O poema de amor mais importante de Vinicius foi dedicado a nós, os brasileiros

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“Nunca lamente nada que tenha feito você sorrir”

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

O diplomata, advogado, jornalista, dramaturgo, compositor e poeta , Vinícius de Moraes (1913-1980), escreveu belíssimos poemas para as mulheres que tanto amou, mas o seu poema de amor mais importante foi “Pátria Minha” dedicado a todos nós, brasileiros. Seus versos transmitem a paixão de quem teve de deixar o país a trabalho e depois pela perseguição política que encerrou sua carreira de diplomata.

PÁTRIA MINHA
Vinícius de Moraes

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…”

4 thoughts on “O poema de amor mais importante de Vinicius foi dedicado a nós, os brasileiros

  1. “Chore, grite, ame. Ria descontroladamente.”
    Acho que fiquei muito maduro para aceitar a poesia sem passar pelo filtro da razão. Convenhamos, faz sentido chorar, gritar, amar e rir descontroladamente, como se fosse um louco?

  2. Stanislau Ponte Preta – o Sérgio Porto dizia que Vinicius de Moraes é plural. Se fosse um só, seria Vinicio de Moral. De fato, Vinicius foi diplomata, poeta, cronista, letrista de música, peças de teatro e muito mais. Teve parceiros musicais incriveis, como Toquinho, Tom, Chico Buarque, Carlos Lyra, João Gilberto. Cada letra de música incrivelmente belas, como Se todos fossem iguais a você, Chega de Saudade, Garota de Ipanema e fiquemos por aqui.
    Samba em prelúdio, no dizer de Baden Power, diz que Chopin esqueceu de compor, ai veio o Vinicius e fez.
    Pátria Minha, escrita em 1949, é profundamente, nostálgica. Seu oficio de diplomata o deixava afastado da Pátria e ele sentia saudades e se vale de figura de linguagem como a prosopopeia para expressá-la:
    “Vontade de beijar os olhos de minha pátria
    De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…”

    Acredito que acontece com todo brasileiro que por qualquer motivo se vê longe da pátria, mormente, quando chega a maturidade, sente uma grande nostalgia.
    Apesar do que estamos vivendo não podemos esquecer que o Brasil é a nossa Pátria. Há que ser forte.

  3. São muitas as poesias de Vinicius que adoro, mas destaço, por hoje, esta:

    Soneto da Separação
    Vinicius de Moraes

    De repente do riso fez-se o pranto
    Silencioso e branco como a bruma
    E das bocas unidas fez-se a espuma
    E das mãos espalmadas fez-se o espanto

    De repente da calma fez-se o vento
    Que dos olhos desfez a última chama
    E da paixão fez-se o pressentimento
    E do momento imóvel fez-se o drama

    De repente, não mais que de repente
    Fez-se de triste o que se fez amante
    E de sozinho o que se fez contente

    Fez-se do amigo próximo o distante
    Fez-se da vida uma aventura errante
    De repente, não mais que de repente

  4. Ainda sobre Pátria minha, uma curiosidade:

    Patria Minha foi escrito em 1949, com apenas 50 exemplares impressos artesanalmente naquele mesmo ano, na editora caseira e particular de João Cabral de Melo Neto, conhecida com o nome de O Livro Inconsúntil.
    O livro foi uma surpresa para Vinicius, com quem Cabral deixou todos os exemplares. Em uma carta escrita em outubro de 1949, o poeta-editor pernambucano diz em um p.s. para seu amigo carioca: “Não distribuí o livro a ninguém. Faça-o a vontade. E me mande um com dedicatória”

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