O pastor evangélico que era amigo de Freud

Antonio Rocha

Em 1962, em Londres, Anna Freud, filha do criador da Psicanálise, afirmava sobre o pastor Pfister:

“No ambiente dos Freud, alheio a toda vida religiosa, Pfister, com seus trajes, aparência e atitude de pastor, era uma aparição de um mundo estranho. No seu modo de ser não havia nada da atitude científica quase apaixonada e impaciente, com a qual outros pioneiros da análise encaravam o tempo passado à mesa com a nossa família – como uma interrupção das suas discussões teóricas e clínicas.

“Pelo contrário, seu calor humano e entusiasmo, sua viva participação também nos fatos mínimos do cotidiano entusiasmavam as crianças da casa e faziam dele um hóspede bem-vindo em qualquer tempo. Para elas, Pfister era, segundo um dito de Freud, não um santo homem, mas um tipo de flautista de Hamelin que só precisava tocar seu instrumento para ter um bando inteiro obediente atrás de si”.

Os dois parágrafos acima estão no livro “Cartas entre Freud & Pfister – Um Diálogo entre a Psicanálise e a Fé Cristã”, publicado pela editora evangélica, Ultimato, Viçosa, MG, 200 páginas, 2009.

O pastor protestante Oskar Pfister, doutor em filosofia e teologia, nasceu em Zurique. E como educador foi pioneiro em interligar psicanálise e pedagogia.  Veja as palavras do próprio Freud ao amigo, em 04/10/1909: “Uma carta sua faz parte do mais belo que pode recepcionar a gente no regresso para casa”.

E, em 30/12/1923, Pfister escreveu: “Se me perguntassem sobre o lugar mais aprazível da terra, eu responderia: informem-se na casa do professor Freud !”.

Claro, nem sempre os dois se entendiam: Pfister, religioso; Freud ateu, mas nasceu daí uma grande amizade. E o livro cobre 30 anos de cartas, de 1909 a 1939.

Uma leitura saborosíssima.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGQue lição de vida! Duas pessoas tão diferentes – um religioso e um ateu – podem ter uma amizade desse nível. É esta tolerância e esta compreensão que eu tento injetar no Blog, sem ter obtido sucesso. Mas sonhar ainda não é proibido, não é mesmo? (C.N.)

8 thoughts on “O pastor evangélico que era amigo de Freud

  1. Obrigado Carlos Newton, uma das coisas que me chama atenção nesta amizade é que, se perguntassem ao pastor “qual o lugar mais aprazível da Terra”, ele não escreveu, uma Igreja, mas a casa do amigo ateu. Vamos continuar sonhando por um blog harmonioso.

  2. Com o passar do tempo e a evolução da sociedade, era de se esperar que a tolerância aumentasse entre os diferentes, mas o que a gente vê é o oposto. Esse tipo de amizade permanece insólita mesmo nos dias de hoje.

  3. Eu pergunto, Carlos, esse pastor por acaso fazia proselitismo da sua religião? Enchia o saco de Freud dizendo que se ele iria queimar no inferno se não se convertesse?

    Ora, meu caro, há uma grande diferença entre religiosos e fanáticos, e os que eu tenho visto por aqui pertencem ao segundo grupo.

  4. Concordo com Froes. E reforço minha opinião, não dá para querer amizade e tolerância quando do outro lado só estão atrapalhando tua vida, tirando teu dinheiro, estragando o lugar em que tu vive, para ficar em palavras amenas. O contrário é como a fala da Dilma pedindo para negociar com o EI.

  5. Estimado sr. Carlos Newton, modestamente, louvo sua intenção de “injetar” no blog tolerância e compreensão. Mas, francamente, publicar excrescências como “genésioboff”, “vicentelimongi” et caterva dá nos nervos de qualquer bem intencionado, razão pela qual uns e outros acabam perdendo as estribeiras, tudo na melhor das intenções, pelo menos em meu insignificante entendimento.

  6. Esse pequeno trecho de uma carta entre dois amigos de grande diferença, não me surpreende, já que sendo um cristão, que tem como obrigação amar ao próximo, só demostra que todos podemos de ter visões diferentes da mesma coisa, ainda que tão próximas.
    Sei que a doutrina evangélica predomina o amor ao próximo , ainda que muitos seguimentos tentam demoniza-los, rotulando-os como intolerantes coisa essa que não se justifica .

  7. Uma outra história bacana de amizade entre pessoas que tinham posições políticas totalmente divergentes foi a que havia entre o pai do humorista Agildo Ribeiro, Agildo Barata Ribeiro, oficial do Exército Brasileiro, e o general Ernesto Geisel. Agildo Barata Ribeiro foi o comandante militar da Intentona Comunista ocorrida em 27 de novembro de 1935, no 3º Regimento de Infantaria, onde hoje é a Escola Superior de Guerra, na Praia Vermelha. Apesar das diferenças ideológicas, os dois sempre foram amigos e, quando Agildo Barata Ribeiro faleceu, creio que em 1968, Geisel que, na época era Ministro do Superior Tribunal Militar, compareceu ao seu velório e seu enterro. Geisel foi Chefe da Casa Militar de Castelo Branco entre 64 e 67.

    https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/biografias/agildo_barata

  8. A amizade entre os dois protagonistas, um ateu e o outro religioso, não estaria na tolerância, me perdoem, mas na inteligência de cada um!
    Saber discernir, conviver com as diferenças, colocar a amizade, o respeito, acima de questões secundárias, refletem que havia mentes equilibradas, avançadas, que sabiam de antemão que o ser humano é a razão, e não a discussão; que deve ser compreendido e não repelido.
    No blog, onde acontecem discussões inexplicáveis, a questão que mais salta aos olhos é a falta de educação, sinônimo de estupidez, burrice, inteligência precária ou nenhuma!
    O resto, inclusive a intolerância, é mera consequência.

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