O meio nem sempre é a mensagem: oposição precisa de conteúdo

Pedro do Coutto

No artigo que publicou, com alto nível de sempre, na edição de segunda-feira 9 da Folha de São Paulo, o historiador Marco Antonio Villa condenou fortemente o rolo compressor dos governos Lula e Dilma Rousseff, que reduziu a 17,5%, assinala, a presença das bancadas de oposição no Congresso. Voltou-se também, corretamente sobre a cooptação do movimento social do país com o anestesiamento dos sindicatos e associações de classes. Não sei por que não incluiu a UNE, de tantas lutas no passado, e que, de alguns anos para cá, por coincidência, encontra-se no papel da bela adormecida.

Os herois estarão cansados, como no filme de Jules Dassin? É possível. Mas esta é outra questão.O fato essencial é que Marco Antonio Villa cobra mais uma vez combate à aliança PT-PMDB-PSB, por parte das legendas oposicionistas. E acentua que a coligação que sustenta e exalta o Planalto vai da direita conservadora ao MST aparentemente revolucionário, passando pela corrente reformista, portanto. É verdade.

Mas e a oposição? Não será ela conservadora? Claro que sim. Excetuando o PPS de Roberto Freire, no plano nacional, PSDB e DEM desejam que a renda no país seja redistribuída, pelo menos dentro dos princípios sociais moderados? Nada disso.Então o que ocorre, dentro de um quadro inevitavelmente binário? Preferência das classes de menor renda, amplamente majoritárias na sociedade, pelo PT, ou se Marco Villa quiser considerar, pelo lulismo.

As pesquisas do IBOPE e Datafolha não deixam dúvida quanto a popularidade tanto do ex-presidente quanto da atual chefe do executivo. Compare-se essa aprovação com o sentimento de rejeição provocado por FHC no final de seu segundo mandato. Como tudo na existência humana, os fenômenos têm que obter uma explicação lógica. Sem lógica, não se faz nada.

A inflação registrada pelo IBGE nos oito anos de FHC foi de 102%. Nos oito anos de Lula ficou em 56%. Este confronto não esgota o assunto. Compare-se o que aconteceu com as cadernetas de poupança. Com o FGTS. Na administração Fernando Henrique, a correção deixou de incluir a remuneração real de 0,5% ao mês, ou 6% ao ano. Quanto ao FGTS foram suprimidos os juros reais de 3% para doze meses.

Os bancos são os grandes vencedores do processo. Os assalariados devem votar em quem? Desejar o contrário é repetir o papel da UDN no passado. Antes da CLT de Vargas não havia férias remuneradas, folgas semanais, aviso prévio, indenização trabalhista, limite da jornada de trabalho. Os trabalhadores deveriam votar em quem? O erro que Villa pode apontar em Lula e Dilma Rousseff é o de não terem corrigido a expropriação do trabalho humano. Sim. Porque reajustar salários e aplicações abaixo da inflação é diminuí-los concretamente. Enquanto isso as favelas crescem.

Mas os oposicionistas querem enfrentar esses temas que estão mais para a ideia de reforma? Não. Querem cobrar a reforma agrária efetiva, outra grave lacuna do ciclo do PT no poder? Não defendem sequer o Estatuto da Terra, lei de 1964, magnífica, de autoria de Roberto Campos. Governo algum a colocou efetivamente em prática até hoje.

O historiador opõe-se, com total razão, às investidas (não de Dilma Rousseff) mas de setores do PT contra a liberdade de imprensa. Porém ela existe. Por que a oposição não parte para a luta? Porque simplesmente, ao contrário do que Marshall McLuhan sustentou na década de 50, nem sempre o meio é a mensagem. O impacto da mensagem encontra-se muito mais no conteúdo do que na forma. Mais no conteúdo do que no continente, para citar Helio Jaguaribe. Muito mais no substantivo que no adjetivo.

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