O mundo está cheio de países devedores, mas quem são os credores?

Pedro do Coutto

O mundo está cheio de países devedores, mas quem são os credores? A primeira ministra da Alemanha, Ângela Merkel, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, reuniram-se segunda-feira em Paris e estabeleceram as bases de um projeto a ser submetido à União Europeia, cujo objeto é a contenção de gastos públicos e o equilíbrio orçamentário e financeiro na zona do euro.

Numa reportagem excelente, Vaguinaldo Marinheiro, correspondente da Folha de São Paulo em Londres, edição de 6, foi à França cobrir o encontro. Bela foto de Ian Langedon ilustra a matéria. Um quadro estatístico sintetiza o panorama. Quinze nações, entre elas Espanha, Irlanda, Portugal, Holanda, a própria França, ao lado da Alemanha, além da Itália e Áustria, estão endividadas. Só escapam, na área da moeda comum, a Bélgica, Luxemburgo, Estônia e Finlândia. Vejam só. Se deixarmos o campo em que o euro atua, vemos, ainda na Europa incluir a Inglaterra. Para não estender muito a viagem, temos ainda os exemplos dos Estados Unidos, em que a dívida interna, de 14,7 trilhões de dólares, é praticamente igual ao PIB do país. Vale acentuar que o PIB norte americano corresponde a um terço do Produto mundial. Logo, o endividamento geral supera a metade de tudo o que durante um ano se produz no universo.

Dívidas e devedores, assim, não faltam. Até a poderosa Alemanha, maior PIB europeu, está em vias de ser rebaixada pelas agências de risco. A impressão que dá é que está predominando no planeta um esquema semelhante ao que rege as atividades do INSS no Brasil. A Previdência Social deve centenas de milhares de ações vencidas por aposentados e pensionistas e simplesmente não paga. Mas esta é outra questão. O fato essencial é que há credores até em demasia. Mas quem são eles? Pode-se citar a China, país do que se pode chamar de comunocapitalista para propor um neologismo. Neologismo que deve espantar, se é que há vida eterna, conservadores como Eugênio Gudin, Roberto Campos, Mário Simonsen, e vários outros.

Na vida terrena a Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia alguns anos atrás, para quem a ganância não existe. O enigma é a respeito de quem são os credores e onde eles estão. Não se encontra uma resposta aparente, já que os principais países devem, têm que dever a alguém. Pois não existe débito sem crédito. Se alguém perdeu é porque alguém ganhou. Se alguém teve prejuízo é porque alguém lucrou. Se alguém deve é –claro – porque alguém financiou ou emprestou. O dinheiro também conhecido como vil metal, é efetivamente indispensável para, não só reger as transações comerciais, mas a própria vida. Estabelece as escalas de posse. E os Estados asseguram a propriedade.

O bolso é um órgão muito sensível: paga-se e recebe-se através dele. A pergunta continua sem resposta direta e objetiva. Porém torna-se indispensável até como exercício intelectual. Já que tudo na existência possui a sua economia. Inclusive a arte. Daí porque o hermetismo no plano artístico bloqueia a sua economia, obstrui seu mercado. As usinas de expressão e pensamento são feitas para funcionar. Da mesma forma que os atletas não podem competir sem público, o artista exige a admiração dos outros. Mas estou me afastando do tema dual entre credores e devedores.

A China, evidentemente, não pode financiar todo mundo. Os credores, portanto, é o único caminho dentro da globalização, não são países: são as empresas multinacinais dentro das nações. Ingenuidade à luz dos tempos modernos, para citar Chaplin, pensar, por exemplo, que existe um Estados Unidos. Na verdade, existem dois: um dentro das fronteiras americanas, outro além das fronteiras internacinais, localizado em múltiplas economias nacionais. Interesses americanos encontram-se no Brasil, no Japão, no Reino Unido, na França, Na Alemanha, até na China e Rússia. Formam uma teia ao redor do planeta garantindo o que, palavra mágica da época, sua sustentabilidade.

Ora, o que é desenvolvimento sustentável? A definição dá margem a supor a existência de outro não sustentável. É o que acontece com os países endividados.

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