O massacre do sindicatão

Sebastião Nery

O motorista que me levava, no meio da  tarde, em outubro de 2007, para o comitê de campanha (eles chamam de “bunker”) da Cristina Kirchner, no hotel Intercontinental, para as bandas da 9 de Julho e da Casa Rosada, um senhor elegante, bem vestido, paletó e gravata apesar do belo dia ensolarado, não tinha duvida nenhuma sobre o resultado da eleição:

– Ela vai ganhar. Contra meu voto mas vai ganhar. Não voto em gente peronista . Vai ser a vitória do “vo-tox” : muito voto e muito botox.

Ria da própria piada , mas era um riso meio raiva, de escárnio. No café do hotel “Kempinski”, na esquina da Alvear, ao lado da embaixada brasileira, dois grupos, em mesas separadas, falavam das eleições. Em uma das mesas, uma mulher folheava “O Clarim” e aparecia a foto, bem grande, da Kirchner. Um mulher da outra mesa, sem falar nada, abriu bem a boca,  pôs para fora uma língua enorme, rosada, e ficou assim até a dona do jornal perceber que ela estava botando a língua para a Kirchner. 

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PERON

No taxi para uma das deslumbrantes livrarias “El Ateneo”, na avenida Santa Fé, a fim de comprar os ultimos livros da campanha eleitoral e sobretudo o da veterana e competente jornalista Olga Wornat “Reina Cristina” (Planeta), puxei conversa. Mas o jovem motorista, cabelo negro, italianado, mudou de assunto quando perguntei pelas eleições:

– Desculpe, mas não falo de política, muito menos de eleição. Ao menos desta eleição. Já sei que o casal Kirchner vai ganhar, que meus candidatos vão perder e não vai ser bom para a Argentina.  Os radicais da UCR (União Cívica Radical), de Frondisi e Alfonsin, dividiram-se entre a “Gorda” Carrió e o professor e ex-ministro da Econonia, Lavanha. Qualquer um dos dois seria um bom presidente, organizando a economia, sem o perigo que é essa dona Cristina jogar o pais na desordem com os sindicalistas, o que não conseguiram  fazer com o Kirchner e que aliás foi o unico mérito dele. Mas essa gente é sempre a mesma, vem desde Perón.    

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BANQUEIROS

Eu estava lá em 2003 e 2007 e vi. Sem Perón, nem Kirchner teria vencido em 2003 nem a Cristina em 2007. São netos dele. A espetacular vitoria dela em 2007, em quase todas as províncias, exceto cinco, era a continuidade da fidelidade do povo à memória de Perón. Viram nos Kirchner os herdeiros de Perón. Os vários e brutais golpes e ditaduras militares fizeram do peronismo sinônimo de nacionalismo.

Plaza de Mayo: de frente, a Casa Rosada, o governo. De um lado, a Catedral, a igreja. No fundo, “La Prensa”, a imprensa. E o resto, todos os outros edifícios, absolutamente todos, bancos estrangeiros. Está aí a explicação para a invencibilidade dos Kirchner. Eles enfrentaram e derrotaram os bancos, os banqueiros e seu sindicatão, o FMI.

Em 2002, a bela, rica, poderosa, orgulhosa terra de San Martin, e de Buenos Ayres, a Paris das Américas, que se havia entregue, de joelhos, à desbragada agiotagem do sistema financeiro internacional, faliu. Até os irmãos mais pobres da América Latina acabamos chorando por ela. Mas a Argentina falida ressurgiu do buraco em que a enfiaram os mesmos especuladores internacionais, aliados aos vendilhões internos, que insistem em impor a mesma receita para os demais países do continente.

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KIRCHNER

Nem é preciso buscar os surpreendentes números econômicos, financeiros e sociais da Argentina de hoje. Basta ir às ruas com olhos de ver, como ensina a Bíblia, falar com o povo e comparar 2011 com 2002.  

Qual foi o milagre? Com seus olhos vesgos, o rosto como esculpido em bloco de neve e o andar desajeitado de pinguim, Kirchner explicava :

– A Argentina da crise ficou para trás. É hora de atingirmos a maioridade.Não tenhamos medo.Este pais sempre será latinoamericano, independente, plural. Não negociaremos nossa divida como eles querem. 

Kirchner propôs e impôs três anos de carência e dez para pagar, com taxa de 6,5% ao ano. Reduziu a divida em 75%. Só devia 25%. O resto eram juros sobre juros, roubo. Os bancos acabaram cedendo. E ele pagou.

E a Argentina cresceu nestes dez anos a taxas de 8% a 10%. Clovis Rossi, sereno e sabio, viveu lá e atesta na “Folha”: – “O espetacular crescimento argentino se refletiu nas urnas”.

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CRISTINA : 50,1%

Humilhado e ofendido, depois de combatê-la tanto, manchete do  Globo : – “Cristina Imbatível na Argentina” – Domingo, nas primarias nacionais a presidentre Kirchner teve 50,1% dos votos, Ricardo Alfonsín e o ex-presidente Eduardo Duhalde ficaram empatados com 12,2%, o governador de Santa Fé, o socialista Hermes Binner, 10,3%”. 

O “Sindicato Gráfico dos Bancos” que, com seus jornalões unidos em cada pais da America Latina a combatem tanto, saiu massacrado.

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