O ministro da comadre

Sebastião Nery

Dona Joaquina do Pompéu é patrimônio e glória da história de Minas, matriz genética da TFM (Tradicional Familia Mineira). Dela descende a maioria dos grandes políticos brasileiros deste século.

Em 1956, Coriolano Pinto Ribeiro e Jacinto Guimarães (o Cintinho, descendente de D. Joaquina e sobrinho de Francisco Campos e pai do ex-deputado Paulo Campos Guimarães) pesquisaram e publicaram toda a arvore genealógica da matrona mineira. Na página 285, está lá Getúlio Vargas, também seu descendente.

Na página 75, os Valadares de Pitangui (Benedito e outros). Na página 48, os Castelo Branco (Humberto de Alencar, Carlos Castelo Branco e outros). Juscelino Kubitschek, Pedro Aleixo, Milton Campos, Magalhães Pinto, toda a gloriosa fauna política de Minas está lá.

Benedito Valadares, que sabia onde as onças bebem água, fez do livro de D. Joaquina sua Bíblia política. Aparecia alguém nas manchetes do poder, ele ia lá conferir. Quando o general Costa e Silva assumiu a presidência da República, Benedito ficou desolado. Não era seu parente:

– Uai, este o Cintinho esqueceu de botar no livro.

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O POLACO

Procurei no livro de dona Joaquina o DNA do estranho ministro do Supremo Tribunal, Ricardo Lewandowsk. Não encontrei nada. De Minas ele não é. Com aqueles angustiados olhos claros e um sobrenome que parece uma salada de www, pode ter vindo das geladas terras polonesas. .

Quando Getulio preparava o golpe de 1937, pediu ao mineiro Francisco Campos, o “Chico Ciencia”, uma Constituição de emergência. Ele copiou quase inteira a Constituição Polonesa. Getulio adotou-a. Por isso entrou para a historia das vergonhas nacionais como “A Polaca”.

Getulio sabia a quem pedir. Logo depois da Revolução de 30, conta Hugo Gouthier em suas memórias, foi fundada em Minas a “Legião de Outubro”, réplica tupiniquim do fascismo europeu. Muitos dos antigos correligionários do PRM (Partido Republicano Mineiro), ridiculamente fardados de cáqui, desfilavam por Minas Gerais citando slogans, um dos quais, de autoria de Francisco Campos, era um primor de violência:

“Legião é braço e punho”.

O espantoso é que essa filosofia, tão radicalmente contrária ao temperamento mineiro, foi ganhando terreno. Conquistou não só Gustavo Capanema e Amaro Lonari, como até o velho Olegário Maciel (80 anos, presidente do Estado), que também passou a se fardar de cáqui.

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O DECRETO

No golpe de novembro de 1937, Mendes Pimentel, diretor da Faculdade de Direito de Minas e jurista ilustre, telegrafou a Francisco Campos, propondo que, em lugar da “Polaca” (a Constituição por ele fabricada à imagem e semelhança da constituição fascista polonesa), bastava o ditador Getúlio assinar um decreto de dois artigos:

“Art. 1º – Fica revogada a lei que aboliu a escravatura no Brasil.

Art. 2º – Os brancos passam a ser também escravos”.

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A TORNEIRA

Chico Campos conversava com o jornalista Tarcisio Holanda:

– “Eu estava afastado de Getúlio. Em 44, ele manda me chamar:

– “Dr. Campos, o que é que o senhor está achando do País?.

– “Acho que está na hora de abrir um pouco a torneira da liberdade. Liberdade é como água no Nordeste. Se vem demais, alaga tudo. Mas, se vem de menos, um dia acabam invadindo o comercio para arranjar de qualquer jeito. Eu acho que está na hora de abrir um pouco a torneira.

Um mês depois, ele mandou me chamar de novo:

– Dr. Campos, vou convocar eleições. O que é que o senhor acha?

– Presidente, cuidado para também não abrir a torneira demais.

Abriu demais, acabou indo nas águas”.

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LEWANDOWSKI

Não cometerei a ligeireza de dizer que o ministro Lawandowski é um jurista “polaco”. Nunca li nada de sua lavra, um livro, uma tese, um artigo.

Mas ando com medo de que, no julgamento do Mensalão, ele se revele um jurista da comadre, de São Bernardo, mais a serviço de Lula e do PT do que a serviço da Constituição, como Chico Campos era a serviço de Vargas.

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