O patriarca da Bahia


Sebastião Nery

Vejam que magnífica, rocambolesca história. Uma perfeita minissérie de TV, como a JK da Maria Adelaide ou a Amazônia da Gloria Peres. Razão tinha o inglês Carlyle quando dizia que “a História do mundo é a biografia dos grandes homens”. Ou o sábio Fernando Pessoa: “O homem e a hora são um só, quando Deus faz e a História é feita”.

Um jovem português, Diogo Álvares, aventureiro ou prisioneiro, de uns 16, 17 anos, nascido em Viana do Castelo, Norte de Portugal, segundo outros na Galicia, que na época era meio Portugal meio Espanha, vinha em um barco pirata, português ou francês, mais provavelmente francês, que naufragou ali no Rio Vermelho, na praia da Mariquita, entre 1509 e 1510. Dez anos depois de Cabral. Caramuru foi o primeiro baiano. Não por acaso a Enciclopédia Britânica o chama de “Patriarca da Bahia”. E certamente, tirando os índios, o primeiro brasileiro.

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RAMALHO

O “temível” vendedor de índios escravizados, João Ramalho, casado com a índia Bartira, também português e também náufrago como Caramuru, apareceu na mesma época, um pouco depois, entre 1510 e 1512, lá por São Vicente, afinal fundada em 1532 por Martim Afonso de Sousa.

Depois João Ramalho criou a vila de Santo André em 1545 e ajudou o jesuíta Manoel da Nóbrega a fundar São Paulo em 25 de janeiro de 1554.

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CARAMURU

Já como bom baiano, Caramuru passou a conversa nos índios Tupinambás, que mataram e certamente comeram os 8 tripulantes, seus companheiros. Só ele sobrou. Por quê? Teria matado uma ave voando e logo foi chamado de Caramuru: “Homem do fogo, filho do trovão, branco molhado, dragão do mar”.

Mas Caramuru era também o nome indígena da lampréia, da moréia, um peixe esguio, comprido, da região. E Caramuru era muito alto e muito branco, e sobretudo muito magro, esquelético.

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PARAGUAÇU

A lenda poética fala da disputa olímpica das irmãs Moema e Paraguaçu, lançando-se ao mar para ver quem chegava primeiro perto dele.

O chefe Taparica, cacique do nosso João Ubaldo, lhe deu a filha Paraguaçu, que significava “o grande mar”, com quem se casou e, também como nas boas histórias, foram felizes para sempre.

Viveram muito. Tiveram tantos filhos que Gregório de Matos chamou Caramuru de “Adão de Massapê”. E como ninguém é de ferro, em 1528 Caramuru foi à França e lá batizou Paraguaçu como Catarina.

Caramuru morreu em Salvador em 1557, com mais de 70 anos, sepultado no colégio dos Jesuítas. Catarina viveu muito mais. Morreu também em Salvador, em 1583, com mais de 90. Mas Caramuru não fez apenas amor e filhos. Ajudou a fundar Salvador, a Bahia e o Brasil.

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BA, SP, RIO

De 1549, fundação de Salvador por Tomé de Sousa, que governou a colônia 4 anos, passando por Duarte da Costa, que também governou 4 anos (de 53 a 56), a Manuel da Nóbrega fundando São Paulo em 1554 e Estácio de Sá, com o tio Mem de Sá, fundando o Rio em 65, foram 15 anos.

Foi um dos mais tumultuados e ricos tempos da história do Brasil. E com uma surpreendente documentação, graças às cartas. Escrevia-se muito e faziam-se filhos. Por cartas, prestava-se conta de tudo, sobretudo das intrigas, ao rei e aos superiores em Portugal. A burocracia era escrevente. Isso permitiu que Portugal tenha uma obra monumental como a “História da Colonização Portuguesa no Brasil”, e milhares de cartas conservadas, arquivadas, publicadas, na Torre do Tombo, em Lisboa.

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LIVROS

Sobre a construção de Salvador, o governo de Tomé de Sousa, os jesuítas e a Igreja no Brasil, temos alguns livros brasileiros clássicos: – História da Fundação da Cidade do Salvador, de Teodoro Sampaio. – A Cidade do Salvador – 1549, de Edison Carneiro. – História da Fundação da Bahia, de Pedro Calmon. – História da Companhia de Jesus no Brasil, do Padre Serafim Leite. – A Primeira Capital do Brasil, de Alberto Silva.

E os dois livros de Eduardo Bueno, hoje indispensáveis: “Náufragos, Traficantes e Degredados” e “A Coroa, a Cruz e a Espada”.

Bueno leu tudo e todos, numa pesquisa fantástica, ampla, completa, e revolucionou o jeito jornalístico e acadêmico de contar a história do País.

 

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