O protelador geral da República

Carlos Chagas

Depois de dois dias de apreciação dos embargos declaratórios dos condenados no julgamento  do  mensalão, no Supremo Tribunal Federal, a previsão é de que meses venham a decorrer até que os réus tomem o rumo da cadeia. Até agora, sete mensaleiros tiveram seus recursos indeferidos, depois de acirrados debates. Como são 25, haja tempo, já que as apreciações só se fazem às quartas e quintas-feiras. Mesmo admitindo-se a rejeição de todos, coisa que ninguém garante, virá depois a discussão sobre os embargos infringentes, referentes ao mérito das sentenças, que se admitidos significarão novo julgamento. Coisa para o ano que vem, se vencida  a interpretação do presidente Joaquim Barbosa, para quem esse artifício não existe mais, depois que a lei foi modificada.

De qualquer forma, arrasta-se o processo, para desgaste da mais alta corte nacional de justiça. No olho do furacão,melhor seria dizer, no âmago da pasmaceira, estão aqueles que pretendem ganhar tempo. Certos ministros do Supremo empenhados em prestar serviço ao  PT, indicados ou não pelo partido que sofrerá o diabo quando publicadas as fotografias de seus principais líderes postos atrás das grades.

Com todo o respeito, lidera esse grupo o ministro Ricardo Lewandowski, revisor do processo do mensalão, que durante meses procurou atrasar os trabalhos e livrar a cara dos réus. Antes, ele lutava para reduzir ou até  evitar a  condenação dos companheiros envolvidos na falcatrua, acusado até mesmo de advogado deles, pelo relator Joaquim Barbosa. Agora, derrotado na primeira fase, procura estender ao máximo as óbvias decisões que fulminaram os envolvidos num dos maiores, senão o maior dos escândalos  verificados na história da República. Mesmo nas decisões adotadas por unanimidade pelo plenário, rejeitando os embargos, Lewandowski pede a palavra e levanta objeções ao óbvio. Tem acólitos permanentes e eventuais, a serviço da protelação dos trabalhos.

Não dispondo o presidente Joaquim Barbosa da tranqüilidade necessária aos embates travados à sombra, Lewandowski foi chamado por  ele de prático das chicanas, algo que em tempos idos determinaria o desafio para um duelo a pistolas ou espadas. Mesmo assim, a situação continua.

O que pretende Lewandowski com sua permanente tentativa de obstruir os trabalhos dessa fase final do julgamento?  Certamente revidar as derrotas sofridas na primeira fase. Tirar revanche de sua derrota jurídica exposta ao país inteiro.  Ganhar o tempo necessário para a demonstração de que o Supremo Tribunal Federal não difere de outras de nossas instituições arcaicas e defasadas, de forma a deixar o Brasil na vala comum do submundo. Com todo o respeito, vale repetir. Sua tertúlia com Joaquim Barbosa excede os limites do bom senso.

Mas pretenderia algo mais, esse servidor do Direito?  Pode ser. Reduzir as penas de líderes como José Dirceu, José  Genoíno, Delúbio Soares, Waldemar da Costa Neto e outros significaria para ele uma demonstração de fidelidade aos detentores do poder que um dia o elevaram ao mais alto patamar do Judiciário? Ou estaria na batalha apenas para vingar-se do adversário?

Tanto faz. A verdade é que, mais uma vez com todo o respeito, o ministro Lewandowski dá mostras de defender o indefensável. De pretender conturbar um processo óbvio que a  nação inteira deseja ver encerrado o mais breve possível. O Direito não pode atropelar a natureza das coisas.

OPORTUNIDADE PERDIDA

O Congresso continua dando provas de incapacidade. Numa  audiência pública da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado e da Câmara, esta semana, o convidado era o brigadeiro Juniti Saito,comandante da Força Aérea Brasileira. Discutia-se o difícil problema de nossos defasados equipamentos militares, a começar pela compra dos  ridículos 36 aviões de caça de última geração, que se arrasta há oito anos. Foi quando a palavra foi dada ao senador Eduardo Suplicy, que a cada dia mais parece oriundo de um jardim da infância do que da universidade que um dia o diplomou.

O representante de São Paulo, em vez de indagar sobre as dificuldades para a aquisição de mais  potencial para a defesa da soberania nacional, perdeu-se em considerações sobre a guerra na Síria. Atrapalhou-se em considerações sobre a América do Sul. Perdeu excelente oportunidade de ficar calado. Só  que não há o que fazer…

 

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9 thoughts on “O protelador geral da República

  1. Penso que o grande jornalista Carlos Chagas está também, infelizmente, sendo contaminado pelo espírito inquisitorial da imprensa amestrada. É uma pena. Cabe lembrar que, no tocante ao julgamento do assim chamado “Mensalão”, alguns fatos indesejáveis ocorreram: houve uma única instância, algo no mínimo discutível, o que deve agora ser corrigido com a entrada dos novos Juízes (muito mais capacitados, como todo mundo sabe, do que a média dos atuais); esqueceu-se da inclusão de vários implicados, sobretudo do PSDB do estado do jornalista, que até agora, “misteriosamente”, continuam a salvo; no caso dos Diretores do Banco do Brasil implicados, a grande maioria dos que assinaram documentos considerados incriminadores NÃO FOI incluída no processo, apenas um; os outros foram arrolados num processo que corre em paralelo, que o Joaquim Barbosa determinou que fosse secreto (por que, se ele se diz a favor da justiça e da transparência? o que tem a esconder do povo brasileiro?). Pen que, se não mudaram os conceitos neste mundo confuso, a Justiça deve levantar TODOS os fatos pertinentes para chegar a uma conclusão. Essa é a possibilidade aberta agora, no reexame do processo permitido pela lei brasileira. Que se faça Justiça, com J maiúsculo, é o que deseja este país!

  2. O jornalista Carlos Chagas diz que o Ministro Lewandowsk está sendo fiel a quem o nomeou… E os ministros contrários estão sendo fiéis a quem? O próprio jornalista parece ser fiel a quem? Ao colega Merval?

  3. Agamenon
    Não tem jeito não, a nossa mídia está toda contaminada por maçãs podres. Ninguém pode discordar um item sequer do que o Joaquim Mussolini Barbosa diz que logo é acusado de ser conivente e estes absurdos que lemos aqui, é de doer o apreço de nossos jornalistas (?) a democracia em sua acepção mais ampla. Chega a ser patético dizer que é o juiz Lewandovski que quer aparecer quando é JB que ofende a todos na frente da TV com enorme arrogância e prepotência. Te digo que tamanho golpismo dá vontade de vomitar! Mas temos que aturar esses seres abjetos que se dizem jornalistas, não tem jeito. Viva o pensamento único. Enquanto isso, ninguém fala NADA da cúpula do PSDB…

  4. E só uma coisa, que eu queria que me explicassem: se estão analisando RECURSOS, não é justamente para reanalisar o que foi julgado antes? Então porque a reclamação a respeito disso? O recurso não é para tentar mudar o que a justiça já disse? Sua função não é essa? Então porque a grita? Se a lei permite recorrer, isso não é dado a qualquer pessoa?

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