O nó que precisaremos desatar

Carlos Chagas

Fenômeno mais profundo e importante do que a rebelião dos jovens, apesar da participação de vândalos e animais nas manifestações, está sendo  a pacífica revolução dos velhos. Quando Getúlio Vargas criou os institutos de previdência social, a vida média do brasileiro mal chegava aos cinqüenta  anos. Assim, tornou-se fácil, mesmo para uma economia então insipiente como a nossa,  que o Estado arcasse com aposentadorias capazes de satisfazer  quantos paravam de trabalhar em idade ainda útil. Porque não durariam muito tempo, fora as exceções de sempre. A Medicina, porém, adiantou-se a cada ano, trazendo maravilhas para a Humanidade.

Encurtando a conversa, hoje o cidadão trabalha naturalmente aos setenta e oitenta anos, mesmo podendo  aposentar-se aos sessenta e cinco ou até antes, em se tratando de categorias especiais e privilegiadas. O resultado é que mesmo com o desenvolvimento e o crescimento econômico, os velhinhos continuam trabalhando em atividades formais ou informais. Maravilha, mas com uma consequência trágica para os jovens: os empregos que deveriam abrir-se para eles encontram-se ocupados pelos idosos impertinentes que se recusam a tomar o rumo do  além. Cada vez  fica mais difícil aos mais moços abrir espaço para o primeiro emprego, empenhando-se todos numa “livre” competição que conduz ao egoísmo e a nem muito éticos expedientes responsáveis pela exclusão do mercado do trabalho daqueles que não se destacam, por razões explicáveis pela natureza.

Claro que entre nós esse fenômeno torna-se muito menos agudo do que, por exemplo, na França, onde o primeiro emprego aparece aos 29 anos de idade  do já ex-jovem. Na Alemanha e na Espanha é pior.

Devemos preparar-nos para o que vem por aí, apesar de na última década do século passado haver diminuído o numero de nascimentos em  nossas famílias. Passou o tempo em que os casais tinham oito, nove ou mais filhos. Só que a solução do controle  da natalidade, ou planejamento familiar, não é solução, mas maldade para com as gerações futuras.

Fazer o quê, se matar os velhinhos e antecipar-lhes a eternidade também não pode ser cogitado? Alguns fascistas sustentam que as guerras seriam a saída, como foram no  passado. O sacrifício de vinte,  trinta ou cinqüenta  milhões de vitimas equilibrou as oportunidades no planeta, às custas do que de mais sagrado possuíam os indivíduos, a própria vida. Sem falar no número indescritível de cientistas, compositores, músicos, poetas, advogados, professores e tantos mais que pereceram nos campos e batalha sem ter tido oportunidade de desenvolver suas qualidades.

Indaga-se onde se encontra o nó que precisaremos desatar em algumas décadas, e que já sufoca a Europa, o Japão e logo também a China. A concorrência cruel nas sociedades do planeta inteiro só faz aumentar a angustia, tanto quanto diminuir a ética. O modelo econômico que  determina a abominável lei do mais forte  nos transforma em trogloditas em plena era da tecnologia avançada.

 

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5 thoughts on “O nó que precisaremos desatar

  1. Sr. Chagas, a razão no Brasil, dos idosos, continuarem a trabalhar até morrer, é para complementar as necessidades de sua vida, quando trabalhava, e descontava por “tantos SMinimos para manter o “padrão de vida”, e que o governo do FHC, mandou para o lixo, e o governo do Lula-PT continuou. O aposentado descontou sobre 5Munimos, e sua aposentadoria já começa a ser “garfada”, e com 5 snos já chega ao SMM(M de miserável), o grande prejudicado, o 1º emprego.
    Infelizmente o PT, ao virar governo, tambm virou às costas para o trabalhador, transformando um “sonho” em “pesadelo”´. A Midia não nos deixa mentir.
    Rui Barbosa e De Gaulle atualíssimos.

  2. Pois é Theo, era o que eu ia dizer mas você já disse tudo. Quem quereria trabalhar, após completar tempo para aposentadoria,sob a direção de chefes despreparados,arrogantes ou negligentes,quase todos? Faça uma visita às repartições públicas e certifique-se do que digo. Na iniciativa privada não é muito diferente.

  3. A avidez desmedida da classe política,com ganhos astronômicos,os cargos comissionados,
    o brutal desvio de verbas,o sucateamento das empresas públicas,tudo isso contribui para
    esta situação degradante.

  4. O problema é muito mais profundo e abrangente, o senhor jornalista o abordou um tanto superficialmente, talvez porque o assunto seja muito escabroso, é a angustiante equação “recursos, versus, população” logicamente em termos globais. A cruel verdade é que a humanidade caminha em ritmo de progressão geométrica para o colapso e a inepta classe política internacional teima, de forma criminosa e consensual, em manter uma atitude de avestruz. Como fazem falta ESTADISTAS que formulem e apliquem regras, mesmo que “incorretamente políticas” que salvem nossos descendentes da tragédia.

  5. Parabéns pela brilhante abordagem de tema de tão grande relevância para o futuro de curto prazo do País.
    Temos um grande problema na administração pública:A hipertrofia do quantitativo de cargos comissionados, de livre nomeação e livre exoneração, que são usados como moeda de troca política, deixando de fora milhares de brasileiros com ótima formação de fora da construção de uma sólida administração pública por meio de seleções públicas bem conduzidas.
    Tal administração, quando constituída de profissionais cuja estabilidade lhes permita cumprir a lei ainda que contrariando a vontade dos altos cargos executivos tem por mister cumprir a função da administração pública que é zelar pelo bem público e servir a sociedade.Poucos são os vocacionados para servir.Por isso é mais fácil nomear alguém que me será sempre fiel por medo de perder seu cargo.Com isso cria-se uma rede de fazedores da vontade do governante a despeito do interesse público. Políticas de ESTADO se faz com carreiras de ESTADO, independentes e isentas.
    Aproveito para esclarecer que inSipiente é sinônimo de ignorante, sem sapiência, ao passo que inCipiente é a qualidade do que está começando.

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