O Papa é a História

Sebastião Nery

Voltaire (1694-1778) era ateu e anticlerical: “O papa é um ídolo a quem se atam as mãos e se beijam os pés”.

Bernard Shaw (1856-1950) também era ateu e anticlerical: “Por que aceitar conselhos sobre sexo vindos do papa? E isto admitindo-se que ele entenda alguma coisa do assunto – o que não deveria”.

Stalin era pior. Era ateu, anticlerical e antipapal:

– Quantas divisões o papa tem? – perguntou Stalin a Pierre Laval, primeiro-ministro da França a partir de 1942, que colaborou com os nazistas invasores e foi condenado à morte e executado depois da guerra.

Stalin tinha suas divisões. O papa tem uma coisa mais poderosa: a história, a cultura, a civilização ocidental. A Igreja é filha de Roma, como Roma foi filha da Grécia.

Em abril de 2005, aqueles milhões ali marchando lentamente, horas e horas a fio, para verem um homem morto, não estavam ali por causa do homem morto, mas por saberem, ou intuírem, que ele não era ele, João Paulo II era a história.

Quem estava ali deitado era mais um capítulo, o mais importante do fim e começo do século, da civilização ocidental, com todas as suas contradições e conflitos. Em dois mil anos, nenhuma instituição mais perene e duradoura.

O Vaticano é o Papa. E o Papa não é o Papa. O Papa é a História. Somos nós.

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CLEMENTINO

Por isso, cada Papa é outro Papa. Porque a história é sempre uma nova História. Lembrem a incrível coincidência de o papa morto ser velado na Sala Clementina, com a grande placa dourada, sobre a cabeça dele, de Clemente VIII, papa entre 1592 e 1605, depois da Idade Média, começo dos Tempos Modernos, um dos mais importantes da história da Igreja Católica Apostólica Romana.

Em apenas 13 anos, estruturou e publicou a Vulgata (a Bíblia), criou a Propaganda (desde o nome), a Congregatio de Propaganda Fide, Congregação para a Propaganda da Fé, fez o Index (proibindo todos os livros dos inimigos da Igreja), queimou vivo o dissidente Giordano Bruno, o Leonardo Boff da época.

Como João Paulo II, Clemente VIII foi um papa da História, com todos os pecados e pesadelos de seu tempo.

Proibiu e excomungou as touradas e os toureiros, legalizou o cafezinho, que em Roma era vetado como uma bebida otomana, muçulmana, anticristã (provou, gostou, liberou), mandou cortar a cabeça de Beatrice Cenci, aquela dos poetas e das tragédias, que se juntou à madrasta, ao irmão e ao amante e matou o pai, déspota que o povo em Roma odiava.

Por isso a apoiou, mas o papa a degolou em 11 de setembro de 1599, história imortalizada por Stendhal e no quadro clássico de Caravaggio. O Papa é a História.

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