O macabro noticiário de rotina de tragédias no trânsito brasileiro. Até quando?

Milton Corrêa da Costa

O incômodo da rotina de tragédias envolvendo motoristas imprudentes e alcoolizados – sequer possuem carteira de habilitação – tem sido evidente na violência sem fim do trânsito brasileiro. Tudo noticiado pelos meios de comunicação diariamente. Parece que nada mais a fazer a não ser noticiar a próxima tragédia onde o enredo é sempre o mesmo: a mistura explosiva de álcool, drogas, manobras arriscadas, excesso de velocidade, sono, cansaço, imprudência.

A maior parte dos que se envolvem nos graves acidentes -o trânsito é a primeira causa de morte no país na faixa etária de 15 aos 34 anos- são jovens que veem no volante de um carro a sensação de demonstração de poder e a real possibilidade para extravasar o desafio ao perigo.

As consequências dessa ilusória auto afirmação social têm sido muitas vezes trágicas. Acresce-se o fato que a fiscalização da Lei Seca não é rotina em muitas unidades da federação. O sentimento de burlar as leis e da consequente impunidade parece mesmo determinante. Em média, a cada 15 minutos, uma pessoa perde a vida na violência de ruas e estradas do país.

Uma pesquisa publicada no último final de semana – mais um de inúmeras tragédias no trânsito -, numa revista de grande circulação, demonstra tal realidade. Depois de fazer o teste do bafômetro em 100 motoristas que se predispuseram à submissão ao teste, recém-saídos de bares das regiões boêmias da cidade de São Paulo, os repórteres chegaram a um resultado conclusivo. Apenas 21 não apresentavam traço de álcool no organismo. Os outros 79 estavam alcoolizados em graus variados. Destes, 43% encontravam-se no limite da tolerância e da margem de erro do bafômetro: acusaram até 0,13 miligramas de álcool por litro de ar expelido dos pulmões.

Por sua vez, 57% do total de 79 dos alcoolizados seriam infracionados na lei de trânsito, com multa de R$ 957,70 e suspensão do direito de dirigir. Os demais teriam que ser encaminhados à delegacia policial para se verem autuados nas penas do Artigo 306 do Código de Trânsito Brasileiro, por crime, tendo alcançado ou ultrapassado o limite de 0,33 mg/l. Registre-se aí, como frisado, a margem de erro do etilômetro, normalmente estimada em 0,03 miligramas.

O resultado dessa imprudência constata-se no noticiário de carros retorcidos, vítimas ensanguentadas, dor e sofrimento. Em São Paulo, na semana passada, Felipe Arenzon guiava um Chevrolet Camaro – que custa quase R$ 200 mil depois do aumento do IPI –  e provocou dois acidentes em menos de uma hora. Ele foi pego pela polícia e se recusou a fazer teste do bafômetro. Levado para a delegacia, o jovem de 19 anos pagou fiança de R$ 245 mil – mais que o Camaro – e saiu em liberdade. Filho de um vereador de Embu das Artes, Felipe agora deve responder o processo em liberdade.

Familiares das vítimas pedem justiça. Felipe e seu Camaro provocaram um incêndio em um dos veículos atingidos, onde o motorista teve 90% do corpo queimado e não há garantia de sobrevivência. Na noite deste domingo, 09/10, um motorista atropelou 21 pessoas que participavam de uma festa de congado no povoado de Bom Jardim das Pedras, em Carmópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Segundo a Polícia Militar, o motorista apresentava sinais de embriaguez. De acordo com testemunhas, o carro estava em alta velocidade e capotou. Algumas pessoas que estavam no local tentaram agredir o motorista, que foi preso. Uma das vítimas, um homem de 42 anos anos, morreu na manhã desta segunda-feira.

Em São Paulo, o exame clínico feito pelo Instituto Médico Legal no estudante Leonardo dos Santos, de 25 anos, que atropelou pelo menos seis pessoas na noite da última sexta-feira, mostrou que ele tinha consumido bebida alcoólica. O jovem foi indiciado por três crimes: embriaguez ao volante, tentativa de homicídio doloso (com intenção de matar) e dirigir sem habilitação. Ele não tinha carteira de habilitação, segundo a polícia. Conforme a irmã do estudante, ele comprou o carro há pouco tempo, em 60 parcelas, e amigos e familiares dirigiam o veículo para Leonardo. Mas, nesta sexta-feira, ele pegou o carro e acabou causando o acidente. Segundo testemunhas, Leonardo apresentava sinais de embriaguez.

Os relatos de mais tragédias neste último final de semana prosseguem. Duas pessoas morreram e sete ficaram feridas em um acidente envolvendo uma van na MG-424, em Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A Polícia Militar Rodoviária informou que o motorista, de 17 anos, perdeu o controle do veículo, na madrugada deste domingo, e atingiu uma árvore no canteiro central. Com o impacto, o veículo capotou. Segundo a polícia ele estava com sinais de embriaguez. De acordo ainda com a polícia, a van seguia no sentido Belo Horizonte/São José da Lapa. A van levava nove pessoas que saíam de uma festa. Duas das vítimas morreram no local do acidente. O menor, portanto inimputável (a questão da maioridade penal precisa ser discutida no país) que dirigia a van teve ferimentos leves e está internado no Hospital Risoleta Neves. Os feridos apresentaram fraturas em braços e pernas. Os corpos das vítimas fatais foram levados para o Instituto Médico Legal (IML) de Belo Horizonte. Segundo a polícia, o proprietário da van foi levado à delegacia. A pergunta que fica, neste caso, é: quem fez a entrega do veículo ao menor inabilitado?

Para fechar o noticiário das tragédias e da imprudência no trânsito brasileiro – notem que estamos nos reportando tão somente ao que foi notícia na Região Sudeste do país- vem a informação proveniente do Rio de que uma jovem de 26 anos, cerca das 8 horas da manhã deste domingo, no bairro de Jacarepaguá, na Zona Oeste da cidade, após regressar de uma festa, matou na calçada, conduzindo uma caminhonete em alta velocidade (perdeu o controle da direção, capotando) um senhor de 80 anos que juntamente com a esposa fazia sua caminhada matinal.  A jovem não possuía habilitação e o resultado definitivo do exame de ingestão alcoólica sai em 30 dias.

Certamente, no próximo final de semana a carnificina no trânsito prosseguirá. Não há dúvida. O pior é que nenhum de nós, como o idoso que apenas caminhava em sua atividade física, está imune à sanha assassina dos “ases (irresponsáveis) do volante”. Chega-se à conclusão que o Código de Trânsito Brasileiro é uma autorização expressa para matar em rodovias e vias urbanas. A pergunta que fica é: até quando os alcoolizados do volante continuarão matando e mutilando no trânsito brasileiro? Certamente até quando as brechas da lei e a impunidade aos homicidas também deixarem de ser incômodas e coniventes rotinas.

(Milton Corrêa da Costa é coronel da PM do Rio na reserva)

 
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