O maior problema do governo é a falta de liderança

Vicente Nunes
Correio Braziliense

A ação conjunta do Banco Central com o Tesouro Nacional para derrubar o dólar e reverter a disparada dos juros no mercado futuro deu a exata noção de como o governo Dilma Rousseff se ressente de um grande coordenador, alguém que possa unir forças e definir direções. No primeiro momento em que os dois órgão resolveram se falar, na semana passada, os resultados se mostraram satisfatórios, ainda que o alcance tenha sido limitado devido às grandes incertezas que devastam o país.

Como bem ressalta um alto funcionário do Executivo, “num governo esfarrapado, qualquer sinal de lucidez faz milagre”. Ele ressalta que o que move a Esplanada dos Ministérios hoje é a guerra de egos. “Cada um faz o que quer, desde que seja em benefício próprio. Isso ocorre porque não há liderança”, afirma. O resultado é um desperdício de tempo e de dinheiro público, inaceitável em tempos tão difíceis.

 

Na área econômica, destaca o mesmo funcionário, era esperado que, num momento de crise tão aguda, houvesse sintonia nas ações. Mas o que se assiste desde o início do segundo mandato de Dilma é uma disputa brutal por poder que só aumenta a desconfiança entre empresários e investidores.

DESENTENDIMENTOS

É a Fazenda atirando para um lado, o Ministério do Planejamento apontando para outro e o Banco Central no meio, sem saber para onde correr.

“Não há um jogo combinado, o que nos leva a concluir que ou eles não se falam ou não se gostam, ou as duas coisas juntas, o que é ruim para o governo e muito pior para o país”, complementa outro técnico com trânsito livre no Palácio do Planalto. No entender dele, foi preciso que o dólar batesse em R$ 4,25 e o mercado passasse a apostar em aumento de mais 4,5 pontos percentuais na taxa básica de juros (Selic) para que o BC e o Tesouro acordassem. “Pena que esse despertar tenha se dado tão tarde”, diz.

A fatura da desunião é enorme, a começar pelo rebaixamento do país. Se, desde o início, tivesse prevalecido a sensatez dentro do governo, certamente o Brasil não teria perdido o selo de bom pagador pela Standard & Poor’s (S&P) e a economia não estaria afundando tão rapidamente. Mas, em vez de encarar os problemas de forma clara e efetiva, os ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, preocuparam-se mais em fazer valer suas ideias. Essa guerra resultou no envio de uma proposta de Orçamento deficitário para o Congresso, decisão que mescla incompetência e má-fé.

AGONIA DIÁRIA

Na avaliação de Cristiano Noronha, analista da Arko Advice, o que se vê é um governo especializado em autodestruição. Não bastassem todos os inimigos externos, criou-se uma batalha fratricida dentro da própria máquina. A maior culpada por esse desastre é a presidente Dilma, que, com suas idas e vindas, indica que nem mesmo a pessoa que deveria comandar o sistema sabe o que quer.

Para Noronha, a falta de comando é visível na economia e na política, e os erros, explícitos. “Nos últimos anos, o governo decidiu dar as costas para o Congresso e optou por uma política econômica de muitas concessões e estímulos”, afirma. Ele acredita que a situação se agravou de uma forma tão feroz, que será difícil reverter os problemas tão cedo.

A PRESSÃO CONTINUARÁ

No caso da política, os novos ministérios que serão dados ao PMDB abrirão uma janela no curto prazo. Na economia, a aprovação da CPMF pode indicar um caminho menos tortuoso.

“Contudo, a agonia continuará”, frisa Noronha. As investigações da Lava-Jato estão mantidas, a economia vai afundar mais e o desemprego aumentar, novas delações premiadas estão no radar, há vetos de Dilma a serem apreciadas pelo Congresso e a necessidade de aprovação da CPMF e da DRU (Desvinculação de Receitas Orçamentárias). “Em resumo, teremos um governo extremamente pressionado”, complementa.

5 thoughts on “O maior problema do governo é a falta de liderança

  1. A força da inércia recessiva com que as “políticas anticíclicas” perpetradas por Dilma e Mantega no primeiro mandato de Dilma derrubaram a economia do país por, no mínimo, dez anos!

    Essa política deletéria, levará o país à necessidade de ajuste um fiscal gradativo que não durará menos do que todo o segundo mandato de Dilma. Isso se ele começar a ser efetivado agora!

    Não tem como escapar ao ajuste fiscal. Esqueçam qualquer ajuste paliativo que não seja um arrocho verdadeiro das contas públicas, incluindo os investimentos.

    Falando claramente: não há escapatória para a recessão. A economia não terá condição de retomar crescimento sem que antes a inflação corroa todo o ganho real que o salário mínimo conseguiu nos últimos vinte anos. Sem que o desemprego atinja substancialmente, também, o setor de serviços e se estabilize, infelizmente, em duas casas decimais, hoje estamos com 8,6% de desemprego da população economicamente ativa (PEA). Vai piorar e muito!

    Não há como reverter o fato de que houve um profundo esgarçamento do poder de consumo do brasileiro que se encontra atolado em dívidas, encurralado pela carga tributária e pelo efeito de corrosão inflacionária sobre o seu rendimento.

    A massa de rendimento real do brasileiro já encontra-se em declínio, e continuará ainda este movimento por muito tempo, até que a inflação retome seu equilíbrio em torno do centro de controle do Banco Central.

    E para se ter uma ideia de quanto isso ainda está distante a inflação este ano tem tudo para ficar em duas casas decimais. Muito além dos 4,5% de meta central do BACEN.

    Então, muita coisa ainda vai piorar para que esta realidade de inflação no centro da meta se torne realidade.

    • Uma probabilidade para a máxima inflacionária em 2015: i = [(1,0124 x 1,0122 x 1,0132 x 1,0071 x 1,0074 X 1,0079 X 1,0062)^1,71 -1] x 100 = 12,0%.

  2. Sem a classificação de grau de investimento teremos que torcer para que o Banco Central americano retarde a sua intenção de retomar o aumento dos juros por lá; dando-nos a chance de não ficarmos expostos sobremaneira a um ataque cambial especulativo. O que nos forçaria a retomar a subida da taxa básica de juros. Ainda mais.

    • O seu raciocínio, até certo ponto está correto. Desejamos que todos os recursos que se direcionem para o país sejam recursos com a finalidade de investimento, isto é, com a finalidade de desenvolver a economia nacional gerando empregos, renda, salários e tributos para o país e a população.

      O problema é que os recursos destinados aos investimentos não são suficientes para cobrir o rombo das nossas transações correntes, isto é, das nossas transações comerciais de produtos, serviços e renda com o restante do mundo.

      Daí precisamos financiar este déficit das nossas transações correntes com o resto do mundo de alguma forma. Como este financiamento tem de ser em dólares, moeda de troca no mercado externo, temos que ter, de algum modo, alguém que nos forneça os dólares para sustentar este déficit.

      Então, é preciso manter os papéis e títulos do mercado financeiro nacional atrativo aos investidores estrangeiros, de modo que eles “invistam” seus recursos aqui, em nossos títulos, mantendo o fluxo de dólares positivo em relação ao país.

      Esse fluxo positivo de dólares, isto é, o excesso de dólares vindo para o país é que nos financia, então, este déficit das transações correntes.

      Então, se nas transações correntes há falta de dólares, pois, nessas transações comerciais sai mais dólar do que entra, na conta financeira, além do investimento direto, há também a entrada de dólares em busca de rendimentos no mercado financeiro. E é esse dinheiro suplementar que financia o nosso déficit em transações correntes, fazendo o nosso Balanço de Pagamentos ficar positivo.

      Infelizmente é assim.

      Em 2014, mesmo os títulos públicos e o mercado de títulos brasileiros, mantendo atratividade o Balanço de Pagamentos ficou negativo em US$400,0 milhões ou US$0,4 bilhões.

      O déficit em transações correntes correspondeu a US$103,6 bilhões (4,42% do PIB), enquanto o Investimento Estrangeiro Direto (IED) foi de insuficientes US$96,9 bilhões (4,13% do PIB).

      O déficit em transações correntes – de mercadorias e serviços – do Brasil com o resto do mundo acumulou US$103,6 bilhões (- 4,42% do PIB).

      A Balança comercial, que compõe as transações correntes e se refere ao comércio de mercadorias, acumulou déficit de US$3,9 bilhões (exportações de US$225,1 bilhões contra importações de US$229,0 bilhões).

      Registro gráfico das transações correntes do Balanço de Pagamentos ficou assim:

      # Balança Comercial (FOB):……………………..- US$6,1 bilhões (déficit)
      # Transações de Serviços:………………………. – US$48,1 bilhões (déficit)
      # Transações de Rendas:……………………….. – US$49,4 bilhões (déficit)
      ———————————————————————————————————–
      # Total das transações correntes:……………..- US$103,6 bilhões (déficit)

      Em contraponto, a conta Capital e Financeira, acumulou US$100,5 bilhões em ingresso de dólares, dos quais US$96,9 bilhões (4,13% do PIB) corresponderam a investimento estrangeiro direto (IED).

      Destaque, também para o ingresso de dólares em busca dos rendimentos do mercado brasileiro de títulos, sobretudo os de renda fixa cujas taxas de retorno estão sendo puxadas para cima em decorrência da elevação da taxa básica de juros – a SELIC. Ingressaram para os investimentos em carteira US$41,5 bilhões.

      Nessa conjuntura, houve fluxo negativo de dólares no período em relação ao Brasil (saída de US$0,4 bilhões), já que a saída de dólares pelo déficit em transações correntes foi maior que a entrada desta moeda na conta capital e financeira.

      Registro gráfico do Balanço de Pagamentos em 2014:

      # Capital e Financeira:………………………………..US$100,3 bilhões (entrada de dólares)
      # Transações Correntes:…………………………….-US$103,6 bilhões (saída de dólares)
      # Erros e Omissões:………………………………..….US$2,9 bilhões (entrada de dólares)
      ————————————————————————————————————————
      # Resultado do Balanço de Pagamentos:……..-US$0,4 bilhões (saída de dólares)

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