O risco de inflação

Carla Kreefft

Em algumas datas, é normal o preço de alguns produtos subir. Trata-se do famoso oportunismo que, para muitos empresários, tem o nome de tino comercial. Mas o que está acontecendo neste início de ano é algo que deveria preocupar a equipe econômica do governo Dilma Rousseff.

O aumento dos alimentos, das mensalidades escolares, da gasolina e do vestuário não parece ser alguma coisa sob controle ou apenas sazonal. A alta de preços, na opinião de alguns analistas, está relacionada à mudança de característica do mercado consumidor. Nos últimos anos, a base de consumo brasileira foi ampliada em função da inserção da chamada nova classe média – uma fatia da população que passou a ter acesso a produtos que antes não conseguia consumir. A lista de compras da nova classe de consumidores vai dos iogurtes a aparelhos eletrônicos e de informática, passando pelos carros populares novos e usados.

Acontece que para tudo tem limite, e a capacidade de consumo não foge à regra. Apesar de a tecnologia impor ao mercado, a todo momento, produtos inovadores e capazes, pela força da publicidade, de se tornar o novo sonho de consumo, o potencial de compra da nova classe média está estourando. O que é natural, uma vez que, após alguns anos de muitos gastos, o consumidor tende a lidar com mais cuidado com o cartão de crédito e o cheque especial. Além disso, as residências da nova classe média já estão equipadas com computadores, televisores e aparelhos de som de boa qualidade.

PREOCUPAÇÃO

Diante dessa situação, começa a ressurgir uma velha alternativa para o mercado: o aumento dos preços. E aí reside um motivo de preocupação, já que esta é a lógica inflacionária: vender menos, mas manter a margem de lucro.

Por mais que o governo federal ainda esteja tentando ignorar o crescimento da inflação, a situação pode caminhar para um agravamento em um período relativamente curto.

Se, por um lado, os bens duráveis podem sofrer retração em suas vendas, de outro, os produtos de consumo constante, como os alimentos, não devem ser boicotados. É que já está criado um novo padrão de consumo. Por isso, é no caixa do supermercado que a situação é sentida de forma mais intensa.

O desafio para o governo federal está colocado, da mesma forma como o trabalhador está convidado a fazer mágica para conseguir esticar o seu salário por trinta dias. Uma resposta mais positiva do empresariado em relação à ameaça inflacionária não é uma hipótese descartada, mas, para que isso ocorra, é preciso que todos os setores da sociedade tenham consciência do perigo e que o governo admita o óbvio – o descontrole bate à porta.

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