O Natal de Natal

Sebastião Nery

A mulher alta, olhar poderoso, voz de barítono, cabelos grisalhos, entrou no salão com seu vozeirão e gritou :

– Pelo amor de Deus, parem com esse rock! Quero ouvir maracatu!

Era Eneida, lenda viva do Pará no Rio de Janeiro. Vai fazer agora exatos 50 anos. No dia 10 de dezembro de 1961, começava em Natal o “1º Festival do Escritor Norte-Riograndense” (10 a 15 de dezembro) patrocinado pelo governador Aluisio Alves, que tinha se elegido em outubro de 1960, pelo prefeito de Natal, Djalma Maranhão, ambos depois cassados pelo golpe de 64, e pelo secretário da Educação, Grimaldi Ribeiro.

Aluisio, cumprido seu mandato de governador, continuou no País. Djalma foi sofrer seu exílio em Montevidéu, onde duas vezes o encontrei numa profunda tristeza, que acabou explodindo seu inconsolável coração.

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O “FESTIVAL” DE 1961

O Festival Literário de 1961, coordenado pelo jornalista e escritor Ticiano Duarte, diretor da Imprensa Oficial do Estado, tinha como principal representante daqui o gênio e a competência de Câmara Cascudo. E recebeu um punhado de inesquecíveis escritores do chamado “Sul do País”.

Peregrino Junior, Dinah Silveira de Queiroz, Simeão Leal, Jaime Adour da Câmara, Renard Perez, Homero Homem, José Conde, entre numerosos outros que esqueci. E, pela Bahia, eu, que na época vivia lá e tinha acabado de lançar meu primeiro e polêmico livro “Sepulcro Caiado”.

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O “ENCONTRO” DE 2008

Meio século depois, voltei para o “III Encontro Natalense de Escritores” (27 a 29 de novembro) , convocado, organizado e comandado pelo jovem e dinâmico prefeito Carlos Eduardo Alves, uma revelação política e administrativa (sobrinho de Aluisio e filho de Agnelo, prefeito de Parnamirim, (a moderna e bem cuidada cidade junto a Natal).

O nome do prefeito de Natal é um DNA da velha UDN de 1945: Carlos de Carlos Lacerda e Eduardo de Eduardo Gomes. Honrou os dois. Chegou ao fim do segundo mandato com apoio notório da população.

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ARNALDO ANTUNES

O “Encontro” de 2008 teve três dias de contínuas mesas-redondas, lançamentos de livros, tardes e noites de autógrafos e shows da mais requintada música popular, nacional e nordestina. Por exemplo:

1 – “Conto, Poesia e Outras Conversas”, com Chico Mattoso, Nicolas Beher, Silverio Pessoa e Carlos Fialho.

2 – “Crônica Política”, com Sebastião Nery, Claudio Emerenciano e Ticiano Duarte.

3 – “Encontro Marcado”, com Arnaldo Antunes.

4 – “Machado de Assis e Seus Amigos”, com Antonio Carlos Secchin e Diógenes da Cunha Lima.

5 – “Palavra Escrita, Palavra Cantada”, com Abel Silva, Antonio Ronaldo, Nivaldete Ferreira e Eduardo Gosson.

6 – “O Escritor-Editor – Conversa sobre o jornalismo literário brasileiro”, com João Gabriel de Lima, Homero Fonseca, Moacir Amâncio e Alex de Sousa.

7 – “O Nordeste na Literatura Brasileira”, com Carlos Heitor Cony e Tarcisio Gurgel.

8 – “A Ficção e a Realidade em Não Verás País Nenhum”, com Ignácio de Loyola Brandão e Washington Novaes.

9 – “Oswaldo Lamartine : Oficio e Estilo de um Registrador de Coisas”, com Carlos Newton Júnior, Antonio Naud e Woden Madruga.

10 – “O Desenho Rítmico da Bossa Nova”, com Zuza Homem de Mello, Roberto Menescal, Zé Dias e Damião Nobre.

11 – “Vinicius : Palavra e Música”, com José Miguel Wisnik, Arthur Nestrovski e Paula Morelenbaum.

12 – “Um Romancista Nato”, com Cristovão Tezza e Humberto Hermenegildo.

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NIEMEYER

E também houve Oscar Niemeyer. Em pleno coração de Natal, o prefeito Carlos Eduardo instalou o “Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte”, uma belíssima área verde, com dunas dentro, de 64 hectares.

E mais: Oscar Niemeyer deixou aqui mais um de seus dedos de gigante da beleza e da arquitetura. Sem cobrar (“é um presente meu a Natal e à força da mensagem do jovem prefeito”), fez o projeto, já construído e funcionando, de um grandioso monumento: um belíssimo mirante, de uma altura correspondente a um edifício de 40 andares, de onde se vê a cidade inteira com suas dunas, praias e o mar sempre verde-azul do Nordeste e com anfiteatro, passarelas, salas de aula, salas de pesquisa etc.

Só vendo para ver, como disse o poeta. Natal é, cada dia mais, uma das capitais mais bem cuidadas (para não dizer a mais bem cuidada e provocar ciumeiras regionais) do País.

Há 50 anos já prometia ficar assim. Ficou.

 

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