O santo foi outro

Sebastio Nery

Na hora de viajar, ele disse :

– Despeo-me esta noite com grande tristeza. H algo, no entanto, que devo sempre lembrar. Duas pessoas inventaram o New Deal: o presidente do Brasil e o presidente dos Estados Unidos.

Era 27 de novembro de 1936 e quem falava era o presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, despedindo-se do presidente do Brasil, Getlio Vargas. Roosevelt fez a histrica constatao, agora conhecida, 75 anos depois, graas tese de doutorado de Flvio Limoncic, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, relembrada pelo brilhante professor e ex-deputado do Paran (MDB, PMDB e PSDB), Helio Duque:

1. – O New Deal foi o programa de recuperao da economia norte-americana, implementado entre 1933 e 1941 para combater a crise de 1929, lastreado no investimento estatal em obras pblicas e objetivo controle de preos e responsvel pela alavancagem modernizadora do capitalismo nos Estados Unidos, que levaria, no ps-Guerra, a ser a principal economia mundial. E responsvel pelos quatro mandatos seguidos de Roosevelt.

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ROOSEVELT

2. A homenagem do norte-americano ao brasileiro no foi mera cortesia. Era o reconhecimento da poltica econmica de Getlio, no bojo da Revoluo de 30. A queima de milhes de sacas de caf, investindo recursos na garantia do preo do produto, foi responsvel por original poltica anticclica.

3. – E levou o Brasil a ser pioneiro na superao da gigantesca depresso em que o mundo mergulhara. Eleito no incio da dcada de 30, Roosevelt adotou com xito os fundamentos da anticrise, l como c, da teoria do economista ingls John Maynard Keynes. (O discurso de Roosevelt na ntegra est na biblioteca Franklin Roosevelt em Nova York).

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KEYNES

4. S em 1936 o keynesianismo teria sua obra bsica, Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, publicada para o pblico especializado. E se tornaria o manual da interveno macroeconmica para as crises na economia. Transformou-se em livro clssico, espraiando-se como pensamento inovador no enfrentamento do liberalismo econmico sem limites, ao demonstrar que as economias mergulham na utopia.

5. Ao longo do tempo, a teoria keynesiana tem presena em toda a economia mundial, para enfrentar os efeitos nocivos dos ciclos econmicos quando se exaurem em crises. A irracionalidade gerada pelos agentes econmicos, destacadamente o sistema financeiro, provoca momentos como a crise do sub-prime de 2008 ou esta mundial de agora”.

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KIRCHNER

Depois que Nestor Kirchner, eleito presidente da Argentina em 2003, ps de joelhos o FMI e os banqueiros especuladores internacionais, obrigando-os a reconhecerem que a Argentina s devia 25% da sua Divida Externa (que ele pagou) e no pagaria, como no pagou, os 75% restantes, que eram juros sobre juros, pura especulao, a grande imprensa alugada da America Latina, como a do Brasil, criou um sindicato da chantagem e da mentira, chamado Jornais das Amricas, porta-vozes dos banqueiros, acusando a Argentina de haver dado o calote e ameaando esmaga-la.

H oito anos a Argentina cresce, como este ano, entre 8 e 10% (o Brasil, se Deus ajudar, chegar a 3%), saiu do buraco do Menem e dos banqueiros e uma das mais fortes economias do mundo. A reeleio avassaladora da presidente Cristina foi fruto disso, deste vigor da economia argentina, com o desenvolvimento e nveis sociais crescentes.

Certos jornais e TVs brasileiros ficaram histricos dizendo que ela surfou na boa fase internacional. Por que os outros no surfaram? Com os Estados Unidos e Europa em crise, uma mentira desleal com os leitores. O santo foi outro. No houve milagre. H dez anos a Argentina investe no pais os juros que no d aos banqueiros. O Brasil tem divida de 1 trilho e 800 bilhes e este ano paga 200 bilhes de juros especulao.

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CLARIN

At o jornal Clarin, O Globo dos banqueiros argentinos, foi obrigado a reconhecer. Em artigo, o economista Guillermo Olivetto diz;

– Era possvel ver Pern na TV dizer que a concepo de seu primeiro mandato primou por uma idia base: Governar dar trabalho. Os Kirchner viram a renovada importncia estratgica de suas palavras. Propuseram um modelo sob medida para uma sociedade de cidados-consumidores. Deram s pessoas as trs coisas que lhes importam: produo, emprego e consumo. Os votos voltam a dar-lhes razo.

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ORLANDO

Dias atrs, no discreto Bistr Ici, restaurante de Higienpolis, em So Paulo, o ex-ministro Orlando Silva almoava com o Diretor de Redao da Folha, Octavio Frias Filho. O jornalista, reconhecidamente agitado, estava calmo. E vi o ministro muito nervoso. Ele tinha razo.

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