O poderoso compadre de Lula

Sebastião Nery

Três coronéis, todos compadres, mandavam em Patos, na Paraíba: Miguel Sátiro, pai de Ernani Sátiro, que era o governador do Estado, Capitão Roldão Meira de Vasconcelos, que comandava a oposição, e João Olinto de Mello e Silva, pai de Drault Ernani, banqueiro, Bivar Olinto, deputado, e Adelgilson, empresário – os irmãos Mello e Silva.

Todas as manhãs, bem cedo, os três compadres se encontravam para um papo, para conversarem as coisas da cidade. Um dia, um filho do Capitão Roldão, o Manduquinha, engravidou a negra Sebastiana, menina levada que toda a cidade conhecia. Era só no que Patos falava. De manhã cedo, os três chegaram:

– Bom dia, compadre.

– Bom dia. O que é que há de novo?

– E há alguma coisa de novo? Que eu saiba, não. Os compadres sabem?

– Eu também não sei.

– Nem eu.

E os três, convenientes e astuciosos, saíram, cada um para sua casa.

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TARSO VENCESLAU

O governo de Lula foi um governo de compadres. Ninguém nunca sabe de nada: – “Que eu saiba, não há nada de novo. Eu também não sei. Nem eu”. E todos, a começar por Lula, sempre sabendo de tudo. Mas, entre os compadres, há um supercompadre, o poderoso compadre Roberto Teixeira.

E os escândalos ficaram tão naturais no governo de Lula, o governo dos compadres, que em janeiro de 2006 a imprensa publicou sem destaque o depoimento do economista Paulo de Tarso Venceslau, ex-secretário de Finanças da prefeitura de São José dos Campos, do PT, na CPI dos Bingos, como se fosse mais um escândalo.

Basta ler a íntegra da gravação da sessão para ver que é um documento gravíssimo, irrespondível, jamais contestado, o retrato de compadre inteiro, que é Lula e o governo do PT. A autoridade de quem falou é incontestável. Paulo de Tarso não é qualquer um. Guerrilheiro de verdade e não de butique, um dos braços direitos de Marighella, enfrentando a ditadura de armas na mão, preso, barbaramente torturado, fundador do PT e por todos respeitado.

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ROBERTO TEIXEIRA

1. – “Os dirigentes do PT em São Paulo sabiam, desde 1995, como funcionava o esquema de arrecadação para o Caixa 2 do PT. A empresa CPEM, ligada ao compadre de Lula, Roberto Teixeira, agia nas prefeituras administradas pelo partido. A CPEM era contratada sem licitação para fazer um trabalho com base em notas falsas, rasuradas. Em troca, cobrava comissão de 20%. Era apresentada como empresa amiga e que poderia ajudar nosso partido, como a Caravana da Cidadania, da campanha de Lula pelo País”.

2. – “Tentei levar a informação para dentro do partido, procurei todas as instâncias, mas não consegui ser ouvido. Registrei uma carta em cartório com a denúncia e mandei para Lula, então presidente do PT. Tirei uma cópia e entreguei na mão de Mercadante, Suplicy, Genoino, Chinaglia, Greenhalgh”.

3. – “O Mercadante ficou chocadíssimo, disse que era nitroglicerina pura, mas não fez nada. Genoino disse que sabia da denúncia, que era tudo verdade, mas não podia fazer nada. Chinaglia falou que já tinha ouvido falar do esquema paralelo. Frei Beto declarou: – Se o Lula souber que alguém está conversando com você, ele jura que a pessoa vai ser decapitada do partido”.

4. – “Ninguém teve coragem de ficar ao meu lado. Roberto Teixeira foi torturador do delegado Fleury e hoje é o primeiro compadre de Lula. Foi o primeiro convidado para a posse dele. Lula morou de graça na casa dele”.

Venceslau foi expulso do PT e o poderoso Teixeira continua a ser o primeiro compadre.

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