O mensalão na reta final

Carlos Chagas

Tem-se como provável, no Supremo Tribunal Federal, que os  ministros Joaquim Barbosa, relator, e Ricardo Levandowski, revisor, terminarão  ainda no   primeiro  semestre de 2012 suas conclusões sobre os 39 réus do mensalão atualmente processados. As razões finais dos acusados  foram apresentadas e o relator já se encontra  trabalhando para sugerir a condenação ou a absolvição de cada um. Apesar dos prazos concedidos aos advogados dos  mensaleiros para a última defesa, perante o pleno do STF, todos  os esforços serão  feitos para que tudo se conclua antes  das eleições municipais de outubro do próximo ano. Menos pelo fato de que  nenhum dos réus  deverá concorrer a prefeito ou vereador, mais porque a suprema  corte nacional  de Justiça pretende desincumbir-se de uma questão iniciada em 2006.

Além de inócuo, é perigoso especular a respeito de sentenças judiciais. Os meretíssimos abominam, principalmente quando a especulação se confirma. Ouve-se não haver unanimidade entre os dez ministros que, espera-se,  logo serão onze, com a indicação pela presidente Dilma de quem substituirá Ellen Gracie, recentemente aposentada.

Juízes julgam de acordo com a lei, não conforme os ventos que movem a opinião  pública, mas se prevalecesse o sentimento popular a respeito do mensalão, não escaparia um só dos  39 réus. De Marcos Valério a Delúbio Soares, de José Dirceu a João Paulo Cunha e a Roberto  Jefferson, seriam todos condenados. Cadeia? Suspensão de direitos políticos? Multas e devolução do  dinheiro recebido irregularmente?

Será bom aguardar, agora que se aproxima a reta final. Tendo presente, no entanto,  a esperança de que um dos  maiores escândalos praticados à sombra do poder público  não venha a  ficar impune.

***
CADA UM PAGA O SEU

Semana passada, nas diversas refeições feitas em restaurantes de luxo  pela presidente Dilma e sua  comitiva,  em  Nova York, fora da agenda oficial, sobressaiu um detalhe: na hora  de pagar a conta não havia qualquer  funcionário da presidência da  República, segurança, diplomata ou bicão pronto para responsabilizar-se pelas despesas.  Se eram sete os comensais, Dilma pedia ao garçom que dividisse a nota por sete e cada um abria o bolso ou a bolsa. Como sempre acompanhada pela filha, a presidente arcava com duas parcelas, mas tudo nas verdinhas, sem cartões corporativos ou sucedâneos. Afinal, todos na comitiva haviam recebido ajuda de custo, inclusive ela. Não deixa de ser singular esse comportamento, quando a gente olha para  o passado.

***
DESTA VEZ A COISA VAI

Anda exultando o senador Pedro Simon,  com o desenrolar da campanha nacional contra a corrupção. Vem dando certo a mobilização popular de protesto diante dos  desvios e irregularidades praticadas com os recursos públicos. O  senador  gaúcho há décadas  faz da  luta contra a impunidade sua principal bandeira,  e até elogia o fato de  a sociedade  civil movimentar-se acima e além dos partidos.  

Para ele, a atual campanha segue na esteira das “diretas já”, da eleição de Tancredo Neves, dos “caras-pintadas” e outras que mudaram a política nacional. Espera que as instituições venham  a fazer a sua parte,  ou seja, Executivo, Legislativo  e Judiciário tem missões a desempenhar,  seguindo a voz das ruas. 

***
SEM  PERDOAR, MAS SEM RANCOR

Não há como esquecer nem perdoar os  horrores praticados à  sombra do poder público durante os  anos de chumbo do regime militar. Da mesma forma como investigar, apurar e denunciar os agentes do Estado responsáveis pela  tortura, os desaparecimentos e  os assassinatos, torna-se necessário olhar para o  lado oposto. 

Quantos crimes igualmente hediondos foram praticados pelos que se opunham à ditadura,  aplicando seus  mesmos  métodos? Em  atentados, sequestros, assaltos e bombas explodidas também morreram policiais, militares, seguranças e gente inocente. A Lei da  Anistia apagou  a possibilidade de punições, preço  amargo a pagar em nome do retorno do  país à democracia. Sem ela, sabe-se lá onde estaríamos hoje. Sendo assim, em favor da memória nacional, a Comissão da Verdade que o Senado deve aprovar esta semana tem  fundamental papel a cumprir.  Só  que  iluminando uma das partes, fatalmente iluminará a outra.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *