O pequenino afogado Aylan Kurdi nos faz chorar e pensar

Leonardo Boff
O Tempo

O pequenino sírio de 3 anos jaz afogado na praia, pálido e ainda com suas roupinhas de criança. De bruços e com o rosto voltado para o lado, como quem quisesse ainda respirar. As ondas tiveram piedade dele e o levaram à praia. Os peixes, sempre famintos, o pouparam porque também eles se compadeceram de sua inocência. Aylan Kurdi é seu nome. Sua mãe e seu irmãozinho também morreram. O pai não pôde segurá-los, e eles lhe escaparam das mãos, tragados pelas águas.

Querido Aylan: você fugia dos horrores da guerra na Síria, onde tropas do presidente Assad lutam contra soldados do cruel Estado Islâmico. Imagino que você tremia ao som dos aviões supersônicos que lançam bombas assassinas. Não dormia de medo de que sua casa voasse pelos ares em chamas.

Quantas vezes você não deve ter escutado de seus pais e vizinhos quão temíveis são os aviões não tripulados?! Eles caçam as pessoas pelas colinas desérticas e as matam. Talvez você nem imagina que quem pratica essa barbaridade e está por trás disso tudo é um soldado jovem, vivendo no Texas, num quartel militar. Nada sente, nada escuta, nem chega a ter pena. Lá, no outro lado, a milhares de quilômetros, são mortas subitamente 30 a 40 pessoas, crianças como você, pais e mães, pessoas que nada têm a ver com a guerra.

TERROR E PAVOR

Por causa do terror que vem pelo céu e pela terra, pelo pavor de serem mortos ou degolados, seus pais resolveram fugir. Levaram toda a família. Nem pensam em arranjar trabalho. Apenas não querem morrer ou ser mortos.

Você não pôde chegar a um lugar de paz, Aylan, mas agora, apesar de toda a tristeza que sentimos, sabemos que você, tão inocente, chegou a um paraíso onde pode, enfim, brincar, pular e correr por todos os lados, na companhia de um Deus que um dia foi também menino, de nome Jesus, e que, para não deixá-lo só, voltou a ser de novo menino. E veja que surpresa: lá estará também seu irmãozinho. E sua mãe vai poder abraçá-lo e beijá-lo, como fazia tantas vezes.

Você não morreu, meu querido Aylan. Foi viver e brincar em outro lugar muito melhor. O mundo não era digno de sua inocência.

UM MUNDO INDIGNO

Que mundo é este, que assusta e mata as crianças? Por que a maioria dos países não quer receber os refugiados do terror e da guerra? Não são eles nossos irmãos, habitando a mesma Casa Comum, a Terra? Esses refugiados não cobram nada. Apenas querem viver, poder ter um pouco de paz e não ver os filhos chorando de medo e saltando da cama pelos estrondos das bombas. Gente que quer ser recebida como gente, sem ameaçar ninguém. Apenas quer viver o seu jeito de venerar Deus e de se vestir como sempre se vestiu.

Não foram suficientes 2.000 anos de cristianismo para fazer os europeus minimamente humanos, solidários e hospitaleiros? Aylan, o pequeno sírio, morto na praia, é uma metáfora do que é a Europa de hoje: prostrada, sem vida, incapaz de chorar e de acolher vidas ameaçadas.

Querido Aylan, que a sua imagem estirada na praia nos suscite o pouco de humanidade que sempre resta em nós, uma réstia de solidariedade, uma lágrima de compaixão que não conseguimos reter em nossos olhos cansados de ver tanto sofrimento inútil. Ajude-nos, por favor, senão a chama divina que tremula dentro de nós pode se apagar.

De Leonardo Boff, um vovô de um país distante que já acolheu muitos de seu país, a Síria, e que se compadeceu com sua imagem na praia, que lhe fez escapar doloridas lágrimas de compaixão.

5 thoughts on “O pequenino afogado Aylan Kurdi nos faz chorar e pensar

  1. “…não cobram nada… ter um pouco de paz…sem ameaçar ninguém…”
    Não é bem assim não, eles trazem toda a bagagem de lutas, ódios e revanchismo. O que é natural, eles deixam seus pertences para trás mas não pode deixar sua história. O ódio entre curdos e turcos, por exemplo, atravessam as fronteiras junto com eles.
    Precisamos parar de tratar esse assunto de maneira simplista e encarar a realidade.
    O mundo nunca mais será o mesmo!

    https://youtu.be/W7dP5yVJtUA

  2. Uma das coisas mais tristes que assisti, ver aquela criança, onde o mar devolveu e o pai desesperado porque não conseguiu salvá-la, o mal que fazem as políticas autoritárias, sofre o mais fraco, o que os organismos internacionais fazem, o que as grandes potências fazem, deixam para o povo resolver tais problemas, só Deus para salvar o povo.

  3. Pai de Aylan acusado de mentir por passageiros. Era o capitão, dizem. O pai da criança que se tornou um símbolo dos refugiados é acusado de mentir por outros passageiros do barco que naufragou quando tentavam chegar à Grécia.
    (http://www.noticiasaominuto.com/mundo/450776/pai-de-aylan-acusado-de-mentir-por-passageiros-era-o-capitao-dizem)
    —————-
    Syrian toddler Aylan’s father drove capsized boat, other passengers say
    (http://www.reuters.com/article/2015/09/11/us-europe-migrants-turkey-iraq-idUSKCN0RB2BE20150911)

  4. Joma Bastos, não adianta. Eles só vêem e escrevem o que querem ver. Não dizem que o objetivo do pai era chegar ao Canadá, onde mora a irmã e que ele já estava há vários anos na Turquia, inclusive trabalhando. Também não dizem que foi um ato impensado dele, que pilotava o barco, que provocou o acidente, conforme relatado por sobreviventes. O único culpado pela morte do garoto é o próprio pai.

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