O papa mostra que o poder é sempre uma máscara de teatro

Leonardo Boff

As ideias podem iluminar as pessoas, mas são os exemplos que atraem e nos põem em marcha. Muitas explicações mais confundem que esclarecem. As práticas falam por si.

Um homem simples

O que tem marcado o novo papa Francisco, aquele “que vem do fim do mundo”, são gestos simples, populares, óbvios para quem dá valor ao bom senso comum da vida. Ele está quebrando os protocolos e mostrando que o poder é sempre uma máscara e um teatro, mesmo em se tratando de um poder pretensamente de origem divina.

O papa Francisco simplesmente obedece ao mandato de Jesus, que, explicitamente, disse que os grandes deste mundo mandam e dominam: “convosco não deve ser assim; se alguém quiser ser grande, seja servidor; quem quiser ser o primeiro, seja servo de todos; pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10-43-45).

Se Jesus disse isso, como pode o papa agir diferentemente? Na verdade, com a constituição da monarquia absolutista dos papas, especialmente a partir do segundo milênio, a instituição eclesiástica herdou os símbolos do poder imperial romano e da nobreza feudal: roupas vistosas, ouropéis, cruzes e anéis de ouro e prata e hábitos palacianos.

Como estudante, no quarto em que me hospedava no convento franciscano de Munique, que remonta ao tempo de Guilherme Ockham (século XIV), só um quadro renascentista na parede valia alguns milhares de euros. Como combinar a pobreza do Nazareno aos báculos dourados e às estolas e às vestes principescas dos atuais prelados? Honestamente, não dá. E o povo nota essa contradição. Tal aparato nada tem a ver com a tradição de Jesus e dos apóstolos.

O CARNAVAL ACABOU…

Segundo alguns jornais, quando o secretário do conclave quis colocar sobre os ombros do papa Francisco a mozetta, aquela capinha, ricamente adornada, símbolo do poder papal, ele simplesmente disse: “O Carnaval acabou; guarde essa roupa”. E apareceu com sua veste branca.

Para mim, o gesto mais simples, honesto e popular do papa Francisco foi o de ir ao hotelzinho onde se hospedara para pagar suas contas. Entrou e pegou ele mesmo suas roupas, cumprimentou os funcionários e foi embora. Que potentado civil, que opulento milionário, que famoso artista faria tal coisa? Mas ele não fazia a mesma coisa quando era cardeal em Buenos Aires?

Frei Betto cunhou uma expressão de grande verdade: “A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam”. Efetivamente, se alguém sempre pisa em palácios e suntuosas catedrais, acaba pensando na lógica dos palácios e das catedrais. Por essa razão, no domingo, o papa celebrou missa na capelinha de santa Ana e, depois, foi conversar com os fiéis à porta.

Coisa notável e carregada de conteúdo teológico: não se apresentou como papa, mas como “bispo de Roma”. Pediu orações não para o papa emérito Bento XVI, mas para o bispo emérito de Roma, Joseph Ratzinger. Com isso, ele retomou a mais primordial tradição da Igreja, a de considerar o bispo de Roma “o primeiro entre os pares”.

VIVER A SIMPLICIDADE

Pelo fato de na cidade estarem sepultados Pedro e Paulo, ganhava especial proeminência, mas esse poder simbólico e espiritual era exercido no estilo da caridade, e não na forma do poder jurídico sobre as demais igrejas, como predominou no segundo milênio.

Não me admiraria absolutamente se resolvesse abandonar o Vaticano e fosse morar num lugar simples, com amplo espaço exterior para receber a visita dos fiéis. Os tempos estão maduros para esse tipo de revolução nos costumes papais. E que desafio está representando para os demais prelados da Igreja: viver a simplicidade voluntária e a sobriedade condividida.

(transcrito de O Tempo)

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *