O poeta Abgar Renault, num dia de irremediável tristeza 

O professor, tradutor, ensaísta e poeta mineiro Abgar de Castro Araújo Renault (1901-1995), no poema “Balada da Irremediável Tristeza”, reconhece que não estava nada bem naquele dia.

BALADA DA IRREMEDIÁVEL TRISTEZA
Abgard Renault

Eu hoje estou inabitável…
Não sei por quê…
levantei com o pé esquerdo:
o meu primeiro cigarro amargou
como uma colherada de fel;
a tristeza de vários corações bem tristes
veio, sem quê, nem por quê,
encher meu coração vazio…vazio…

Eu hoje estou inabitável…
A vida está doendo…doendo…
A vida está toda atrapalhada…
estou sozinho numa estrada
fazendo a pé um raid impossível.

Ah! se eu pudesse me embebedar
e cambalear…cambalear…
cair, e acordar desta tristeza
que ninguém, ninguém sabe…

Todo mundo vai rir destes meus versos,
mas jurarei por Deus, se for preciso:
eu hoje estou inabitável…   

           (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

7 thoughts on “O poeta Abgar Renault, num dia de irremediável tristeza 

  1. 1) É, parece que o poeta Renault estava mal no dia em que escreveu estes versos, mas pode ser que não, pode ter feito a poesia pensando em outra pessoa, ou um Espírito, um ser de outra dimensão, podia estar triste, do lado dele, Abgar recebeu a influência e compôs o texto. Pode ser ainda uma poesia de gozação, veja: “hoje estou inabitável”.

    2) É que a Filosofia explica: coisa de sábios, rirmos de nossas carências, sofre-se menos.

    3) Licença: em 13 de junho de 1868, nasce em Paracuru, CE, o poeta e romancista Antônio Sales, autor entre outros de “Retrospecto dos Feitos da Padaria Espiritual (1894)”.

    4) Fonte: BN, Agenda, 1993.

  2. 1) Micro-Resenha ou microrresenha ?

    2) Com relação ao que citei no item primeiro do comentário anterior, há uma Teoria Espírita de que grande parte dos textos artísticos/literários/filosóficos/etc são frutos de uma psicografia ou quase. Ou seja, o escritor/o artista/o criador/o filósofo/o pesquisador… tem sempre a seu lado, seres de outras dimensões…

    3) A este respeito, permitam-me divulgar o recente livro “A Inspiração Espiritual na Criação Artística”, da professora, escritora e poetisa Cristina da Costa Pereira, já em 4ª edição.

    4) Publicado pela Instituição Lar de Frei Luiz, de Jacarepaguá, RJ.

    5) Este aprendiz de escriba que vos comenta, participa da mesma com alguns pitacos …

    6) Tema geral da obra: Mediunidade e Arte

    7) No mais, de minha parte, é só aprendizado.

  3. Poema lindo – melancólico e triste. Mas a verdade que há dias em que também estou inabitável, aliás, acho que todos temos um dia inabitável. Há dias, como diz o Chico Buarque “tem dias que a gente se sente/como quem partiu ou morreu….” Mas é uma tristeza passageira! Gostei Paulo Peres. Conheço e tive aula com uma pessoa da família do Abgar Renaut, aqui em BH.

  4. O Sobrevivente

    Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
    Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.
    O último trovador morreu em 1914.
    Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

    Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
    Se quer fumar um charuto aperte um botão.
    Paletós abotoam-se por eletricidade.
    Amor se faz pelo sem-fio.
    Não precisa estômago para digestão.

    Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
    muito para atingirmos um nível razoável de
    cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.

    Os homens não melhoram
    e matam-se como percevejos.
    Os percevejos heróicos renascem.
    Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
    E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

    (Desconfio que escrevi um poema.)

    Carlos Drummond de Andrade CORREIA, Marlene de Castro. Drummond: A Magia Lúcida. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2002.

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