O teatro do atentado de Boston faz esquecer o eventual fim da espécie

Leonardo Boff
Precisaria ser inumano e sem sentido de solidariedade e compaixão não se indignar e não condenar o atentado perpetrado em Boston, com três mortos e centenas de feridos. Mas isso não nos dispensa de sermos críticos. Houve uma teatralização mundial do atentado com objetivos ocultos que devem ser desvendados. Atentados ocorrem muitos no mundo, especialmente no Afeganistão e no Iraque, na presença das tropas norte-americanas e aliados.Sempre com muitos mortos e centenas de feridos. Quase ninguém dá importância ao fato, já banalizado. Muitos pensam: trata-se de terroristas ou gente próxima a eles, incômodos à ocupação ocidental. Mas, convenhamos, são seres humanos como aqueles de Boston. As medidas de avaliação são diferentes. Sabemos o porquê.

Precisamos estar atentos ao significado político-ideológico da espetacularização do atentado de Boston. É uma forma de desviar a atenção mundial de questões mais fundamentais: a primeira é o estado de terror que o Estado norte-americano está impondo a seus cidadãos e ao mundo inteiro. Com isso atraiçoa o que de melhor tinha: a defesa dos direitos fundamentais.

Não fechou Guantánamo nem ratificou instrumentos internacionais importantes, como o Tratado de Roma, da Corte Penal Internacional, nem a Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José de Costa Rica). Não quer que as violações e os atentados que seus agentes perpetram pelo mundo afora sejam levados àqueles tribunais.
SENHORES DO MUNDO
Mas, pela ininterrupta ocupação da mídia a propósito do atentado, os “senhores do mundo” querem desviar a atenção da segunda questão, esta, sim, de consequências funestas e que pode afetar a todos: a ameaça do fim da espécie humana. Primeiro, esses “senhores” devastaram durante séculos o planeta, a ponto de ele não poder, sozinho, recuperar sua sustentabilidade. Em seguida, montaram uma máquina de morte que ameaça a vida na Terra e pode trazer o armagedon para a espécie humana.Notáveis cientistas e os mais sérios teóricos da ecologia chamaram a atenção para essa ameaça real. Apenas não sabemos exatamente quando e como vai ocorrer. Mas, mantido o curso atual das coisas, ela será fatal. Depois de Hiroshima, Nagasaki e, agora, de Fukushima, a humanidade descobriu a morte da espécie. Sim, como Gorbachev não se cansa de repetir, podemos destruir a espécie humana com as armas químicas, biológicas e nucleares que estocamos. Segurança? Nunca é absoluta. Lembremos Three Islands, Chernobyl e Fukushima.

Nossa espécie aprendeu a ser homicida (mata seus semelhantes), etnocida (quantos povos originários não foram liquidados?), ecocida (devastou ecossistemas inteiros) e agora pode ser especiecida (leva a própria espécie ao suicídio).

O sistema vive buscando bodes expiatórios (antes eram os comunistas, agora os terroristas, quem mais?) sobre os quais recai o desejo mimético e coletivo de vingança. E assim se autoexime de culpas e de erros. Mas principalmente faz de tudo para que essa ameaça letal sobre a espécie humana não seja lembrada e se transforme numa consciência mundial perigosa.

Ninguém aceita passivamente um veredito de morte. Vai lutar para garantir a vida e o futuro comum. Esse deveria ser o objetivo de uma governança global, que exige a renúncia de uma vontade imperial que só pensa em sua perpetuação, em vez de pensar no bem comum da mãe-Terra e da humanidade. (transcrito do jornal O Tempo)

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17 thoughts on “O teatro do atentado de Boston faz esquecer o eventual fim da espécie

  1. “O teatro do atentado de Boston faz esquecer o eventual fim da espécie” / “Houve uma teatralização mundial do atentado com objetivos ocultos”
    Teatro senhor Leonardo Boff? 3 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas seu moço.
    Por ser socialista dá para entender seu ponto de vista, seu antiamericanismo etc., mas ignorar que seres humanos perderam a vida é ter um coração de ferro.
    Uma das vítimas teve que amputar as duas pernas; outra ficou gravemente ferida e teve que amputar uma perna; um garoto de 11 anos foi atingido por estilhaços na coxa, está em tratamento num Hospital Infantil de Boston e deverá se submeter a mais cirurgias.

    “o estado de terror que o Estado norte-americano está impondo a seus cidadãos e ao mundo inteiro”.
    Até onde sei senhor Leonardo Boff, quem está colocando o mundo em perigo é a Coreia do Norte.

    “Não fechou Guantánamo”
    Senhor Leonardo Boff, se Guantánamo estivesse sob controle de Cuba e lá estivessem pessoas presas por se opor ao regime ditatorial dos Castros o senhor criticaria? Aposto que não.

    “Mas, pela ininterrupta ocupação da mídia a propósito do atentado, os “senhores do mundo”
    Senhores do mundo senhor Leonardo Boff? O senhor conhece muito bem a história da humanidade e através dela eu creio que ao estudá-la deve ter percebido que todo império foi opressor. Não seria diferente com os EUA.

    “O sistema vive buscando bodes expiatórios (antes eram os comunistas, agora os terroristas, quem mais?)”
    Senhor Leonardo Boff, queria que o governo americano cruzasse os braços e deixasse como se nada tivesse acontecido?

    Senhor Leonardo Boff, quando da existência do “Império do Mal” (é o que afirmou Reagan) o senhor em algum momento criticou a União Soviética por manter na Sibéria, um sistema de campos de trabalhos forçados para presos políticos, intelectuais e cientistas que se opuseram ao regime Soviético? Muitos destes prisioneiros passaram fome, frio, foram torturados, todas vítimas das perseguições do ditador Stalin.

    O senhor em algum momento criticou o regime comunista da União Soviética por perseguições ao escritor e historiador Alexander Soljenítsin?

    O senhor em algum momento criticou a União Soviética por não ter permitido o cientista Andrei Sakharov viajar até Oslo para receber o Premio Nobel ganho em 1975 por sua defesa aos direitos humanos?

  2. Os próximos serão os Aliens!

    Assistam Watchmen, muito bom exemplo de como as coisas realmente funcionam.

    Ótimo texto. Não vejo a hora das coisas “esquentarem” um pouco.

    Senão vou achar que o Tiririca está certo. Pior do que está não fica!

  3. (“o estado de terror que o Estado norte-americano está impondo a seus cidadãos e ao mundo inteiro”.
    Até onde sei senhor Leonardo Boff, quem está colocando o mundo em perigo é a Coreia do Norte.)

    João. O seu nick já esclarece amplamente os seus comentários.

  4. O genocídio final

    Quando o sistema capitalista entrar em trajetória de derrocada final, derradeira e definitiva, com as bolsas mundiais em acentuadas oscilações, repetidas interrupções, seguidas de severas quedas, os EUA já devem ter plano detalhado para enfrentar a inevitável morte do sistema capitalista. Mas, em caso de fracasso desse plano secreto (implantação de uma ditadura militar mundial), a guerra nuclear entraria e cena, com extinção da raça humana – posso morrer, mas junto, levo todo o mundo. Com base nos genocídios praticados pelos EUA, semelhante loucura, não seria impossível.

  5. Parabenizo ao Sr. Leonardo Boff por seu excelente artigo.
    De fato, há uma excesso midiático visando explicar eventuais intervenções mundo afora dos americanos, que só sabem espalhar sangue inocente.
    Uma simples e pequena leitura dos horrores praticados no Iraque por tropas dos estados unidos e aliados, fazem com que percebamos o contido em sua escrita.
    Por depender vitalmente da indústria bélica, os americanos do norte insistem em plantar ventos; fatalmente colherão tempestades…

  6. Olhem para nosso próprio umbigo…

    OS VAMPIROS CHUPA SANGUE SÃO DAQUI MESMO!!!

    Nos últimos anos muitos de nós brasileiros vivemos a criticar 2 políticos: O Lula e o Bush.
    Estes dois presidentes, o do Brasil e o dos EUA não saem da nossa mente por estarem no poder atual, daí eles têm uma maior visibilidade. Alguns chegam até a criticar o Maluf, o FHC, o Sarney, o Serra e outros, mas a moda mesmo é criticar Lula e Bush.
    O Lula recebe críticas dos anti-petistas e de até petistas que se decepcionaram com o seu governo. Muitas das críticas dirigidas a ele são moderadas.
    Já o Bush é considerado pela maioria (principalmente pela esquerda tupiniquim) o anticristo. Para eles, o presidente americano é o homem que faz a guerra, que oprime os mais fracos, que preside uma nação imperialista etc.

  7. EIS MINHA OPINIÃO PESSOAL A RESPEITO DE QUEM PENSA QUE O BRASIL ESTÁ ASSIM OU ASSADO POR CAUSA DA AMÉRICA DO BUSH.
    Aos que são adeptos do antiamericanismo: Desde os primórdios (a história mostra isto) todo grande império é opressor, se mantém com o uso da força, expande seu território coagindo outras nações. O Império Romano foi assim, Alexandre construiu um império com uso da força, Napoleão, Gengis Khan, Ciro o Grande formou o Império Persa, Carlos Magno também formou seu Império.
    Naquela época alguns destes caras dizimavam cidades inteiras, matando ou escravizando as pessoas.
    Ora, e não seria diferente com os EUA ou mesmo até com Cuba, Brasil, Japão, Uganda se fossem impérios. Isto é o seguimento da história.
    A diferença é que hoje o mundo, as nações e os povos estão mais civilizados e não se comentem aqueles tipos de atrocidades.
    Se existisse um aparelho para medir a maldade de Bush com a de Gengis Khan com certeza aquele traço vermelho chegaria à altura do Cristo Redentor para a maldade do Gengis Khan e o mesmo traço só chegaria à altura de um ônibus quando medisse a maldade do Bush.
    Já pensou se só a ex – União Soviética tivesse bombas atômicas e fosse a única potência do mundo? Deus me defenda desta má hora.
    Olha, eu não tenho nenhuma admiração por Bush (torço pelo Partido Democrata) e sei que a política americana tanto nos afeta como também afeta economias no mundo inteiro.
    Agora, nós brasileiros ficarmos aqui choramingando e dizendo que o americano tá nos enforcando é conversa pra esquerdista de periferia.
    Entre muitos, cito 4 exemplos que leva-me crer que devo olhar mais para meu umbigo do que o do vizinho.
    1º Certa vez o Mario Vargas Llosa, escritor peruano, comentou que o povo da América Latina costuma falar que a culpa da nossa pobreza eram dos Norte Americanos. Ele diz que isto é uma grande ilusão.
    2º Entre 1987 e 1988 a “Isto É” fez uma matéria onde mostrou que o Banco Mundial fez um relatório onde mostrava que em torno de uns 4 bilhões de dólares (empréstimos feito ao Brasil durante alguns anos) foram mal gastos no Brasil. O dinheiro era pra saneamento básico, educação etc. Dizia o relatório que este dinheiro beneficiou mais os que não precisavam como os ricos e que parte deste mesmo dinheiro se perdeu na corrupção.
    3º Li em alguma publicação que as elites brasileiras plantaram no povo brasileiro a ideia de que a pobreza do Brasil era em função da exploração dos EUA. Diz que com isso as elites ficam ilesas de culpa.
    4º Se os EUA chegou a ser uma potência foi com seus próprios méritos. Chegaram a este patamar após muita luta; trabalharam muito; tiveram muitos presidentes estadistas e que trabalharam em benefício da nação e de todo o seu povo; construíram as melhores universidades do mundo; educaram seu povo; eles têm uma única constituição que já dura mais de 220 anos; desde sua independência em 1776 nunca houve um golpe militar; nunca houve um governo ditatorial nem de direita e muito menos de esquerda;

  8. Sinto o medo que o brasileiro sente do Bush. Eu como um cidadão comum, pobre, de pouca cultura não tenho motivo para ter medo do Bush e dos EUA.
    O país que me mete medo tá logo aqui, na América do Sul e tem uma extensão territorial com mais de 8 milhões de Km2.
    Aqui neste país eu tenho medo:
    . da violência urbana,
    . das oligarquias que mandam no Nordeste,
    . do alto índice de corrupção praticado por seus políticos e governantes,
    . do descaso dos governantes para com nós, os mais pobres, que mesmo pagando impostos
    escorchantes não temos o retorno através de um bom ensino público, bom sistema de
    saúde, bom sistema de segurança etc.
    . do povo brasileiro continuar a eleger péssimos políticos,
    . da péssima programação das TVs,
    . de instituições fracas e instáveis em nosso país, pois a qualquer momento pode-se ter um
    golpe militar, uma crise econômica, deposição de um presidente mesmo se ele estiver
    trabalhando pelos menos favorecidos,
    . do blá blá blá dos políticos,
    . da grande concentração da renda (poucos com muito e muitos com pouco),
    . de uma Constituição frágil, remendada e não respeitada…
    De que império eu tenho medo? De um Império de mídia que cresceu coincidentemente na época da ditadura militar (segundo um documentário feito na Inglaterra e que tentaram proibir lá e cá) e que dita moda, costumes e a nossa maneira de pensar.
    De outro Império liderado por fanáticos ditos religiosos com seus glamorosos templos induzindo as pessoas pobres de cultura e dinheiro a lhes dar ofertas em troca da salvação eterna e da cura fácil.
    E também do império dos bancos que segundo os entendidos, cobram os maiores (ou um dos maiores) juros de mercado do mundo e tem os maiores (ou um dos maiores) lucros do mundo.

  9. Este texto acima e que você leu foi escrito por mim no ano de 2006
    Hoje ano de 2013, estou lendo o livro “HISTÓRIA DOS ESTADOS UNIDOS das origens ao século XXI”
    Neste livro citado e escrito por 4 historiadores brasileiros (um deles é canadense de origem) leio algo parecido com que escrevi a 6 anos.
    Eles escreveram o seguinte:
    “Nunca uma sociedade desnudou-se tanto para o mundo. Os dramas pessoais, históricos e políticos dos norte-americanos são estampados em músicas e filmes. A sociedade dos EUA exibe-se em cinemas da China, do Brasil e da Polônia. Jantamos com dramas familiares do Colorado ou com plantões médicos em Los Angeles. Damos audiência para detetives de Nova York. Desconhecemos as taras secretas dos cidadãos de Kiev, na Ucrânia, ou de Lagos, na Nigéria; mas já vimos muitos filmes e programas de televisão sobre estupradores e assassinos em série dos Estados Unidos. Sendo sede imperial, eles concentram o mundo e todo seu corolário de boas ou péssimas ações. Denunciamos as ambiguidades da cidadania norte-americana como se o resto do planeta estivesse submerso em absoluta liberdade e igualdade. O mundo atolado em violência e injustiça lança um dedo acusador contra a sociedade norte-americana. Talvez seja esse o traço mais extraordinário dos Estados Unidos da América: sua utopia fracassada e realizada de “povo eleito” constitui um universo em torno do qual todos gravitamos e que amamos odiar.
    Uma parte expressiva de analistas do mundo inteiro afirma que o fim do poder dos EUA instaurará uma sociedade de ordem e paz. Os debates se a política externa de cada país deve ser anti ou pró-americana polarizam as relações mundiais. Tornou-se hábito reclamar da arrogância do governo de Washington, como se algum governo imperial do passado tivesse sido humilde, filantrópico ou expandido seu poder em busca da melhoria coletiva da humanidade.
    Para piorar nossa angústia, a alternativa é difícil: os governantes mais antiamericanos na Ásia ou América Latina não parecem garantir a possibilidade de um mundo mais confiável ou justo.”

  10. Pois bem, acima entre aspas, vocês leram o que foi citado no livro, países mais pobres da Ásia, os países latinos americanos e os países africanos que não foi citado, tiveram os ditadores mais sanguinários da humanidade. Isto em tempos recentes, século XX.
    É aquela coisa de não cuidarmos do nosso próprio umbigo e criticar o umbigo alheio. Criticar quem progrediu.
    Os críticos de Bush deveriam antes de criticar o mesmo ler a Biografia de certos mandatários de países pobres e que governaram como se fosse o dono da nação (Somoza dizia que a Nicarágua era sua fazenda).
    Leiam a biografia de Pol Pot que foi o chefe do Khmer Vermelho e foi responsável pelo genocídio de cerca de 2 milhões de cambojanos, entre 1975 e 1979.
    Como governou Pol Pot, o carrasco do Camboja:
    “As primeiras medidas: a moeda local foi abolida, bibliotecas foram transformadas em chiqueiros e intelectuais, profissionais liberais eram sumariamente executados. Calcula-se que 15 mil dos 20 mil professores do país foram mortos, assim como 90% dos monges budistas e um em cada cinco médicos.
    Até hoje as vítimas do genocídio de Pol Pot são contadas: as estimativas variam de um a três milhões de mortos, num país que tem sete milhões de habitantes”.

  11. Estaria com a razão este ex-diplomata americano? Leiam e reflitam…
    Em 1986 LAWRENCE HARRISON, ex-diplomata americano, deu uma entrevista à revista VEJA e falou que o subdesenvolvimento do nosso continente é fruto de aversão ao trabalho herdada dos colonizadores.
    Depois de passar vinte anos trabalhando em projetos de desenvol¬vimento na América Latina para a AID – Agency for Intemational Development -, o diplomata americano Lawren¬ce Harrison chegou a uma conclusão: os latino-america¬nos não gostam de trabalhar.
    Harrison começou a lidar com a América Latina em 1962, administrando a implanta¬ção da Aliança para o Progresso – um programa basicamente assistencial que o presi¬dente John Kennedy tentou desenvolver no continente. Ele achava na época que os Es¬tados Unidos eram responsáveis pelo subde¬senvolvimento desta região. Depois, Harri¬son passou a ver os problemas latino-americanos sob outra ótica, discordando frontal¬mente das correntes de opinião que atri¬buem à exploração econômica americana o empobrecimento do continente.

    Leia um pouco do que falou à revista o ex-diplomata:
    Na opinião do ex-diplomata existem vários obstáculos ao desenvolvimento latino-ame¬ricano, frutos da própria cultura hispânica ou ibérica. São atitudes fundamentalmente antidemocráticas, antiprogresso, anti-so¬ciais e, no caso da elite, até antitrabalho.

    Ele diz que os primeiros espanhóis que chegaram ao Novo Mundo eram os respon¬sáveis pelas décadas de guerra que fizeram da Espanha uma nação e acreditavam que ti¬nham o direito de ficar ricos rapidamente. Eles queriam enriquecer para depois poder voltar à Espanha sem ter que trabalhar pelo resto de suas vidas. A ideia de colonização americana – de fazendas pequenas e trabalho duro – jamais existiu na cabeça dos conquistadores, com poucas exceções.

    Sobre o ser hu¬mano ser tratado muito mal na sociedade la¬tino-americana ele diz:
    – Não existe uma sociedade no mundo inteiro hoje que não poderia, em relativamente pouco tempo, educar seu povo, melhorar sua média de vida e reduzir a mortalidade infantil. Não obs¬tante, estatísticas mostram que historica¬mente os governos latinos nunca se esfor¬çaram para educar e melhorar o nível de saúde da população. As pessoas são indi¬vidualistas. Muitos lí¬deres locais também não querem aplicar recursos em benefício da população, e sim em seu próprio benefício.

  12. Sobre os latinos serem considerados muito amistosos ele diz:
    – Às vezes, esse show de amizade é autêntico, isso eu não nego. Mas também pode ser superficial. Se fosse sem¬pre autêntico, os latinos seriam mais justos e mais preocupados com seus compatriotas. Existe uma contradição desconcertante, por exemplo, entre a apregoada amizade latina e os altos índices de analfabetismo. O filho do prefeito e o filho do lixeiro têm chances iguais de aprender a ler e de entrar numa universidade para um dia alcançar uma posição importante? Não. Não existe mobili¬dade nas sociedades latinas.

    A revista lhe faz esta pergunta: A corrupção é uma ameaça à democratização?
    E ele responde: É, se ela continuar tão ge¬neralizada como tem sido até agora. A cor¬rupção existe no mundo inteiro – até nos EUA, no Canadá e na Europa. Mas o chefe de Estado típico hispano-americano deixa o poder muito mais rico do que quando o con¬quistou. Isso não acontece nos EUA e é simbólico da cultura latina. O povo não só desculpa a corrupção de seus líderes, mas até encara a corrupção com naturalidade.
    E ele diz mais: – Uma das maneiras que o caudilho tem para ampliar seu poder é através do patronato. Isso acontece em to¬das as sociedades do mundo, mas em lu¬gar algum como na América hispânica, onde a política é completamente persona¬lizada, o líder usa seu carisma para ganhar a confiança do povo. Para construir a base de onde governará, ele emprega todos os seus amigos. E os amigos, por sua vez, empregam seus amigos.

    A Veja lhe faz esta outra pergunta: – O senhor também acredita que a cultura latina é antitrabalho. Os latinos são preguiçosos? Por quê?
    E HARRISON responde: – O caráter tradicional hispâ¬nico é antitrabalho. O trabalho é encarado como uma maldição. Vida boa é contemplar o universo, escrever poesia e tocar violão. Os conquistadores quiseram enriquecer ra¬pidamente para poder voltar para a Espanha e ser caballeros, pois a nobreza representa¬va o modelo de vida que eles gostariam de seguir. Eu creio que isso ainda é verdade na América Latina hoje, especialmente entre a elite. Nos Estados Unidos, ao contrário, a ética do trabalho provém da filosofia protes-tante e puritana: trabalhar é bom e não traba¬lhar é ruim.

  13. Sobre o Brasil ele diz:
    – Eu nunca fui a Portugal e só passei uma semana no Brasil, mas sinto que em certos pontos o Brasil é diferente. Existem porém vários pontos em comum: por exemplo, a dificuldade brasileira de atingir estabilidade democrática e de alcan¬çar alguns dos indicadores básicos de uma sociedade moderna, como padrões moder¬nos de saúde, alto índice de alfabetização e melhor distribuição de terras.

    A revista VEJA lhe faz mais esta pergunta:
    – Estudiosos do subdesenvolvi¬mento latino-americano difundem a teoria da dependência – ou seja. a exploração do continente pela superpotência americana teria impedido o desenvolvimento. Que cré¬dito o senhor dá a essa teoria?
    E ele responde: – É uma teoria mitológica e sem conteúdo. Em primeiro lugar, com ex¬ceção do México, os Estados Unidos tive¬ram pouquíssimo envolvimento com a América Latina até o início deste século. Mesmo assim, os padrões dos governos au¬toritários – instabilidade política, envolvi¬mento militar no governo e má distribuição de terra – são características que existiam no século XVI e ainda persistem em países hispano-americanos. É difícil declarar que algo que só se tornou uma realidade neste século pode explicar padrões que existiam há mais tempo. Em segundo lugar, a econo¬mia americana é auto-suficiente. Os EUA são um país tão grande e cheio de recursos que, se nos isolássemos do resto do mundo, ainda sobreviveríamos como uma nação ri¬ca. Mais importante, a maior parte de nos¬sos negócios não é feita com a América La¬tina, mas com a Europa, o Canadá, o Japão e a Austrália. Só no Canadá, nós investimos mais do que em toda a América Latina. Nosso comércio com o Canadá é maior do que o comércio com toda a América Latina, inclusive o Brasil. E os canadenses não es¬tão reclamando que nós nos enriquecemos às suas custas. A exploração real na Améri¬ca Latina, que impede o desenvolvimento, é a exploração das grandes massas por poucos poderosos e ricos.

    Nesta entrevista com o ex-diplomata Lawrence Harrison, percebe-se que o entrevistado cita toda América Latina e nos inclui.
    Esta entrevista foi em 1986 e desta data à atual quase nada mudou. Tá tudo dantes como no quartel de Abrantes.

  14. Senhor de uma região atrasada: evite cópias, forme seu pensamento sobre o original: ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO – Max Weber. Tire suas próprias conclusões. As galinhas jamais devem aceitar o discurso da rapôsa. É uma questão de sobrevivência! Já dizia o ‘filólogo’ Ibrahim Sued: “Olho vivo que cavalo não desce escada!”
    O ex-diplomata estadunidense esqueceu um ‘detalhe’ sobre as ditaduras latinoamericanas, para nós, que as sofremos, importantíssimo: foi o seu país, através da famigerada cia, que ajudou na implantação das ditaduras – civis e militares – aqui na AL, inclusive no brasil! O QUE É BOM PARA OS ESTADOS UNIDOS É PÉSSIMO PARA OS OUTROS! OS SEUS ‘PRESENTES’ SÃO SEMPRE DE GREGO- remember CAVALO DE TRÓIA.

  15. Dione,
    Eu imaginava que alguém questionaria meu longo comentário. Nele tem 50% da minha opinião e 50% cópia da entrevista do americano. Sim eu tenho minha opinião formada. Mas se eu colocar aqui com minhas palavras o que eu penso da América Latina, do Brasil e dos donos desta região atrasada você diria que eu estava falando de algo que não tinha um conhecimento profundo. Como eu sou pouco letrado, não sou jornalista e convivo dentro de uma sociedade que impera o “ter diploma universitário” para falar de assuntos mais complexos eu gosto de mostrar a fonte dos meus comentários. Se eu dissesse aqui com minhas palavras que os presidentes de países latinos saem ricos ao deixar o cargo você acharia que eu estava caluniando. Então coloquei a entrevista de um estudioso e conhecedor de América Latina para não precisar eu te responder coisas tipo: “Foi um diplomata americano que falou”.

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