O que é que o calado quer

Sebastião Nery

Pequeno, tímido, calado, mas um magnífico romancista, com numerosos prêmios nacionais, Maranhão era do Pará. Veio ao Rio ver seu amigo e companheiro de juventude e de literatura em Belém, Oliveira Bastos.

Às seis da tarde, descemos da redação do semanário de oposição, “Politika”, que Oliveira e eu fazíamos, de 1970 a 1974, em pleno horror do governo Médici, na Avenida Rio Branco, esquina de 7 de setembro. Uma multidão de gente passando apressada, saindo do trabalho a caminho de casa.

Maranhão ficou olhando aquele desfile de cariocas bonitas, mulheres elegantes, perfumadas, as bolsas no braço, e começou a elogiar alto, bem alto:

– Bonita! Maravilhosa! Gostosa!

Oliveira ficou assustado:

– O que é isso, Maranhão? Não se arrisque. O senador de Goiás que fundou Goiana, Pedro Ludovico, dizia que toda mulher boa do mundo tem dono. Uma dessas pode estar acompanhada e o cara vai vir em cima de você.

– Eu sei. Mas o que é que posso fazer? Ninguém sabe o que o calado quer.

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SERRA

Essa lição esqueceram de ensinar a José Serra. Faz tempo que o PSDB tenta lançar a candidatura dele à Prefeitura de São Paulo e até agora ele continua calado. Como o calado de Maranhão, ninguém sabe o que o Serra quer.

Não faz uma frase. Como o velho bordão daquele programa de rádio sobre Ruy Barbosa, ninguém “diz uma dele”. É o silêncio mais desfilante da história das campanhas políticas do País. Sai por aí, escreve nos jornais, mas não diz nada, não fala nada, não deixa uma frase nos botequins. E candidato que não é discutido nos botequins não ganha eleição no Brasil.

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KENNEDY

Em 1960, desci nos Estados Unidos para ver a campanha de Kennedy e Nixon e a primeira surpresa foi não haver nem outdoor nem barulho nenhum. Só campanha na TV e comícios nos fins de semana. Mas, de San Diego, lá embaixo na Califórnia, até Nova York, ao longo de milhares de quilômetros, não havia um poste, nas estradas ou cidades, sem um pequeno cartaz com a cara de Kennedy e uma palavra apenas: Lidership” (liderança).

Era o que os Estados Unidos queriam, depois de dois mandatos do já cansado e bem velhinho Eisenhower. E foi o que Kennedy anunciou: uma liderança, uma nova liderança para os Estados Unidos. E ganhou por isso.

Depois da decepção com a traição de Lula a tudo que prometeu na campanha e do desastre administrativo e corrupto do governo dele e do dela, agora o que o Brasil precisa, e quer, e exige, é o que Kennedy oferecia em 1960 e por isso derrotou Nixon: uma “lidership”, uma liderança. Um programa de esperança.

Como é que o eleitor que já decidiu não votar no PT pode ter esperança em Serra, acreditar que ele vai trazer para o País uma nova liderança, se não sabe o que o calado quer? Ou ele desembucha ou sai dessa eleição como bucha sem canhão.

 

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