O novo Papa se refugia na humildade e simplicidade, que não é o caminho para a renovação e sim da obrigação. Por outro lado, a surpreendente transferência do Papa da Europa para as Américas, verdadeira revolução. Mas precisa firmeza e vontade, que parece não ser o forte de Francisco.

Helio Fernandes

Quem coordenou a candidatura do Cardeal Bergoglio a Papa? Pelas regras obrigatórias determinadas pela própria cúpula do Vaticano, os cardeais votantes não podem conversar sobre o assunto. Nem antes e menos depois, fechados na Capela Sistina.

Então como aconteceu essa reviravolta inexplicável? Inexplicável e fulminante. Logo no segundo dia da última votação, surgia a fumaça branca. E 1 hora e 6 minutos depois, revelavam o nome de Bergoglio como novo Papa.

Como não houve explicação ou comentário oficial ou oficioso, Bergoglio foi aceito pelo mundo, vencedor com os 77 votos necessários ou indispensáveis. A cúpula que domina (dominava?) o Vaticano, tem como base de tudo a “confidencialidade”, não se sabe se o Cardeal da Argentina teve 80, 90 ou 100 votos. Os 77 são reconhecidos como verdadeiros, pois com menos (mesmo que fossem 76), ninguém teria sido eleito. A procura teria que continuar.

Como não há nada oficial, a coisa mais natural, surgiram suspeitas e suposições a respeito de como os fatos aconteceram. Já existem dezenas dessas versões ou interpretações, das mais diversas e diferentes fontes. E também compreensivelmente contraditórias. Bergoglio (agora Francisco, por vontade própria) não estava entre os 41 “papáveis” largamente divulgados.

É comovente verificar como os mais famosos “vaticanistas”, que escrevem em alguns dos mais importantes jornais do mundo, tentam explicar ou corrigir o fracasso da expectativa ou da especulação. Um deles, dos mais prestigiados, chegou ao fato assombroso de “republicar” artigo de 2005, em que fala de Bergoglio como candidato. Falava dele, mas não o apontava como possível vencedor. Agora, 8 anos depois, tenta corrigir sua própria omissão.

Todos esses “vaticanistas” dão explicações “furadas”, palavra que não vem de “furo” jornalístico, e sim incompetência, arrogância e agora imprudência. Tudo isso contribui para o aumento das especulações que dominam a Rádio Corredores do Vaticano. A mais coerente “explica” a vertiginosa ascensão do Cardeal Bergoglio e a mudança da capital da Igreja para a América Latina. Existem muitas versões, mas essa parece a mais versátil, embora não passe de versão.

Essa versão, sem muitos itens, para maior clareza, será dividida e numerada para ser melhor entendida e assimilada. Ressaltando mais uma vez que na cúpula do Vaticano, tudo é sigiloso e quase sempre fantasioso.

1 – Segundo essa versão, desde a renúncia de Bento XVI, inquieto e até assustado, o grupo que dominava tudo, se reunia diariamente, por horas, tentando a solução. 2 – Numa sugestão inédita, que teria se tornado unânime, a decisão: um outro Papa da Europa levaria infalivelmente a Igreja à falência.

3 – Seria o reconhecimento de erros e equívocos pessoais, mas também lição de desprendimento. 4 – Assim, decididamente, o Papa pela primeira vez viria de outro continente. Com essa conclusão, a constatação: sobrariam Ásia, África, América Latina.

5 – Imediatamente, sem voltar atrás, o horror expresso por quase todos: um Papa da Ásia ou da África? Enumeraram várias inconveniências ou fatos inaceitáveis, fecharam questão: “Tem que ser da América Latina”. Eliminaram logo Brasil e EUA, restou a Argentina.

6 – País praticamente laico, sem uma Igreja poderosa ou apenas forte, a Argentina foi “escolhida” nos bastidores. 7 – Decidida a Argentina, o Cardeal Bergoglio, sem saber, já era o Papa, debaixo do mais completo sigilo.

BERGOGLIO TERÁ QUE SER SURPREENDENTE
NA AÇÃO COMO FOI NA INDICAÇÃO

Nada é inverossímil nessa versão, a não ser o perfil do cardeal escolhido. Faltam a ele condições principais e fundamentais para cumprir a missão-revolução que lhe confiaram. Ele mesmo encheu o mundo se reservas, na primeira afirmação e no primeiro discurso.

Textual: “A Igreja corre o risco de virar uma ONG, se não se espiritualizar”. Não precisa nem interpretação, o Papa Francisco deixou bem claro que o indispensável é a fé, a crença, acreditar em Jesus Cristo, como ele mesmo citou. Apelou para o lugar comum, o indiscutível.

O mundo inteiro concordou com ele. A base da Igreja é a fé. Mas isso é tão compreensível, imaginável e exigível, que qualquer Cardeal poderia ser Papa. Acontece que o Vaticano é parte de Santa Sé, um Estado, um país que precisa ser administrado. Como Bergoglio reconhecidamente não é administrador, vamos esperar quem ele nomeará como Primeiro-Ministro.

Na seara dele, não se pode esperar avanços na questão do aborto, do apoio às pesquisas com células-tronco, o fim da pedofilia.

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PS – Uma primeira, última e definitiva palavra. Nem explicação ou contestação, apenas correção de interpretação. É visível e evidente que não quis nem poderia querer atingir São Francisco de Assis, um dos maiores personagens, não só da Igreja Católica, mas também da Humanidade.

PS2 – Por extensão, não poderia pretender atingir os que levam seu nome, por vários motivos. O principal é que a homenagem não foi prestada por eles e sim pelos pais.

PS3 – Quando meu pai me crismou e me batizou como Helio, não estava pensando no Rei Sol. Meus irmãos Milton (que depois passaria a Millôr), minhas irmãs Judith e Ruth, na tenra idade em que receberam esses nomes, não podiam saber que tinha origem cristã e católica.

PS4 – Quanto ao resto, nenhum constrangimento, aborrecimento ou ressentimento. Sou o único jornalista, no mundo inteiro, que escreveu por mais de 50 anos, coluna e artigo diários. Comecei muito cedo e vivi demais. Nesse tipo de comunicação, chamada de rede social, em que tanto desprezam o sobrenome, preferem pseudônimo, por que haveria preocupação?

PS5 – Escrevam. Se satisfaçam. Defendam supostas ou verdadeiras convicções. Não parem por motivo algum. Não fico contrariado, atingido ou intimidado. Se eu ficar num deserto de homens e ideias, aí sim, não sei o que fazer.

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