O terrvel exerccio do silncio e da solido, na lembrana de 43 anos depois, na imprevisvel Fernando de Noronha

Sentado diante da mquina de escrever, cercado de solido por todos os lados, perdido nesta ilha que sempre foi tida como maldita, incomunicvel pela vontade dos homens e pela deciso irrecorrvel da natureza, sou um homem nu diante de mim mesmo, assaltado por todas as dvidas e por todas as indecises.

Isolado num barraco de madeira, cercado de ratazanas, lagartixas e mosquitos, comeo este livro, para transmitir as reminiscncias que sobraram da aplicao ilusria de uma violncia.

Sinto-me confuso e atordoado, como algum isolado no meio da multido sem rosto, onde cada um procura salvar no apenas o que sobrou de si mesmo, mas o que sobrou dos seus sonhos e das suas esperanas.

E a grande dvida que no ser respondida por ningum durante muito tempo: ter sobrado alguma coisa de algum?

Nesta ilha maldita e selvagem, talvez o maior tormento e o maior pesadelo seja mesmo o tempo que sobra para meditao. Como dizer alguma coisa, se ningum tem certeza de nada? Como ser atual, se ningum sabe definir sequer o que atualidade, quando apenas os jovens de menos de 20 anos parecem ser os nicos sensatos num mundo que naufraga irremediavelmente numa tempestade de desnimo, de falsidade e principalmente de hipocrisia. Os jovens pelo menos so autnticos, dizem o que sentem, submetem-se ao seu prprio julgamento, fazem o que querem, sem se preocuparem de forma alguma com a opinio dos outros ou at com a sua prpria imagem refletida no espelho em frente. E alguns, nem querem saber se existe espelho ou at mesmo se existe alguma coisa na frente deles.

Como ser o mundo do futuro? O que mais importante para os militares de todos os pases: fabricarem guerras ou fabricarem frustraes? Se fabricarem guerras, estaro transformando o mundo num vasto cemitrio, e no se libertaro do remorso. Mas se no fizerem guerras, estaro fabricando frustraes, pois como a guerra a sua profisso, correm dois riscos que no podem nem sequer discutir ou pr em dvida: ficaro desempregados ou estaro ganhando sem trabalhar.

E ento, toca a fabricar discrdias, no Vietn, no Camboja, no Laos, em Israel, na China, na Bolvia, no Brasil, em todos os lugares. E por trs deles, (transformados apenas em inocentes teis de uma utilidade provada de uma ingenuidade que chega a ser inacreditvel) o famoso complexo industrial-militar, os poderosos senhores dos armamentos.

Mas estes tambm so profissionais, tambm querem se realizar, fazer prosperar o seu negcio. Desde que a humanidade aceita que existam fbricas de armas, natural que os que vivem de fabric-las queiram cada vez mais guerras, pois seno no podero aumentar a sua produo. E no capitalismo e no anticapitalismo, no fascismo e no comunismo, quaisquer que sejam os regimes, o Deus do mundo no a produo? Ento, natural que Krupp, Thissen e outros senhores das formidveis mquinas de matar queiram cada vez mais assassinos, embora assassinos legalizados, e como James Bond, com licena para matar. Mesmo que sejam chamados de patriotas e sejam condecorados cada vez que conseguem matar mais gente do que o seu rival ou at mesmo do que o seu amigo mais prximo.

Nesse mundo enlouquecido e perplexo, o importante no saber quantos morrem. O importante saber quem matou mais, para providenciar imediatamente a condecorao consagradora.

Falem em controle da natalidade com um fabricante de beros, e ele se insurgir com argumentos que at agora, provavelmente, no ocorreram at mesmo aos americanos na Amaznia. natural. Ele est defendendo o seu negcio, e quanto mais gente nascer mais beros ele fabricar.

Por outro lado, digam a um fabricante de caixes que o avano da cincia est tornando a vida cada vez mais longa, que cada vez se morre menos, e ele ir para casa preocupado. Quanto mais honesto e responsvel chefe de famlia ele for, mais preocupado ficar com o fato dos outros estarem morrendo cada vez raramente. que fazer caixes o seu ganha-po, e se ningum morrer, como que ele sustentar os filhos, manter a aparncia de lar que conseguiu montar no se sabe custa de que sacrifcios? Se for dotado de humor negro, poder at exclamar nas conversas dominicais, diante de vizinhos no to afortunados: Tudo o que eu tenho porque matei-me de tanto trabalhar.

No creio que a salvao do homens venha da meditao, como no acredito que o mundo do futuro seja plasmado ou fabricado em nenhum laboratrio. Os homens, individualmente, no escolhem o seu destino, e as naes, coletivamente, impedem que as outras tenham sequer o direito de pensar num destino digno. Quero dizer, as mais fortes esmagam at o pensamento das mais fracas. E aonde levar tudo isso? Pois apesar de saber que a salvao no vir do pensamento, o ltimo e talvez o nico refgio do homem ainda seja o pensamento.

De contradio em contradio, aonde chegaremos? tortura da busca de uma realidade que no existe e no existir jamais, pois no est em ns mesmos nem em lugar algum? A uma comodidade fictcia, que muitos confundem com felicidade, mas que na verdade apenas uma iluso, pois os ricos so to infelizes quanto os pobres, com a agravante de que as suas infelicidades so manchetes de jornais no mundo todo?

Quem mais importante: o soldado que empunha a arma, ou o general que comanda? Sem o general poder haver o soldado? E sem o soldado, poder haver o general? Tudo dvida, tudo indeciso, a nica realidade, e essa, indestrutvel, a solido que me cerca.

Hoje o dia 2 de agosto de 1967, so 19 horas, a escurido tomou conta da ilha. Minha mulher foi embora (pois sendo indispensvel nos dois lados, comigo e com as crianas, era lgico que ficasse com elas) e estou sozinho nesta terrvel ilha de Fernando de Noronha, que o medo dos homens escolheu para refgio dos que tm coragem. Mas como tenho apenas a coragem cvica e no fsica, com no estou interessado num duelo de bravura com ningum, confesso com a maior serenidade: estou com medo. Mas no com medo dos homens e das coisas, com medo do mundo ou dos seus pesadelos, com medo de ameaas ou de intimidaes. Estou com medo do tempo que no passa nunca, desse silncio opressivo que devora at o dilogo que eu gostaria de manter comigo mesmo, medo das horas que fluem docemente, quando eu gostaria que elas corressem tumultuadamente.

Cada vez que consulto o relgio, pensando que j se passaram duas horas, constato assombrado que transcorreram apenas 10 minutos. Amaldio os relojoeiros suos, pela vigsima vez dou corda ao relgio, uma corda que no aguenta mais ser movimentada, e finalmente encontro a soluo: escondo o relgio no fundo da mala, embaixo de todas as roupas, pois assim tenho a iluso de estar derrotando o tempo, e mergulho na leitura de Hemingway.

Mas a primeira frase lida (o pensamento o inimigo do sono) faz retornar toda a confuso, volta a tumultuar o meu pequeno mundo de zinco e caixotes de madeira. Como escolher entre a insnia e o pensamento, se estou igualmente, meio-a-meio, dominado pelos dois e no me resta nem o direito opo?

Esse duelo entre o silncio e a vontade de dialogar,entre a insnia e o pensamento, entre a sensao de inutilidade aqui e a convico de que poderia ser til em outro lugar, durou 30 dias, do primeiro ao ltimo dia que passei nesta ilha maldita, nesta ilha amaldioada pela maldade dos homens, e que serve para agravar ainda mais a maldade dos que detm o Poder apenas para satisfao, uso e gozo de suas convices pequeninhas. Mas mesmo sendo uma ilha maldita e amaldioada, no queria abandon-la a no ser para troc-la pela liberdade, para que, permanecendo l, toda a responsabilidade poltica recasse sobre os que provocaram meu degredo. Mais isso j matria de outro captulo.

Por enquanto, o que importa contar aos leitores as minhas reflexes desses 30 dias, reflexes que comeam e terminam no silncio, desabam inesperadamente no vazio de longas noites sem esperana e sem consolo.

***

PS – Este um captulo do livro que escrevi em Fernando de Noronha, e que a ditadura no deixou ser publicado.

PS2 Quando Carlos Lacerda foi me visitar em Fernando de Noronha, (com meu bravo amigo e advogado George Tavares) viu que eu estava escrevendo um livro, disso logo: Helio, esse livro meu (da Nova Fronteira, sua editora).

PS3 Quando cheguei ao Rio, j se sabia que eu trazia um livro pronto. Fui procurado pelo editor e amigo de sempre, Alfredo Machado, da Editora Record, que reivindicou o fato de sermos amigos, muito antes de conhecermos Lacerda. Outros editores tambm se interessaram, queriam at fazer contratos.

PS4 A ditadura ento se movimentou, PROIBIU que EDITORAS, DISTRIBUIDORAS e LIVRARIAS tomassem conhecimento do lvro, do qual gostavam muito.

PS5 Curiosamente o primeiro a desistir foi Carlos Lacerca, compreendo, no podia se arrriscar, era 1967, o regime ainda no endurecera suficientemente, isso ocorreria em 1968.

PS6 Todos desistiram, o livro ficou guardado, rodamos 500 ou 600 exemplares numa grfica da Baixada Fluminense. As mquinas da Tribuna no imprimiam livros.

PS7 Agora, 43 anos decorridos, h quem queira publicar o livro, acho que tarde demais. Embora tenha alguma coisa interessante. Que seria sensacional, naquela vspera de 1968.

PS8 Hoje, sem qualquer explicao, resolvi rever e trazer a pblico o primeiro captulo do livro, to enclausurado, seqestrado e violado quanto o autor.

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