O problema é essa memória fraca brasileira

Chico Maia
(O Tempo)

Com a triste informação de um morto nas manifestações em São Paulo, as TVs de Portugal iniciaram seus noticiários sobre o Brasil. Imagens de Ronaldo tentando explicar o inexplicável da bobagem que falou: “Para uma Copa, se constrói estádios e não hospitais”. Fenômeno de imbecilidade!

Gravações de brasileiros se posicionando via internet eram aproveitadas, inclusive a de um pai mostrando a filha na cadeira de rodas e dizendo ao Ronaldo que, se o país tivesse serviço público de saúde decente, ela não estaria naquela situação.

Pelé fala mais uma bobagem ao dizer que o que “importa é o amor à seleção” e que a seleção “é a pátria”, “que os protestos deveriam ser deixados de lado”. Montou palanque para Romário arrebentar com ele e fazer discurso político, oportunista como era dentro da área adversária.

Na campanha que a CBF e o então governo faziam para levar a Copa para o Brasil, Ricardo Teixeira (de péssima memória) e Lula diziam que teríamos uma organização 100% da iniciativa privada!

Pois bem: até transporte de graça para estrangeiros, várias prefeituras e governos estaduais estão dando. Não é possível que, depois de tudo, vão querer dar também na Copa 2014!

ABSURDO

Nunca, nenhum país que organizou um Mundial de futebol fez isso, nem ricos, como a Alemanha. No máximo, criaram facilidades e linhas especiais, que continuam servindo à sua própria população. Menos mal que justamente o transporte foi o estopim desse momento histórico.

OLHO NOS VOTOS

Os jornais portugueses informam que Dilma Roussef cancelou a viagem que faria ao Japão, e que há grande preocupação do governo com as eleições presidenciais que ocorrerão daqui a “seis meses”. Uai, os portugas anteciparam o pleito de 2014!

PARA NÃO ESQUECER

Frases marcantes estampadas em cartazes mostradas pelas TVs e capas de jornais em toda a Europa: “Se o seu filho passar mal, leve-o a um estádio”; “Se quiser uma escola melhor e acessível, leve-o ao estádio”; “Queremos estradas ‘Padrão Fifa”; “Queremos transportes públicos ‘Padrão Fifa”; “Queremos segurança ‘Padrão Fifa”.

Impressionantes as imagens que mostram o despreparo de um policial do Rio, que atirou nas costas de um manifestante que estava a um metro dele, correndo. Depois, meio desesperado porque outros manifestantes, revoltados, partiam pra cima dele, desandou a dar mais tiros. Não importa que sejam balas de borracha; machucam e, dependendo da distância e do lugar onde atingem, podem matar.

PARA REFLETIR

Igualmente impressionantes as cenas da Polícia Militar de São Paulo, que parou a repressão em determinado ponto da cidade e atendeu aos manifestantes, se sentando junto com todos. Também aquela imagem do policial da tropa de choque paulista que se recusou a usar a violência, teve a arma recolhida pelo superior e mandado “pra fora”!

São imagens que fizeram lembrar a queda do regime soviético e as consequências no mundo todo, com a queda do muro de Berlim e o fim de tantos regimes de força mundo afora. De repente, o futebol está prestando um grande serviço ao país, ao mostrar que a democracia exige que se reivindique direitos. Ainda que para isso seja preciso recorrer às ruas.

O que não pode é haver acomodação e achar que tudo ficou bom da noite para o dia. Jornais de Portugal estão dizendo que o “carismático” Lula ordenou que o PT vá para as ruas também e se una aos manifestantes.

Uai, mas é a turma dele que está no poder, e foi ele quem brigou por essa farra de Copa no Brasil, junto com Ricardo Teixeira.

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4 thoughts on “O problema é essa memória fraca brasileira

  1. Ronaldo e Pelé, a exemplo da maioria dos políticos brasileiros, desfruta do bom e do melhor em termos de saúde, transportes, segurança, educação, etc., tudo aquilo que a quase totalidade do nosso povo vive a mendigar. Ronaldo, de boca fechada, é outro poeta.

  2. Chico excelente artigo.Temos que exigir o fim do superavit primario e o controle direto da populacao sobre os orcamentos dos municipios estados e uniao.So desta maneira poderemos garantir que o orcamento seja aplicado aonde necessario.

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