O outro general Dutra

Sebastião Nery

O nome dele era general Dutra. Reformado, simpático, inteligente, irônico, morava em Fortaleza. Cunhado do saudoso deputado cassado Clidenor de Freitas, foi a Teresina visitar a irmã.

Psiquiatra revolucionário, Clidenor era o fundador, proprietário e guia espiritual do Sanatório Meduna, o primeiro hospício livre do Brasil, em cujos domínios ele vivia, numa ampla casa toda branca, rica biblioteca e uma sala de jantar com uma longa mesa de jacarandá desenhada por Oscar Niemeyer.

Cercado de garbosas mangueiras, flaboyants majestosos, uma grande onça de verdade e na entrada uma estátua de Dom Quixote, seu herói, Clidenor nos hospedava ali, a seus amigos, entre filhos, livros, Mozart e vinhos.

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COM DE GAULLE

O general Dutra estava no centro da cidade, em mangas de camisa, um calor marroquino, resolveu passar no Palácio Karnack e visitar o governador Alberto Silva. Na entrada, um guarda, só um guarda.

– Boa tarde. Sou amigo do governador Alberto Silva, quero falar com ele.

– Quem é o senhor?

– General Dutra.

O guarda olhou-o de cima a baixo, desconfiado:

– De onde o senhor é?

– De Fortaleza. Estou aqui a passeio.

– Onde o senhor está hospedado?

– No Sanatório Meduna.

O guarda não teve dúvida:

– Muito bem. No Meduna, não é? Mas o governador pode não estar. Se ele não estiver, o senhor poderia falar com o general De Gaulle?

O general Dutra ficou uma fera, empurrou o guarda, entrou no peito.

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EDUARDO DUTRA

Sergipe também tem seu general Dutra. Dutra no nome, general na pose. José Eduardo Dutra era presidente da Petrobras em 2003/2004, agia como um prepotente general de 64. Não dava bom dia ao porteiro nem boa noite ao motorista.

Mas isso era problema dele. Cada um é como quer. Ninguém tem nada com isso. O que todos temos é com a maneira como ele presidia a Petrobras, o segundo nome de Brasil, empresa símbolo da alma e da soberania nacional.

Em 2004, amigos e velhos companheiros da Petrobras, líderes sindicais na Bahia, Sergipe e Nordeste, inclusive do PT, me contaram em Salvador coisas que assustavam, porque de repente poderiam até ser usadas pelos eternos e inconformados inimigos da Petrobras, internos e externos.

O “general” Dutra só pensava numa coisa: eleger-se senador em 2006 (já que o candidato do PT a governador seria o prefeito de Aracaju, Marcelo Deda). E para isso o Dutra de Sergipe faz da Petrobras um escritório eleitoral.

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TRIANGULAÇÃO

Já em plena campanha, o “general” Dutra inventou uma maneira de driblar a lei e os regulamentos da Petrobras para dar dinheiro às duas únicas prefeituras dirigidas por prefeitos do PT: Aracaju e Japaratuba.

Para fugir à exigência legal de fazer licitações em toda obra pública, arranjou uma triangulação com uma ONG baiana, a “Colméia”, que recebe o dinheiro, fica responsável pelas obras e repassa para duas empreiteiras também baianas, a Atenco e a Ceman, sem nenhum controle.

O deputado Gilmar Carvalho, do PV, e o vereador Marcelo Bomfim, do PDT, reagiram, denunciaram, mas o “general” Dutra não voltou atrás e continuou com a ilegalidade, como se a Petrobras fosse dele e não da Nação.

Não adiantou nada. Sua candidatura a senador naufragou e ele hoje é diretor corporativo da Petrobras, onde exerce sua principal especialidade – não fazer nada.

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