O perigo da bomba d’água

Sebastião Nery

Newton Coumbre, pernambucano audaz, passava em frente ao quartel de Obuses de Olinda, logo depois do golpe de 1964, levando uma bomba d’água enrolada em jornal. Dois sentinelas, fuzis em punho, avançaram sobre ele, aos tapas e pontapés, espancando-o:

– O que é isso?

– D’água.

Mandaram jogar o embrulho no chão e o levaram até o coronel:

– O que é que tem no embrulho?

– Uma bomba d’água, coronel.

– Por que não disse logo e ficou dizendo “d’água”?

– Coronel, eu dizendo só “d’água” eles já me bateram tanto, se dissesse “bomba”, “bomba d’água”, teriam me fuzilado.

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INVASÃO PELA LÍNGUA

Desde o princípio dos tempos foi assim. Os invasores sempre começam a invasão pela língua. Os gregos obrigaram os fenícios a falarem grego na Sicília (Palermo, Siracusa, Agrigento), em Nápoles, no Mediterrâneo.

A primeira coisa que o Império Romano fazia ao ocupar as províncias era impor o latim, até os extremos da Catalunha (Barcelona), da Romênia (Transilvânia, Constanza, que se chamava Tomus, à beira do Mar Negro, para onde o poeta Ovídio foi desterrado: “Ingrata pátria, ossa mea non videbis”, “Pátria ingrata, não verás meus ossos”. E não viu. Morreu lá).

A Inglaterra impôs o inglês na sua Ásia, na sua África. A França e a Bélgica, o francês no Senegal, no Congo, lá na África delas. E os soviéticos também forçaram, no leste da Europa, o russo, hoje quase banido, por ódio.

O que é a Internet? A invasão informática e linguística do Império Americano. Mas não se contentam com isso. Invadem os cérebros dos vassalos, a universidade, a televisão, as revistas, os jornais dos vassalos, na própria língua dos vassalos. E o pelotão de ocupação é comandado por economistas, jornalistas, consultores, os feitores da vassalagem.

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AJUSTE, SUPERÁVIT

A chamada “linguagem econômica”, o “economês”, é uma fraude imposta, programada, proposital, para a população não perceber a gula suja dos banqueiros patrões e a venalidade sórdida de economistas, jornalistas e consultores amestrados (royalties para Helio Fernandes).

Algumas expressões são repetidas à exaustão, como se estivessem inscritas na bandeira nacional, sagradas, intocáveis, proibidas de serem discutidas.

“Ajuste fiscal” parece uma coisa virtuosa e é apenas o governo não fazer nada, não investir em nada, para os bilhões cobrados numa criminosa carga tributária de 40% serem desviados para os banqueiros e seus servos.

“Superávit primário” dá a impressão de uma grande vitória, uma conquista sacrossanta. E é apenas assaltar o Orçamento, raspar as últimas verbas públicas, para aumentar ainda mais o imenso bolo dos juros dos banqueiros, além do que por lei já está destinado no próprio Orçamento.

Ainda bem que, de quando em vez, acontece alguma coisa que permite ao País enxergar ao menos uns pedaços da verdade por trás da canalhice. Lenin sabia que o povo aprende mais em um dia de ação do que em um ano de lição. Que assim seja.

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