O naufrágio do PT paulista

Sebastião Nery

Mineiro de Uberaba, olhar negro e felino, cara de índio aculturado, Afrânio de Oliveira, chefe da Casa Civil de Paulo Egidio, governador de Geisel de 1975 a1979, encontrou Magalhães Pinto em Brasília:

– Afrânio, o Paulo Egídio ficou doido? Murilo Macedo para a secretaria da Fazenda, Jofre Melo para o Banco do Estado, Nilo Medina para a Caixa e você para a Casa Civil, quatro mineiros de uma vez, isso nem eu fiz em Minas.

– O café anda difícil, senador. Está ficando só o leite.

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AFRÂNIO OLIVEIRA

Jornalista, professor de Português e História, Afrânio foi um dos inventores de Jânio Quadros. Colega na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, líder estudantil contra a ditadura Vargas no Centro Acadêmico 11 de Agosto, coordenou as campanhas de Jânio para deputado estadual em 1950, prefeito em 1953 e governador em 1954, como todo poderoso secretário particular.

Em 1958, elegeu-se deputado federal pelo Partido Socialista, do qual foi líder, reeleito em 1962. Apoiou o golpe de 1964, não se reelegeu, pelo MDB, em 1966, e foi o braço direito de Faria Lima na prefeitura de São Paulo.

Em 1978, no fim dos governos Geisel e Paulo Egídio, já desconfiado de que Maluf ganharia a convenção da Arena para governador, ele olhava São Paulo de longe, cinzento, pela janela do palácio Bandeirantes, e me falava, desolado:

– O Getúlio era suspeito, porque não gostava de São Paulo. Mas ele tinha lá sua razão quando declarou que “essa Nação seria ingovernável se São Paulo tivesse uma classe política de primeira categoria”.

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O CAMINHO

Mas Afrânio sabia que havia caminho. E mostrava, com seu fino talento:

– São Paulo só tem uma saída política: sensibilizar seus políticos e seus líderes sociais para o processo nacional. Até agora as soluções paulistas nasceram de estreitas visões de grupos. Chegou a hora de pensar São Paulo nacionalmente. O erro de Abreu Sodré foi querer governar São Paulo do ponto de vista da UDN. O erro de Laudo Natel foi querer governar São Paulo como se estivesse sentado na cadeira do São Paulo Futebol Clube.

– Para acertar, tem que fazer o quê?

– Política. A abertura (que a oposição então exigia e Geisel anunciava) é fazer política. Fora daí não há caminho. O importante é a política. O técnico é como um livro na estante. A gente apanha, consulta e devolve. Se eu fosse presidente, meus ministros seriam todos políticos. Se eu fosse governador, só teria secretário político. O técnico é para fazer o que lhe mandam. O político é para pensar, criar, decidir, mandar fazer.

Quando um Presidente se gaba de não gostar de ler e não pensa, não cria, não decide e não sabe mandar fazer, é o fim do caminho.

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OS SEIS

Apesar da força de Dilma e de Lula, o PT está agonizante porque é sobretudo um partido paulista. E o PT de São Paulo naufragou. Nunca se viu, na história política do País, um partido perder, de uma vez só, as possibilidades eleitorais de todos os seus candidatos.

Mercadante levou um tiro na barriga, ao perder a eleição de governador em 2010. Marta, um tiro no peito. João Paulo, na testa. Dirceu, Palocci e Genoino sumiram dentro das “malacutaias” do governo Lula. Lula inventou Fernando Haddad, que não decolou. Estão todos mortos para disputarem o governo do Estado daqui a dois anos. Ninguém acredita, muito menos eles, que qualquer um possa sair para pedir voto.

O PT paulista enterrou-se na cova do Celso Daniel e na careca do Valério.

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