O mal de prometer tudo a todos

Carlos Chagas

Jânio Quadros já havia renunciado, depois foi cassado, em seguida confinado, anos mais tarde, anistiado. Candidatou-se a governador de São Paulo, perdeu outra vez. Parecia furada a profecia de Sana Khan, que prenunciara a ida do jovem recém-formado em Direito à Câmara de Vereadores, à Assembleia Legislativa, à prefeitura de São Paulo, ao governo do estado e à presidência da República. Chorando, o vidente previu a renúncia mas anunciou que décadas depois Jânio retornaria ao poder nos ombros da multidão.

Ninguém dava mais um centavo pela carreira política do histriônico personagem, quando, surpreendentemente, ele se elege prefeito de São Paulo. O vidente só errara o alvo, imaginando de novo a presidência da República, quando o voo era mais curto, apesar da imagem que antecipava, de centenas de milhares de pessoas elegendo o ex-presidente.

Antes de empossar-se na prefeitura, Jânio deu entrevista a uma rede de televisão. Lembrei sua campanha presidencial, onde prometera tudo a todos: reformas sociais profundas para o trabalhador. Terra para o camponês. Política externa alinhada ao Terceiro Mundo. Participação dos empregados no lucro das empresas. Ensino gratuito em todos os níveis para a juventude. E mais:

Para os empresários, estabilidade econômica, juros baixos, crédito fácil e contenção salarial dos trabalhadores. Ajuda do governo a investidores nacionais e estrangeiros. Segurança e ordem para a classe média. Novos direitos para os parlamentares. Garantia da propriedade da terra para os fazendeiros. Hierarquia e disciplina para os militares. Submissão aos postulados da Igreja para as massas empobrecidas.

Em suma, quando candidato presidencial, Jânio contemplou com promessas todos os grupos, categorias e classes, obtendo formidável apoio nacional. Cada um ouvia apenas o que queria ouvir, ignorando as propostas que batiam de frente com suas concepções.

Empossado no palácio do Planalto, imaginou poder atender a todas as promessas, por sinal conflitantes. Viu inverter-se a equação. Passou a receber críticas e hostilidade dos que discordavam de suas ações em favor de interesses opostos. Todo mundo ficou insatisfeito. O resultado foi sua tentativa de tornar-se ditador, única forma de exercer a autoridade contestada. Felizmente, quebrou a cara. Deixamos de viver a ditadura anos antes que ela chegasse por outras mãos. O Congresso tomou conhecimento da renúncia, ato unilateral de quem a pratica. As multidões não foram buscá-lo no fim de semana para exercer o poder excepcional, como antes fizeram os egípcios com Gamal Abdel Nasser e os cubanos com Fidel Castro.

Mesmo assim, Jânio continuou fixado na profecia de Sana Khan. Depois de sofrer anos de ostracismo, até de exílio, ganhou como consolação a prefeitura de São Paulo, de onde saiu para o esquecimento, uma vez completado seu mandato. Não deram certo aqueles vaticínios do estranho leitor do futuro.

Por que se recordam acontecimentos hoje tão distantes no tempo? Porque na remota entrevista de prefeito eleito, depois de indagar dele se não repetiria o erro anterior, espantei-me quando Jânio se levantou, olhou-me nos olhos e sentenciou: “o senhor acaba de explicar minha renúncia à presidência da República, mas não repetirei o erro anterior!” Ele jamais havia explicado o gesto inusitado.

Há outro motivo para essas reminiscências. Porque hoje os três principais concorrentes à presidência da República, Dilma, Aécio e Eduardo, estão prometendo tudo a todos. Correm o risco de acabar prefeitos…

8 thoughts on “O mal de prometer tudo a todos

  1. Caro Carlos Chagas, depois de Jânio Quadros ir a Cuba, condecorar o
    Che Guevara. a elite não estava satisfeita com seu governo, Lacerda
    que o apoiara, virou oposição ao seu governo, estava desagradando o EUA. Tenho minhas dúvidas: ele renunciou por vontade própria ou foi levado a isso?
    Considero-me insuspeito em ter essa dúvida, o meu candidato era o nacionalista General Henrique Teixeira Lott.

  2. Discordo quando diz que todos os candidatos estão prometendo tudo a todos. No caso do Aécio, apesar de até prometer tudo a todos, quando define que o ministro da Fazenda vai ser o Arminio Fraga, para mim já está definindo praticamente metade do governo, tá dizendo claramente que com economia não se brinca e é uma maneira de deixar bem claro a enorme necessidade que o governo tem de recuperar a confiança dos agentes economicos, sob pena de no máximo uns 4 anos o Brasil seguir os passos da Argentina e entrar num CALOTE .DEUS NOS LIVRE E GUARDE!!!

  3. Jornalista Carlos Chagas, saudações.
    Sempre terá a minha admiração pelo seu trabalho.
    Esse texto, por exemplo é admirável, reproduzindo com absoluta concisão, um personagem que marcou desde o seu início com a vassoura, ao apogeu com o seu “uniforme” de presidente e, finalmente, a ressaca, após o seu delírio na pretensão de ser um ditador.
    Sensacional, até como para atualizar muitas mentes esquecidas do que pode representar, na política, as falsas promessas…
    Parabéns.

  4. Pingback: O mal de prometer tudo a todos | Debates Culturais – Liberdade de Idéias e Opiniões

  5. >
    > Prezado sr.,boa tarde,
    > venho por meio desta solicitar a V.S a gentileza de estar retirando da web,do vosso blog,”Tribuna da Internet” o comentário maldoso e criminoso de uma pessoa sem escrúpulos e sem mentalidade de nome Roberto,esse cidadão,que não representa nada em nossos 11 anos de trabalhos sociais aqui de Itaquera,nos difamou.denegriu a imagem e só parou por conta de ação policial.
    > os demais links já foram deletados,mas ainda descobrimos outros,como o do sr.,pedimos por gentileza que nos atenda.
    > A data que está registrada é a de 01/08/2014 as ,esse comentário maldoso e fora de questão foi na oportunidade da discussão sobre o tema “Lei cria regras para convenio com ONGs….”.
    > Agradecemos a vossa atenção e aguardamos o desfecho favorável.
    > Att. Mario -diretor ONG União Bem Estar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *