei no pátio da Operação Bandeirante (Exercito, em São Paulo) e começaram a gritar : – “Mata!”, “Tira a Roupa”!, “Terrorista!”, “Filha da Puta”! A pior coisa que tem na tortura é esperar, esperar para apanhar. Eu senti ali que a barra era pesada. E foi. Palmatória. Levei muita palmatória. Mandaram tirar a roupa. Não tirei. Eles me arrancaram a parte de cima e me botaram com o resto no pau de arara. Ai me tiraram a roupa toda. Fizeram choque, muito choque. Eu me lembro que nos primeiros dias eu tinha uma exaustão física que eu queria desmaiar. Não agüentava mais tanto choque. Comecei a ter hemorragia. Choques nos pés, mãos, na parte interna das coxas, nas orelhas. Na cabeça é um horror. No bico do seio. Botavam uma coisa no bico do seio, que prendia, segurava… Não comer. O frio. A noite. Agüentei. Não disse nem onde eu morava. Não disse quem era o Max (Carlos Araujo, o marido)”. (22 dias de tortura e 3 anos de prisão)

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PRÉ-SAL

Mas há a hora da boa noticia, da volta por cima:

1. – “Na manhã de 26 de outubro (2008) Dilma estava com Lula e alguns ministros na sala do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Petrobrás, um ambiente futurista na ilha do Fundão, no Rio. Na sala 3D, a realidade do fundo do oceano é reproduzida em imagens holográficas, que fazem um visitante mergulhar virtualmente nas profundezas que só os mais experientes mergulhadores alcançam. Mapas, gráficos, simuladores e imagens reais são exibidas de forma que parece possível tocá-los com as mãos. O que Lula e os ministros assistiam ali era um espetáculo capaz de mudar o futuro do país: as imagens e projeções de uma gigantesca bacia de petróleo e gás situada 4 mil metros abaixo do fundo do mar”.

2. – “O petróleo estava no fundo mais fundo do oceano, na camada que os geólogos chamam de pré-sal. A bacia se estendia 800 quilômetros do litoral brasileiro, de Santa Catarina até o Espírito Santo, numa área de 160 mil quilômetros quadrados. Os cálculos feitos a partir do poço pioneiro, no campo de Tupi, indicavam de 5 a 8 bilhões de barris, mais da metade das reservas brasileiras de gás e óleo conhecidas até então. Como os capôs do pré-sal são interligados, a nova descoberta podia chegar a 80 bilhões de barris, mais do que todo o petróleo da Nigéria, quase o mesmo da Venezuela, com a vantagem de ser um óleo fino, de qualidade superior”.

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BACOCCOLI

“Essa é a melhor notícia para o Brasil nos últimos 40 anos”, Lula disse quando as luzes se acenderam.

O óleo do Pré-Sal era um tesouro que a Petrobrás perseguia desde o primeiro mandato de Lula. Já se falava de sua existência como possibilidade nos anos 80, mas foi só em 2003 que o geólogo brasileiro Giuseppe Bacoccoli (um nome para o Brasil guardar) apresentou a primeira informação científica sobre a super-reserva. A Petrobras apostou na descoberta e investiu 260 milhões de dólares para furar o poço pioneiro. Foram 400 dias de trabalho e expectativa até chegar ao pré-sal”…

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BRIZOLA

Infelizmente, o livro tem bobagens e ligeirezas desnecessárias :

Pag. 99 – “Leonel Brizola estava em Portugal, depois de ter sido expulso do Uruguai e passar dois anos (sic) nos Estados Unidos”.

Errado. O inquestionavel “DHBB – Dicionário Histórico Biografico Brasileiro – da FGV-CPDOC” diz no volume I, pagina 843 :

– “Deixando o Uruguai, Brizola foi para os Estados Unidos, desembarcando em 22 de setembro de 1977. Residiu nos Estados Unidos até janeiro de 1978, quando se mudou para Lisboa”. (Só quatro meses).

(Termino depois, citando outras bobagens).

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