O partido que virou suco

Carlos Chagas

Raras vezes as oposições tem perdido tempo, espaço e oportunidades para exercer sua função e cumprir sua obrigação. O PSDB parece ter virado suco, tantas e tamanhas tem sido suas vacilações,  divisões e inação. O Alto Tucanato paulista não se entende, a  não ser para rejeitar qualquer diálogo com as demais seções do partido, em especial a mineira.  A vaidade de Fernando Henrique, o provincianismo de Geraldo Alckmin e a presunção de José Serra deixam o futuro a milhas de distância da paulicéia, que, a depender deles, faz mesmo jus ao título de desvairada. Uma única voz  de bom senso deixou de ser ouvida em São Paulo, refugiando-se em Brasília. Pertence ao senador Aloysio Nunes Ferreira.                                              

A próxima sucessão presidencial não parece assim tão longe, mas os tucanos estão arregimentados para perdê-la, caso não se organizem logo em torno de Aécio Neves, candidato natural. O ex-governador está  conciente de que sem  os paulistas unidos, nem  valerá à pena concorrer. Melhor retornar ao governo de Minas.                                              

Que proveito tirou o PSDB do festival de corrupção que assola o país? Nenhum, quando seria fácil mobilizar  a atenção nacional em torno do fato de que todos os escândalos denunciados e por denunciar devem–se ao PT, PMDB e penduricalhos da base de apoio do governo Dilma. Mais ainda: amedrontados pela presença  do Lula, os tucanos nem pensam em começar a demolição da popularidade dele através da acusação de que tudo se ampliou a partir dos  oito anos de governo dos companheiros.                                               

Falta um plano,  um projeto de Brasil a ser apresentado como alternativa e base para a tentativa de volta ao poder. Só que  a presunção, o provincianismo e a vaidade não permitem sequer que seus principais líderes  reunam-se para esboçá-lo. Desconfiados uns dos outros, só aceitariam se os demais endossassem sua supremacia.                                               

O resultado aí está: uma legenda em frangalhos, deixando passar a oportunidade de firmar-se como oposição. 

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SE A PARCERIA MUDAR                                               

Os planos do PMDB, a longo prazo, são pela continuação da parceria com o PT, em termos de sucessão presidencial. Traduzindo: venha a presidente Dilma disputar um segundo mandato, em 2014, ou prevaleça a tese do retorno do Lula ao palácio do Planalto, naquele ano, a estratégia do partido é de continuar  ocupando a vice-presidência da República. Pela lógica, com Michel Temer.                                               

Como em política não custa analisar todas as hipóteses, imagine-se uma definição do Lula ou de Dilma em favor do Partido Socialista, melhor dizendo, do governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Nesse caso, o PMDB ficaria livre para seguir o rumo que muitos de seus integrantes  defendem faz tempo: lançar candidato próprio.  Nomes não faltariam, de Michel Temer a Roberto Requião, Sergio Cabral ou Roseana Sarney. 

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TEMPO PERDIDO                                                

Começou como um rumor, firmou-se como uma evidência. Fala-se da reforma ministerial que a presidente Dilma promoverá no final do ano, aparando arestas  recebidas  sem poder reagir, quando de sua posse.  Caso a intenção de mudar o supérfluo pelo competente, a chefe do governbo comporá o seu ministério. Claro que privilegiando os partidos de sua base, mas selecionando em seus quadros indicações acordes com os setores a corrigir. Livrando-se, também, de certas heranças deixadas pelo Lula.                                              

Seria maldade ficar pinçando que ministérios encontram-se em desacordo com as exigências de probidade e competência pretendidas pela  presidente, até porque estão à vista de todos os ministros desalinhados. Mas é promissor saber que até o vice-presidente Michel Temer conta com a reforma e se dispõe a colaborar.                                              

Uma reflexão, porém, não pode deixar de ser feita: por que esperar o fim do ano? Se o  motor anda falhando, melhor levar o veículo imediatamente à oficina. Para que perder tempo?

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DESFAÇATEZ                                               

Não dá para calar, mesmo remando contra maré midiática e financeira, mas que diabos tem a OTAN, tratado de  defesa do Atlântico Norte, a ver com a Líbia, na África? Por que intrometer-se  na luta contra um ditador sanguinário,  sem fazer caso de outras ditaduras até piores e mais antigas, como da Arábia Saudita? Jogar  mísseis e bombas em profusão, matando inocentes aos montes num dos lados em litígio, certamente fornecendo armas para  o outro, qual a  justificativa?                                              

Até um aluno de curso primário responderia que a causa é o petróleo, apesar de Kadaffi vir há muitos anos abastecendo a Europa e os Estados Unidos. Só que agora não será mais o governo da Líbia a gerir a exploração e a  distribuição do petrõleo, mas as empresas americanas, italianas, inglesas e outras. Algo parecido com o acontecido  no Iraque, depois de invadido pela  “Coalizão” de um parceiro imenso cercado de alguns penduricalhos.                                               

Os tais democratas que tomam conta da Líbia  andam executando prisioneiros de mãos amarradas  nas costas e sacos plásticos na cabeça. Singular prenúncio de outra ditadura. Só que agora a favor…

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