O ocaso de um grande partido

Carlos Chagas                                                         

Dissidentes do PMDB reuniram-se segunda-feira com o vice-presidente Michel Temer, que por sua vez, ontem,  ofereceu jantar à presidente Dilma Rousseff, na presença da cúpula do partido. Boas perspectivas de afirmação? Nem pensar. O PMDB, hoje, é uma bomba-relógio prestes a explodir, porque detonada já foi. Só falta a faísca chegar à dinamite.

No fundo, a velha história: um grupo pretende manter privilégios e benesses conquistadas, ainda que se imagine credor  de muito mais, junto ao governo. Outro grupo exige moralidade,  mas ainda precisa provar se age assim por ideal ou  apenas porque ficou de fora no usufruto do poder.                                                       

Outrora aríete responsável pela queda da ditadura, o PMDB anda em frangalhos. Seus principais  mentores são José Sarney, Romero Jucá, Henrique Eduardo Alves e agora Eliseu Padilha, sob a batuta hesitante de Michel Temer.  Antes, mesmo formando uma federação de doutrinas conflitantes, dispunha de um objetivo: restabelecer a democracia no país.  Hoje, busca apenas aproveitar-se das vantagens do exercício da coisa pública.                                                        

Claro que há exceções, expressas na figura maior do senador Pedro Simon e verificadas na ação pouco ortodoxa de Roberto Requião, Jarbas Vasconcelos e Luiz Henrique. Fica evidente, porém, estarem eles remando contra a maré, opondo-se ao sentimento fisiológico majoritário nas bancadas e demais representações do partido.                                                        

A conclusão só pode ser uma. Primeiro temido, depois respeitado, em seguida tolerado e agora desprezado, o PMDB marcha para o seu ocaso.  Não sobreviverá a mais uma eleição como grande partido. Em 2014 ou no máximo 2018 terá se transformado numa dessas legendas que não se sabe bem se merecedoras do rótulo de “históricas” ou “de aluguel”.  Foi-se o legado do dr. Ulysses, de Tancredo, Teotonio, Thales e daquele bando de potrinhos indóceis hoje tornados cavalos velhos e cansados.

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QUANTO TEMPO AINDA?                                                        

 Trata-se de uma questão de  tempo, apenas.  Pode durar  dias, semanas, mas meses,  jamais. Fala-se da demissão dos ministros Mário Negromonte, das Cidades, e Pedro Novais, do Turismo.   Menos porque nada realizaram,  mais por estarem  envolvidos até o pescoço em denúncias de irregularidades e corrupção. Vem  sendo abandonados até pelos respectivos partidos, o PP e o PMDB. Da presidente Dilma receberam  distância. De seus correligionários, primeiro  pedidos de sinecuras e agora críticas.  Colhem o que plantaram… 

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NÃO PODIAM FALTAR                                                        

Recrudesce o MST. Estariam seus líderes desta  vez prestes a apresentar um programa atualizado de reforma agrária para oferecer ao Congresso ou ao palácio do Planalto? Nada disso.  De novo, promovem a  invasão  de terras produtivas e ocupam prédios urbanos do governo. Fornecem os mesmos argumentos de sempre para o latifúndio travestir-se de vítima.  Parece falta de imaginação, dado o vultoso número de episódios encenados nessa novela interminável de incapacidade  explícita. 

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PROBIDADE E  CAPACIDADE                                                        

Em suas entrevistas depois de eleita, a presidente Dilma Rousseff  enfatizou exigir   duas qualidades daqueles que viessem a  integrar o seu ministério: probidade e  capacidade. Nem   haverá que falar  da equipe escolhida em janeiro, valendo ficar nos ministros recém recrutados para substituir os defenestrados.                                                       

Gleisi Hoffmann vinha tendo elogiável performance no Senado, mas na chefia da Casa Civil, ainda não disse a que veio. Terá  capacidade para gerir as estruturas do governo, como tinha o súbito novo milionário Antônio Palocci?  Compor programas e dirimir conflitos entre os ministros não vem sendo fácil.  Monitorar iniciativas e seguir as determinações da presidente, também.  A conferir.                                                       

Ideli Salvatti, na Coordenação Política, pelo seu temperamento e o seu passado de polêmica senadora não parece propriamente a figura ideal para polir arestas nos partidos da base oficial e contentar pedidos e exigências. Luiz Sérgio também não era, apesar de modelos tão diferentes. O estopim da ministra  é curto e qualquer dia o barril explode.                                                        

Paulo Passos, nos Transportes, parece peixe no aquário. Entende tudo do setor que monitora e dirige faz tempo, blindado por férrea aura de honestidade.  Mas anda em  campo minado e enfrenta armadilhas variadas deixadas por seu antecessor, Alfredo Nascimento e o grupo catapultado do ministério.                                                        

Celso Amorim, na Defesa, antes no Itamaraty, domina as questões  internacionais  mais do que Nelson Jobim, mas estará preparado para acoplar-se ao pensamento castrense a respeito delas?  As divergências entre a política externa e a estratégia militar vem dos oito anos do governo Lula e, pelo  jeito, não desaparecerão por conta da presença do  novo ministro. Muito pelo cointrário.                                                       

Finalmente,  Mendes Ribeiro, da Agricultura, empossado ontem. Vida ilibada, sem patrimônio adquirido nos mandatos exercidos em nome do Rio Grande do Sul, mas sem condições de distinguir um melão de uma melancia. Não que Wagner Rossi distinguisse.

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