O próximo passo da política

Carla Kreefft

O que a democracia participativa pode fazer pelo país que a representativa ainda não conseguiu? Essa é uma pergunta que, certamente, ainda não tem uma resposta fechada, mas levanta uma boa discussão.

Desde a redemocratização do Brasil, os partidos começaram um processo de reorganização que, pelo menos até o momento, ainda não ofereceu resultados satisfatórios para a sociedade. E, pior ainda, revelou esquemas de corrupção inaceitáveis, como o mensalão e outros episódios menores, mas não menos desprezíveis.

Os partidos, especialmente os que ocupam ou ocuparam o poder, sempre se valeram de formas ilegais para financiar campanhas eleitorais e obter maioria parlamentar no Congresso Nacional. A dificuldade em obter sustentação política dentro do leque de legendas que possuem cadeiras na Câmara e no Senado levou as siglas a estabelecerem procedimentos contestáveis do ponto de vista da ética. A diversidade de posições ideológicas e programáticas, que deveria ser entendida como um estímulo à negociação transparente e ao processo de convencimento rumo à obtenção de maioria, provocou a criação de um universo paralelo de poder, marcado por interesses subalternos.

Enquanto as legendas se dedicaram a formar estruturas de poder, também se afastaram da população e deixaram de representar seus eleitores. Aliás, essa representação sempre foi questionável, uma vez que o político sempre teve mais poder do que o próprio partido no país.
Somente recentemente os mandatos passaram a pertencer às legendas, e não aos eleitos.

DISTANCIAMENTO

O processo de distanciamento entre representado e representante não poderia resultar em nada diferente do enfraquecimento da democracia representativa. E, ao mesmo tempo, também não deixou de contribuir para a insatisfação popular, que, sem canais claros de comunicação, encontrou no mundo virtual uma alternativa eficiente e muito cômoda. Assim começaram a surgir os protestos de junho deste ano.

As manifestações foram surpreendentes para a classe política, especialmente para aqueles partidos e representantes que se consideravam porta-vozes dos movimentos sociais. A balançada que os jovens manifestantes aplicaram à velha política teve e tem extrema importância no processo de crescimento da democracia brasileira. Iniciou-se, a partir dos protestos, um processo de revalidação das demandas populares que estava esquecido ou, talvez, enterrado.

Mas, voltando à pergunta inicial, democracia participativa não se resume à ocupação de ruas e das Casas legislativas. Agora, é necessário fazer mais do que o pouco ou quase nada que a democracia representativa tem feito. E é bom lembrar que uma não exclui a outra. Elas são complementares. (transcrito de O Tempo)

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