O que faz a diferença

Sebastião Nery

Anos seguidos, mais de meio século, desde o seminario, li seus artigos, livros, discursos, memórias. “Reflexões de Uma Cabra” é de 1922. “A Bagaceira”, que fundou o romance regional, de 1928. “Coiteiros” e “O Boqueirão”, de 1935. Depois, “Ocasos de Sangue” (1954), “O Ano do Nego” (1968), etc. Anotava sempre coisas que José Americo, padroeiro da Paraíba, disse ou escreveu:

1. – “Só tenho uma vaidade: a literária, E não é vaidade, é alegria”.

2. – Os “gritos” foram loucuras de minha sinceridade”.

3. – “A melhor nota dada pela minha primeira professora foi essa: “Nunca mentiu”. Saudando-a, numa festa que lhe fizeram, eu lhe disse: – “Minha querida professora, continue a ter confiança em mim, porque só mentirei quando for necessário. Como os santos”.

4. – “Ser útil é desdobrar a personalidade, vivendo outras vidas.”

***
JOSÉ AMERICO

5. – “Particularmente, tive uma aspiração: possuir uma fazenda. Duelos de marruás, ovelhas unidas e bodes irresponsáveis. O garanhão com o seu lote, um harém campeiro, todo soberbo, em passo de dançarino, a cauda içada e a crina revolta. E bichos do mato visitando-me no meu pátio. Um açude gordo de peixe e a vazante com uma verdura geral. O jardim cheirando a tudo. Ninhos, ninhos, ninhos. Proibida a caça.”

6. – “E o que não fiz impedido por meus freios? O melhor romance que me ficou na lembrança desoprimida e saudosa.”

7. – “A solidão liberta-me e valoriza-me. Enquanto estou só, crio o meu mundo e me basto. Mas uma presença é sempre um raio de sol.”

8. – “Sou feliz, sempre fui feliz, muito mais de que mereço. Mas raras vezes conheci alegrias. Não desfrutei os prazeres da vida.”

***
CORAGEM

9. – “Devo o sucesso da vida pública à minha simplicidade e a um certo destemor. Ser temido é meia vitória. A faculdade de expressão me ajudou.”

10. – “Não me julgo ultrapassado. Enquanto vida tiver serei um homem do meu tempo, permeável à idéia nova. Só tenho de velho os sentimentos. A inteligência renova-se com os seus exercícios.”

11. – “Não tenho vícios, mas isso não é virtude, é minha natureza.”

12. – “Não tenho queixa das mulheres. Podem ser volúveis no amor, mas são fiéis na amizade.”

13. – “Sou homem comum. Só tenho de diferente uma personalidade maciça que se manifesta nos momentos decisivos. Na inércia sou vulgar. É preciso que surja um grande estímulo para as revelações. Quanto mais excitado pelos acontecimentos mais dou de mim.”

***
CORRUPÇÃO

14. – “Fiquei outro dia horrorizado com as memórias de Ilya Ehrenburg no ponto em que censurou Edouard Herriot por seus princípios. Achava grotesco este homem de Estado que falava em “cumprir a palavra” e “salvar a honra”. Vejo que minhas maiores virtudes são burguesas.”

15. – “Só uma vez tentaram subornar-me. Foi como ministro do Tribunal de Contas. Um barbudo que tinha um processo para julgamento cochichou-me: “Dou-lhe um agrado”. Com a cara mais alegre deste mundo admiti a corrupção: “Aceito”. E, antes que ele metesse a mão no bolso, disse-lhe o que desejava: “Sua barba. Precisarei de uma vassoura para a limpeza da casa depois disso.”

16. – “Ocupando posições, nunca aceitei presentes de valor. Só recebi como presente caro um relógio de ouro, deixado em minha casa por um grupo de amigos, dos mais íntimos. Encontrando-se um deles em dificuldade de vida, devolvi-o.”

***
CHATÔ

17. – “Chateaubriand levou muito tempo a oferecer-me um carro, quando me viu, saído do ministério, andando de táxi ou ônibus. Não aceitei”

18. – “Ao deixar o governo do Estado, em 55, tentaram ainda dar-me uma condução, que recusei.”

19. – “Estive no Acre. Tendo o rio dado um balanço de uma margem à outra, o batelão desgarrou da lancha que rebocava e saiu desgovernado. Os passageiros agarravam-se uns aos outros. O pânico tem uma cara mais feia do que o choro. Torna-se cômico. Achei graça e um português atarantado censurou-me: “O senhor ainda ri?” Dei-lhe uma explicação razoável: “Sinto muito, mas o medo é uma tristeza que me diverte.”

***
NADAS

20. – “Desculpem ter falado assim de mim. Tenho esta liberdade porque nem sempre falo de bem. Não iria também, por falsa modéstia, que não passa de hipocrisia, mentir contra mim mesmo.”

21. – Já se disse numa campanha política que eu falava muito de mim. Falo porque posso. Um simples gesto pode ser uma definição.”

22. – “Desde cedo comecei a demonstrar o que seria como homem. Creio mesmo que em quase nada mudei. A diferença está entre a pedra bruta e a pedra polida. Falem por mim esses nadas.”

***
SARNEY

Um foi governador. O outro também. Um foi senador. O outro também. Um foi escritor. O outro também. Um foi da Academia Brasileira de Letras. O outro tambem. Um se chama José Américo. O outro José Sarney. E é isso que faz toda a diferença.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *