O risco de morrer na praia

Carlos Chagas

Pouca novidade trouxe a mais recente pesquisa eleitoral, desta vez a cargo do Ibope. Porque apesar de Dilma Rousseff haver conquistado mais dois pontos percentuais, Jos Serra continua absoluto como preferido dos consultados. E com o acrscimo de que, na simulao para o segundo turno, sua vitria torna-se mais expressiva ainda. So 47 pontos contra 33.

Apesar de haver crescido, fruto de intensa exposio ao lado do presidente Lula, a candidata dispe de sete meses para dar a volta por cima, coisa que no conseguiu nos quase dois anos em que freqenta as preliminares da campanha presidencial. Conquistar maiores percentuais, concluem os observadores, mas a ponto de superar o adversrio? Abre-se para ela, por coincidncia em meio festa de seu lanamento, pelo PT, o risco de morrer na praia. Claro que o reverso da medalha torna-se possvel. O eleitorado ainda custa a entusiasmar-se. Antes da escolha do novo presidente ser realizada a Copa do Mundo, evento bem mais atrativo, desde que a sorte continue a bafejar o Dunga.

Sendo assim, a pergunta que se faz sobre o que acontecer no pas diante da volta dos tucanos ao poder. Aqui o processo pode tornar-se mais fascinante, porque condena-se a incorrer em grave erro quem supuser o hipottico governo Serra um vdeo-tape do governo Fernando Henrique. O governador paulista jamais reconhecer de pblico, talvez nem depois de subir a rampa do palcio do Planalto, mas ser bom aguardar, sabendo-se ser ele um adepto da interveno do estado na economia e um adversrio das privatizaes ligadas soberania nacional. Sem falar nas restries que faz aos conglomerados especulativos. Pedro Malan que o diga, se voltarmos um pouco os olhos para o passado.

Cuidado com os outros

Para continuar no tema, importa completar: o problema do Serra so os outros. No todos os tucanos, verdade, pois muitos tambm repudiam o engajamento da social-democracia no neoliberalismo. Rejeitam a postura adotada por Fernando Henrique Cardoso durante oito anos. O diabo ser evitar que o ex-presidente e outros da mesma estirpe venham a considerar-se condminos do poder, no caso da vitria do governador paulista. Para o caso de FHC, o ideal seria design-lo representante do Brasil na Unesco e mand-lo para Paris, com passagem s de ida. E para os que j apregoam a privatizao total da Petrobrs, do Banco do Brasil e da Caixa Econmica, que tal nome-los presidentes dessas empresas? Teriam pudor em aparecer como coveiros da soberania nacional. Ou no?

O laboratrio do dr. Silvana

Para os mais novos, bom lembrar: o dr. Silvana era aquele cientista louco, arqui-inimigo da Humanidade, que durante as dcadas de quarenta, cinquenta e sessenta quase conseguiu explodir o planeta. Com suas perniciosas invenes, dizem ter sido o criador da Guerra Fria, inspirador ao mesmo tempo de Stalin e de diversos presidentes dos Estados Unidos. Morou algum tempo no Vietnan, parece que depois no Oriente Mdio, empenhado em promover conflitos e crises polticas, tanto quanto epidemias, erupes vulcnicas, terremotos e outras catstrofes.

As informaes eram de que o maligno personagem havia sido afinal derrotado pelo Capito Marvel, hoje condenado a viver num asilo para velhos heris, junto com o Batman e o Prncipe Submarino.

Houve quem, a partir dos anos noventa, jurasse haver visto o dr. Silvana, alta madrugada, esgueirando-se pela Praa dos Trs Poderes, em Braslia, onde havia reinstalado seu laboratrio secreto. Teria dado conselhos a Fernando Henrique Cardoso para privatizar o subsolo, as telecomunicaes e a navegao de cabotagem, alm de extinguir o monoplio do petrleo e sugerir a internacionalizao da Amaznia, iniciativa essa interrompida com a eleio do Lula, em 2002. Mesmo assim, parece que a Carta aos Brasileiros foi de inspirao do tresloucado cientista. Depois, sumiu outra vez.

Por que se relatam esses inquietantes boatos? Porque dois dias atrs o presidente Lula, meio em segredo, foi vistoriar as obras do palcio do Planalto. Fez questo de percorrer os pores e seus sombrios corredores. Contam que preocupou-se quando ouviu dos operrios relatos sobre rudos estranhos registrados abaixo do subsolo. Especialmente gargalhadas satnicas, toda vez que o noticirio radiofnico anunciava os resultados de novas pesquisas eleitorais…

Construir outra Braslia

Em seguida ao terremoto que arrasou Lisboa, a corte portuguesa pressionou o todo-poderoso Marqus de Pombal para adotar um programa de reconstruo capaz de repor casas, palcios e monumentos tais como existiam antes da catstrofe. O criador do novo Portugal no deu a mnima, anunciando uma nova Lisboa, mesmo situada no lugar da velha.

Assim est Braslia, depois do terremoto gerado pela roubalheira da quadrilha chefiada por Jos Roberto Arruda. No d para reconstruir esquemas anteriores, muito menos apelar para personagens envolvidos ou conformados com a lambana. A soluo arrasar com o que restou dos escombros da gesto do indigitado governador, includos na iniciativa seus supostos sucessores.

Paulo Otvio, vice-governador, no conseguiu agentar-se. Muito menos conseguiro o presidente da Cmara Legislativa e seu vice. Tambm no d para aguardar o presidente do Tribunal de Justia, pois se o Judicirio ficou margem da corrupo, nada fez para enfrent-la.

A nica soluo parece a interveno federal, quer dizer, a construo de uma nova Braslia.

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