O professor do PT

Sebastião Nery

SALVADOR – Ele subiu à tribuna da Câmara dos Deputados e disse: – “Passa-se à Historia de duas formas. Pela grandeza ou pela torpeza. O chefe da Junta Militar do Chile, Augusto Pinochet, preferiu parodiar Juvenal: Que importa a infâmia, quando fica assegurado o poder?”

A Câmara ouviu com atenção e medo. No dia seguinte, 15 de março de 74, o general Geisel ia tomar posse na presidência da Republica. Brasília estava cheia de convidados, inclusive chefes de governo de vários paises.
Um deles era o general Pinochet, ditador facínora do Chile.

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PINOCHET

O orador continuou :

– “E a quem Pinochet quer comprar agora, quando anuncia que, para aqui, traz a intenção de formar um Eixo Político Brasil-Bolivia-Chile-Paraguai? Eixo para quê? Para servir a quem? De Eixo, basta o Eixo de triste memória que a Historia registra, o Eixo formado pela Alemanha nazista, a Itália fascista e o Japão.

O que vem do Chile de Pinochet é o fechamento dos jornais, é a censura desvairada à imprensa que resta. O que nos vem do Chile é a opressão mais cruel, de que nos dão idéia a reportagem e fotos publicadas, pela revista “Visão”, no campo de concentração da Ilha Dawson”.

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FALCÃO

O deputado federal Francisco Pinto, do MDB da Bahia, desceu da tribuna debaixo de palmas de uns e pânico de outros. A Arena pressionou o presidente Flávio Marcilio para não deixar o discurso sair nos anais. Saiu.

Imediatamente o ministro da Justiça, Armando Falcão, telefonou ao presidente da Câmara comunicando que o Procurador Geral da Republica, Moreira Alves, ia denunciar o deputado no Supremo Tribunal.

O Supremo Tribunal, melífluo e obsequioso diante do poder, obedeceu ao governo e condenou o deputado a “seis meses de prisão fechada e suspensão de seus direitos políticos”. Chico Pinto anunciou que iria à tribuna despedir-se. Falcão ameaçou que, “se o deputado ocupasse a tribuna da Câmara, o Congresso seria fechado”.

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PAULO AFONSO

“Mesmo com os microfones desligados,Chico Pinto falou, obrigando a bancada do governo a retirar-se, enquanto Ulysses Guimarães protestava com veemência contra a punição e a decisão de negar-lhe a palavra”.
Esta historia está relembrada e documentada no depoimento com 50 anos de memórias do ex-secretario-geral da Câmara, o saudoso Paulo Affonso Martins de Oliveira, ditado ao jornalista Tarcisio Holanda: “O Congressoem Meio Século” (Ed. Plenarium).

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CITIBANK

Em 2005, 30 anos depois, o Senado norte-americano abriu processos contra Pinochet, a mulher Lucia e o filho Marco Antonio, “por corrupção e declaração falsa de bens”, porque descobriu que Pinochet, quando ditador, roubou US$ 28 milhões do Chile e mandou para os Estados Unidos.
O senador Carl Levin, republicano, apurou que Pinochet abriu 28 contas no Banco Rigss e mais 97 em outros, como no Banco Espírito Santo da Florida, e, sobretudo, no Citibank que, em 23 anos, abriu 63 contas piratas para Pinochet e a família. O Rigss confessou. O Citibank mentiu.

O Citibank foi o mais acusado pelo Senado americano, porque teve a audácia de dizer que “não sabia quem era a pessoa e desconhecia que Augusto Pinochet Ugarte era o mesmo Pinochet do Chile”. Pinochet mandou inicialmente para a Inglaterra os 28 milhões de dolares roubados. Quando foi preso em Londres, pelo juiz espanhol, Pinochet tirou o dinheiro de Londres e pôs nos Estados Unidos.

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CAIXA 2

Pinochet e o Citibank foram os grandes professores do PT, de todos os petistas caras de pau, que “nunca sabem de nada”. Além de o Citibank dizer que “não sabia que Pinochet era Pinochet”, o próprio Pinochet alegou ao Senado americano que os US$ 28 milhões não eram dinheiro público roubado, nem “comissão de negocios”, mas “caixa-2 com doações e empréstimos bancários para campanhas políticas” (tudo igual aqui).
Em 1973, quando deu o golpe no Chile, matou Allende e tomou o governo, Pinochet era um simples general, com 5 filhos, uma casa modesta em bairro de classe media de Santiago e um carro pequeno.

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LADRÃO

Vinte anos depois, quando deixou o governo, Pinochet tinha 11 imóveis em Santiago, 2 apartamentos em Viña Del Mar, um casarão em Santiago no bairro chic La Defesa, casa de praia no norte do pais, casa de campo nas montanhas e US$ 28 milhões nos EUA. Um escrachado ladrão.

E o solícito Supremo Tribunal do Brasil prendeu Francisco Pinto porque disse o que depois o Senado dos Estados Unidos confirmou. Que, alem de sanguinário, Pinochet também era corrupto.

Vamos fazer justiça a nossos generais-ditadores. Nenhum era ladrão.

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CHICO PINTO

Dia 19 de fevereiro vai fazer quatro anos que Chico Pinto morreu, aos 77 anos. Esta coluna, escrita aqui de nossa Salvador e nossa Bahia, é uma homenagem que mais uma vez deixo registrada a um dos mais bravos, valentes, destemidos e despojados políticos baianos do século passado.
Quando lancei, aqui Salvador, meu livro “A Nuvem, o Que Ficou do Que Passou”, onde muito falo dele, faltou alguém. Ele.

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